O filme 12 anos de Escravidão é um porta-voz da excelentíssima Academia do Oscar: filmes sensacionalistas, sem reflexão, mas que te emocionam até você comer uma pizza e/ou aplaudir de pé o recebimento de uma estátua dourada.

Eis então, doze escravismos presente no próprio filme:

1) Michael Fassbender representa o principal Senhor de Escravos. É o “vilão” da história. E que vilão, não é mesmo? O dono das Plantations norte-americanas mais sexy e bonitão que os livros de escravidão já viram. Num personagem que é um caldeirão de vilonices: bêbado, sapeca, trai a mulher, estupra a negra, bate e humilha os escravos, tenta ser cômido, é brigão, mandão e… vazio. Um vilão que não se conecta com a história, que não tem profundidade alguma. As vezes penso que Manoel Carlos escreve personagens menos rasos em suas novelas.

 

2) Outro bonitão, Brad Pitt, é um dos produtores do filme e faz uma pontinha no filme, claro, para deixar sua beleza estampada como o bonitão salvador – que só entra no filme para salvar o mocinho da forma mais simples que existe. Péssimo, mas um filme com Brad Pitt já aumenta um pouco o público, não?

3) A fotografia do filme. Eu já estive pessoalmente nestes cenários em que o filme é gravado. É sim uma beleza fora do padrão, mas vejam que céu bonito, que árvores diferentes, o negro chicoteado, veja este pôr do sol, a negra estuprada, veja então este rio, ou os campos de algodão… Como é fácil enganar o espectador colocando um monte de paisagem bonita no meio de uma história repetida.

4) A montagem ansiosa. Vamos rápido que só temos duas horas e dez minutos para contar a história de um negro que fora sequestrado mesmo sendo livre e fora re-escravizado por doze anos, sofrendo, sofrendo, sofrendo, mas daí veio alguém e o salvou e pronto, veja a família dele como cresceu e ele nem viu e nossa, é verdade, eu lembro de vê-los no começo do filme. O começo do filme são pinceladas do que vai acontecer, para ficarmos com imagens na cabeça que aos poucos vamos associando ao resto da história. Mas tudo passa rápido, muito rápido, até ficarmos boas horas vendo negros sofrerem em episódios repetidos: colheita – pesagem – porrada – conflito – porrada – drama – choro – possível escapatória – colheita – pesagem – porrada -….

5) Solomon Northup existiu. Foi um escravo, que se libertou, fora sequestrado e escravizado por mais 12 anos, até reconquistar sua liberdade, voltar para a família e fazer lutar por muitos anos no auxílio da libertação de negros. Vejam quantos eventos podem ser retratados… Um filme que focasse no sequestro de um negro ex-escravo? A história de um ex-escravo que auxiliou de diversas maneiras a libertação de outros negros? Não só estas, mas diversas outras possibilidades que pretendo expor a seguir, não são o foco central deste filme. Por quê? Não apetece a Academia…

6) É um filme sensacionalista ao preconceito. Ele não traz reflexão. Ele conta a mesma história do negro escravizado. A escravidão virou mercadoria para o cinema norte americano. As histórias são as mesmas, não há criação. Proponho então alguns itens des-escravizadores:

7) Poderia ser um filme que contasse a história de um negro ex-escravo que luta com demais senhores, e elabora estratégias e rotas, para acabar com a escravidão.

8) Poderia ser um filme que tivesse como elenco principal as crianças dos senhores e mostrasse-nos como aquela geração aprendera a tratar os negros e a propagar os preconceitos.

9) Poderia ser um filme que apostasse nas criações artísticas – e são muitas! – que os negros produziam nas senzalas e mostrasse isso como as formas de escape que foram criadas por tanta colonização.

10) Poderia ser um filme em que os negros fossem os senhores e os brancos escravizados, uma simples inversão de valores que renderia muito mais discussão e reflexão que a mesmice retratada por este filme.

11) Poderia ser qualquer coisa que tentasse, pelo menos uma vez, trazer algo de novo ao cenário da escravidão norte-americana e no mundo. Poderia ser tantos filmes, mas escolheu-se ser mais um filme que fizesse do sofrimento, espetáculo.

12) Poderia não ser um filme…

Mas o que mais entristece, não é um filme desses ganhar um Oscar, nem dois, nem três… O que é triste é ver este filme – dirigido por um negro – perpetuar os preconceitos e a escravidão. Sim! Emocionados e cegos, os espectadores tão tocados pelo filme não são capazes de ler as regras ditadas pela “maior premiação do cinema”. Pensem: as coisas não são assim… tão preto no branco.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

13 comentários

  1. Belo texto vinicius! Eu nao assisti o filme, mas faz muito sentido o que voce escreveu e a leitura do filme me parece ter sido muito coerente! Isso é algo que vem se repetindo infelizmente. A violencia como espetaculo vemos todos os dias em jornais e revistas, infelizmente atingindo todos setores. A critica em sua leitura foi possivel propor um olhar de outras formas para tal realidade na qual poucos param para pensar, até porque muitas pessoas que viram o filme elogiaram demais (nao julgando quem gostou, filme tem a caracteristica de despertar multiplas sensacoes nas pessoas), mas ouso afirmar que poucos para para ter uma leitura critica de um filme e ficam muito mais presos a imagem, na superficie! Assistirei o filme e incluirei a antes essa possibilidade de olhar.

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    1. Por favor Arthur, divida aqui sua opinião! E sim, é muito triste ver como o Oscar cada vez mais ganha espaço na mídia e uma definição do que é o “bom cinema” e infelizmente a Academia se tornou um aparelho ditatorial de valores (parafraseando o nome da primeira edição da revista deste blog), e o que mais me choca é ver que muitas pessoas simplesmente não param para DESCONFIAR do que veêm! Aguardo suas impressões do filme, e obrigado por ler.
      Abraço!

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  2. Achei coerente os apontamentos. A minha dica para você que tem uma mente tão autêntica é: FAÇA SEU PRÓPRIO FILME! Assim aos poucos vamos mudando alguma coisa. Infelizmente a crítica aqui neste blog ainda não muda o suficiente, mas produzir e criar algo novo com os seus princípios e opiniões sempre muda mais do que palavras, tem mais força!
    Abraços.

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    1. Renata, obrigado pelo apoio! Eu estudo cinema como posso, através de livros e pequenos cursos, mas se tudo der certo, este ano ainda ingresso na faculdade de cinema e posso tentar contribuir. Concordo com o que você falou, mas o exercício de (re)pensar aqui, já é um início, não?!
      Abraço

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  3. Embora você consiga expor suas ideias e argumentos de forma coerente e coesa, sua reflexão demonstra fraqueza em aprofundamento. Criticar uma produção cinematográfica não é uma tarefa tão simples. Sua opinião não passa de uma senso comum influenciado por ideais românticos que desejam uma narrativa repleta de aventuras e buscas por um final feliz! Assim que ingressar em uma faculdade de cinema,saberá que os melhores filmes não são aqueles que correspondem às suas expectativas, e sim, aqueles que abordam temáticas necessárias a induzir certa reflexão de seus expectadores. Até porque, CINEMA nunca deixará de ser um produto coletivo no qual a verdadeira importância está na repercussão social e não na correspondência de suas expectativas!

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    1. Eu não acredito que argumentei de forma coesa, apenas coerente. Quanto aprofundamento, também não concordo, acho que como o texto foi escrito rápido e sem revisões, pareceu desta maneira. Agora ” Sua opinião não passa de uma senso comum influenciado por ideais românticos que desejam uma narrativa repleta de aventuras e buscas por um final feliz!” é um grande equívoco, pois é justamente isso que o filme faz! E é isto que eu critico. E se você tivesse entendido a crítica – ou talvez se eu tivesse a escrito de forma melhor – teria notado que a minha preocupação é justamente com a repercussão social do filme (ao invés de minhas expectativas): um filme que ganha o Oscar na categoria de melhor filme, atinge uma parcela muito grande da sociedade e que reflete a uma maneira ditada de “como refletir”. Por exemplo: quem assiste “12 anos de escravidão” passa por questionamentos rasos e já visto antes sobre a escravidão. Quando “propus” outras maneiras (mais criativas) de contar o filme, não era para atender às minhas expectativas, e sim para trazer o novo ao coletivo!
      Do mais, acho interessante seu ponto de vista. Pode ser que na minha escrita eu tenha dado tais impressões que você relatou. Pode ser também reflexo da impossibilidade de ser ácido ao “melhor filme do ano”…

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      1. Muito pelo contrário, a sua crítica foi muito clara. Certamente foi o rapaz que não conseguiu entender o que vc escreveu. Aliás adoro teus textos, adoro o blog. Parabéns

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          1. Eu entendo o seu ponto de vista, mas antes de dizer que não existe valor em fazer um filme sobre o sofrimento da escravidão, é preciso examinar o público a qual o filme se dirige. Eu, pessoalmente, não me choquei com nada que ví no filme. Passei a juventude toda vendo filmes sobre escravidão e estudando o assunto em detalhe na escola, mas pelo que eu tenho lido em sites, reviews, entrevistas e revistas americanas esse tipo de filme é meio que inédito nos Estados Unidos. Grande parte da população americana não tinha a menor idéia de como era de fato o período da escravidão e esse filme serviu principalmente para informar-los a respeito do assunto e causar reflexão. Também acho que reclamar do fato de os vilões serem bonitos e brancos é meio ridículo, considerando que os “vilões” da época eram em grande maioria brancos. Fora que você resolveu ignorar o outro dono de escravo que existe no filme que é branco mas não é tão “mau” quanto os outros, quebrando esse padrão. Sei lá, fazer uma crítica que acaba com um filme que é, na realidade, muito bem atuado, executado e realista é um tanto ingênuo da sua parte. Acho que o filme não é incrível, mas merece reconhecimento sim. Fora que se o filme não fosse tão bonito de se ver ninguém ia aguentar assitir tanta desgraça por duas horas e meia =P

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  4. Eu pessoalmente gostei do filme; como você apontou, realmente falta-lhe profundidade, e se tivesse abordado outras situações (que você citou) renderia um debate muito mais inédito do que vemos sempre quando o assunto é escravidão. Mas, não é todos os anos que vemos um filme sobre o tema atingindo um público tão grande (e eu nem sei se eles são produzidos), e, como já citaram nos comentários, talvez para nós a face da escravidão abordada no filme seja rotina, mas nem todos têm essa visão. Então, apesar de o filme ser bem menos que ótimo, serve para informar de certa forma uma população que não tinha esse conhecimento, e quem sabe?, inspirar outros diretores que tenham uma ideia mais profunda sobre o assunto e, assim, disseminar coisas novas (e talvez mais importantes) sobre a escravidão.

    (Obs: adorei o que você apontou no tópico 8, acho que realmente é uma ideia a ser pensada!)

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    1. Concordo com você Ana Caroline! Em tudo! Acho que é inédito e novo para os norte-americanos. Mas fico pensando. Vão começar trazendo o novo para eles, com algo que já é batido? Nós brasileiros estamos acostumados com o tema, histórias e filmes sobre a escravidão, muito parecidos com este do Steve McQueen. E o preconceito continua!!! Porque eles vão começar a mostrar a escravidão lá, de uma forma que já é feita em outros lugares e que não gerou mudança nenhuma. Sabe?

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  5. Uai. Há muitas abordagens, sim, acerca da escravidão. Lembra-se do Tarantino com o excelente “Django Livre”? Cáustico. Satírico, quase. Agora, “12 Anos de Escravidão”, não obstante, como você expôs, apresente apelos repetidos à exaustão, é um filme comovente e bem elaborado, considerando-se tanta coisa insípida que existe por aí (vide “Gravidade” – nossa! aquilo é literalmente um vazio). Nem o título que sugere ambiguidade, me seduziu. Em resumo, há mais porcarias entre o céu e a terra do quem em “12 Anos de Escravidão.” Abs.

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  6. Infelizmente, não é um filme feito para ter profundidade, não é feito para mostrar as artes desenvolvidas pelos negros… É uma adaptação do livro escrito pelo próprio sr. Northup, que a tudo vivenciou. Quanto à sua crítica ao personagem do Sr. Epps, ele é exatamente como descrito(não fisicamente) no livro. Beberrão, estúpido e vazio, sem razão. A história contada pela ótica do próprio negro, que almejava sua liberdade e seu “final feliz” todos os dias durante os 12 anos, sim, uma boa história a ser lida e assistida… E o final feliz no filme (por mais florido que for) não foi para saciar o público. Foi porque realmente aconteceu à Solomon Northup.

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