Mister Lonely01Fé poderia ser o personagem bíblico Abraão levantando a mão para matar o seu próprio filho, sem hesitação na mente, e sem o tremer do corpo, o músculo forte e preciso feito a lâmina. Pois, agora não se trata de assassinato, mas sim de um sagrado ofício (sacrifício). Fé poderia ser sobre quando freiras saltam de seus aeroplanos sem paraquedas, e no ar entoam as suas prezes a um Deus que tem sempre os ouvidos atentos, a qualquer vibração no ar, pois já não se trata de suicídio, mas sim do milagre de cair no chão, mas ainda ficarem ilesas. Todos os dois exemplos colocam em risco, um bem do qual consideramos entre tantos outros o mais valioso: a vida

De um lado o assassinato e do outro o suicídio. A primeira imagem quem nos mostra é o filósofo Soren Kierkegaard(1813-1855) e a segunda é o cineasta Harmony Korine (1973-). Todos os dois pontos são belas imagens para o divertimento d’Ele e nosso – pois também nós levianamente gracejamos com o absurdo da fé, aquele momento explosivo no qual a razão acaba. Soren Kierkegaard nos conta a história de Abraão em detalhes. Ele nos fala sobre aquela possível angústia de sacrificar o próprio filho, em nome de Deus. Kierkegaard se coloca na pele de Abraão, como seria ter ouvido aquela voz, ter a experiência com Deus. Como seria levar o próprio filho para então matá-lo. O que Abraão teria pensado naquele caminho? Como ele teria amado aquele filho antes de ter que executá-lo? Como aceitar a voz divina? Talvez a pergunta devesse se transfigurar para: Como não se revoltar contra Deus? Esta revolta metafísica não se tem em Abraão, pois ele não segue a razão, mas sim a fé. Kierkegaard ainda maravilhado por este exemplo de fé pergunta se existem tais cavalheiros da fé, e parte a sua procura entre os seus contemporâneos, mas também não os encontra. Pergunta para si mesmo, se teria a fé de Abraão, mas não a tem. Kierkegaard seria um trágico grego, pois ainda estaria no âmbito dos homens. O filósofo nos deixa um pensamento quase enigmático: “porque amar a Deus sem fé é refletir-se sobre si mesmo, mas amar a Deus com fé é refletir-se no próprio Deus. Tal é o cume onda está Abraão”.

Outra imagem de fé interessantíssima e cheia de absurdo, comicidade e seriedade diz respeito à produção cinematográfica de Harmony Korine, no seu filme Mister Lonely (2007). Quando Korine foi perguntado sobre uma sinopse sobre o seu filme, ele disse friamente que se trata em termos amplos, sobre um imitador de Michael Jackson vivendo em Paris, que conhece uma imitadora de Marylin Monroe e então vão para uma cidade de imitadores. Eles querem fazer um grande espetáculo para que todos os vejam. Ao mesmo tempo, existe uma história sobre freiras pulando de aeroplanos – e é esta história que nos interessa, pois se tem o Padre (Werner Herzog) levando comida para alguns locais, e ele chama várias freiras para ir com ele no aeroplano. O padre então começa a dizer com extremo vigor e felicidade, para as freiras jogarem a comida lá embaixo, pois todos estavam famintos e é neste momento que uma freira cai do aeroplano, e com uma calma estoica junta uma palma da mão com a outra, e começa a rezar. Vemos a freira despencar no chão e sair ilesa: o milagre está feito. Algo belo e cômico, pois vemos a freira em um esforço inútil ao clamar por Deus, contudo o absurdo é ela sobreviver. A freira que passou por isso, agora nos diz ainda algo mais estranho, ela passa a pregar o milagre. Diz às outras freiras que Deus quer que todos pulem de aeroplano, sem paraquedas. Neste momento então se tem a cena mais bela do cinema independente norte-americano: varias freiras pulando do aeroplano e fazendo acrobacias no ar – a fé novamente se mostra como um paradoxo, como um absurdo entre razão e fé.

O filósofo Kierkegaard marca bem este limite entre razão e fé – a razão estaria em um estágio moral do ser humano, mas Abraão não esta mais junto a este moralidade, ele está num estágio religioso. A freira que convida as outras amigas a pularem de um avião sem paraquedas também não esta em um estágio moral, mas sim neste mesmo estágio religioso. Na primeira história felizmente, Abraão não mata o seu filho Isack, pois Deus queria testá-lo. Na segunda imagem, a respeito dos pesadelos de Korine transformados em cinema, se tem um mar de freiras mortas indo e voltando com o ritmo das ondas. A fé tanto em Kierkegaard quanto em Korine, leva a cumes muito altos, que é próprio da fé – e esta fé está muito além do racional.

Mister Lonely02

Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

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