O padrão majoritário é vazio. O homem macho, adulto, não tem devir. Pode devir-mulher e virar minoria” – Deleuze

jr_pina_bausch_nelken_accordion_alt_500
Pina Bausch

* antes das vaias, leia até o fim. A crítica é sutil e exige cuidado para não criar um mal-entendido.

Esta página é de uma imanência absoluta (veja aqui), por isso não pode concordar com qualquer ídolo transcendente que seja afirmado. Todos os deuses caíram, e com ele a forma-homem já está rachando e ameaçando ruir também. Tanto trabalho por nada? Não, não criaremos novos ídolos, não criaremos novas identidades, não deixaremos o dia da mulher se tornar o que vem se tornando. A mulher feminina, a mulher bem-sucedida, trabalhadora, boa mãe, magra, a mulher produtos de beleza.

O devir-mulher é a possibilidade que Deleuze encontrou de não fazer parte dos jogos de identidades formadas pelas políticas atuais do multiculturalismo, pós-modernismos, dos humanismos e das políticas dominantes que opõe (mas junta) homem e mulher. Pois o devir-mulher traz a possibilidade de fluir nos signos assignificantes, isto é, produzir novas subjetividades, escapar das  formas de existir oferecidas pelo capitalismo consumista (e não (con)sumista), da moral cristã e do pensamento globalizante e massificador.

O devir-mulher é a primeira linha de fuga que se traça para além de todas estas identidades, mas ela já começa a ser reterritorializada pelos meios midiáticos. A mulher pede reconhecimento, ela pede poder, pede direitos, o homem generosamente lhes dá. Mas é preciso cuidado: o poder dá com uma mão e tira com a outra. Assim como qualquer outra minoria ela quer que o poder dominante lhe conceda uma fatia. (já tratamos disso com relação ao casamento gay). O ídolo que estamos erigindo será nosso mais novo ditador. A mulher também pode ser reprimida pela forma mulher que criou e colocou em um altar, e agora a ameaça se não cumprir suas leis.

Aqui Deleuze pode nos ajudar, todo homem, para devir minoria, precisa antes passa pelo devir-mulher. Não é tornar-se mulher, é apreender através dos fluxos e dos movimentos como se dispor de um modo novo no mundo. Não é imitar o que imaginamos ser a mulher, não é colocar vestido, é criar com sua própria potência uma organização minoritária. Não queremos ser homens! Não queremos ser brancos, nem heterossexuais. Não deixaremos a barba por fazer, nem compraremos o carro do ano. Mas também não deixaremos uma identidade para cair em outra.

Não se trata de imitar a mulher… não é isso um devir, não é tentar imitar um modelo. Trata-se de fazer os seus fluxos entrarem em ressonância com os da mulher para que algo novo possa emergir (até a mulher precisa devir-mulher). Ela sempre viveu na borda? Pois bem, vamos viver na borda, habitar as zonas de devires, saber nos movimentar sempre na tangente.

Nunca ser engolido pelas representações, nunca ficar preso numa identidade. Estaremos tão distantes que não conseguirão dar um nome, não haverá um dia para o que criaremos. Não é imitar a mulher, nem juntar homem e mulher (e ser bissexual, travesti?). Estaremos à margem, navegaremos por mares desconhecidos. Não sejam mulheres, devenham mulheres! Complicado? Não, é muito simples: ninguém é, todo mundo esta, e estar mulher é muito melhor que querer ser homem. Acreditem, a forma homem não tem devir, é uma pura ideia, um regulador, ela é letra morta, ela é o último estágio do niilismo.

A mulher é o sexo frágil? Só escuto homens dizendo isso! Por isso temos tantos problemas, não é pra comparar! O homem não pode entrar em devir, ele é uma forma, uma ideia, um modelo, um retrato, uma infeliz identidade repressora que captura os fluxos. E quando instituem o Dia da Mulher dá-se início ao mesmo processo, reterritorialização, criação de identidade, concedendo direitos (mas claro, exigindo deveres). “Ser mulher é ser assim, vista-se assado, vá na academia, compre tal perfume, cruze as pernas“? Ah, faça-me o favor!

Não é oposição, é passar entre, sair dos dualismos, sair das comparações, explodir dicotomias. Criar-se no encontro, sem pensar em uma identidade, isto é devir-mulher. Ir para além do organismo, da máquina de trabalho do status quo, isso me parece mais interessante. A mulher que imita o homem é a morte do devir-mulher.

Desejo é produção, não falta (veja aqui), é criar novos territórios, não pedir parar ser aceito nesse, o devir-mulher é a primeira possibilidade para entrar em devir, o primeiro passo, e que os homens também tenham devir-mulheres! Não queiram ser maioria, não deixem de ser minorias, vamos explodir o mundo das maiorias, injetar tanto caos que ele vai desabar, derreter em uma multiplicidade de novos devires, as diferenças vão transbordar, e nadaremos alegremente nelas.

Se antes a mulher era um mero objeto, e, imposto por uma cultura machista, seu desejo era ser desejada pelo homem, hoje ela tenta se equiparar ao homem, ser vista, respeitada, reconhecida: as duas coisas são absurdas. Dane-se o dia da mulher, dane-se o reconhecimento, danem-se os direitos, não precisamos deles. O homem branco vai morrer de tédio, enquanto vocês criarão, também através da dor e da luta, novos devires, novas formas de existir e de se expressar. Que as mulheres se tornem artistas e não modelos! Sim, isso me parece muito melhor, afinal, quantos homens não entraram em devir-mulher pra fazerem suas obras? Todos os ídolos têm pés de barro, e não deixaremos nenhum de pé, inclusive a mulher.

Pina Bausch
“Pina”, de Wim Wenders

Drama da Carne – Vinícius Lopes

Por fim, disse ao mundo: eu me rendo!

E todos riram uníssonos, sem prévio ensaio.

É que não há este movimento o qual eu tanto relutei

É um simples ir-se

Não vendo como paredes,

Os obstáculos que lhe servem para piadas, ironias e histórias de carnaval.

Mas o drama sempre viveu em mim,

E eu, insensato, queria viver nele…

Por isso todo este prólogo para o clímax

Pra surpreender o clítores com coisa nenhuma

Dramatizar um corpo qualquer,

Perder o gosto bom de ser mulher.

Devia eu ser atriz de comédia:

Acabava com todos os medos,

Fatiando-os em piadas na mesa…

… e ainda saía toda gozada!

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

7 comentários

  1. Olha, é, sem dúvida, complicado escrever sobre um devir-mulher sendo homem. Não que você não tenha esse direito, Rafael, mas se é pra escrever sobre isso tenha um pouco mais de rigor nos conceitos de Deleuze. Para os entusiastas desse brilhante filósofo, não existe deleuzeano, e nisso acredito, sendo igualmente um entusiasta dele. O problema mora quando aceitamos pequenas ‘palavras de ordem’ ao entrar em contato com a filosofia dele, como ”desejo não é falta”, ou ”é necessário devir-mulher”, etc.
    Uma crítica construtiva, e logo, que pretende compor potencialidades, da minha parte ao seu texto, seria a de que você checasse com mais rigor mesmo esses conceitos que você usou, que você se valesse mais da concordância. É muito complicado falar sobre o devir em Deleuze, ainda mais daquele conceituado no Mil Platôs, e ainda por cima dar bobeira com a noção de devir-mulher é brincar com uma minoria que pode facilmente estranhar essa abordagem da relação entre mulher e homem.
    Componhamos a potência da filosofia de Deleuze, Guatarri, Spinoza, Nietzsche e afins com material que lhes tomem à altura de seus pensamentos. Você faz isso muito bem em vários textos, mas esse precisa de uma revisão, na minha mais sincera opinião.
    Abraços carinhosamente libertários!

    Curtir

    1. concordo! este texto será revisado e ampliado em breve. Temos este cuidado de respeitar os conceitos cuidadosamente desenvolvidos por estes grandes filósofos.

      Mas somos irresponsáveis o bastante também para deixar nossa emplogação nos levar sempre perigosamente longe, falando de conceitos que ainda não dominamos completamente.

      Obirgado

      Curtir

      1. Se eu puder pedir licença aos meus gostos pessoais pelos seus textos, em particular, diria que em um outro momento desse texto pode ter havido uma “mão pesada” sobre a construção das travestis e dës bissexuais. Não sei ao certo se poderíamos/deveríamos dispor de um cerceamento pelos diversos modos de vida com que algumas pessoas que se identificam desse modo podem exercer.

        Acho que podemos rever que a ideia de ser travesti enquanto uma potência de transgeneridade (muitas travestis se entendem como trans e outras não se entendem, então há controversias) pode ser considerada uma construção em si de exer-ser, ou seja, do devir.

        Em todo o caso achei um texto com ótimas contribuições mas custo a adotar esse tipo de posicionamento político enquanto próprio já que ele passa a ser um impeditivo a possibilidade de entendimento do mesmo a alteridade. Para mim, entendo que, enquanto apoiador de um modo de Ser, não poderia, em qualquer caso, impedir outras formas de Ser que não estejam em concordância com a que acredito. Acho que nesse ponto concordo com o Marlon Cardozo, que escreve acima.

        Curtir

  2. Aplausos!
    Eis aqui uma mulher que aplaude o texto do Rafael, que faz mais sentido para mim do que qualquer discurso feminista ou igualitário.

    Curtir

  3. Um homem escrevendo sobre mulheres e principalmente no dia* da mulher é sempre muito delicado porque a perspectiva nunca será a de uma mulher e a sensação que eu tenho é de deja vù, sempre a mesma história de HOMENS (aqui não importa se é homo ou hetero, pois é homem mesmo assim) dizendo o que tem que ser feito, o que é devir mulher, o que queremos ou não queremos ser agora…

    Curtir

  4. Parabéns por sua coragem, pela liberdade em escrever. O caminho do aprendizado em filosofia, assim como em qualquer área, é aberto e nunca termina. Se é necessário alguns ajustes? Com certeza, mas seu texto tem algo que a academia teima em nos arrancar: nossa espontaneidade, nosso amor.

    Curtir

  5. Adoro o blog! Parabéns! Os textos tem reflexões ótimas sobre os pensadores e me soam muito potentes em suas invenções e misturas! Me fez lembrar da história de alguns orixás, que tem porções mulheres contidas neles mesmos; por definição, já são indefinidos! O que soa incrível! Fora a música do Gil, “Super-Homem”, onde ele diz:

    “Que nada, minha porção mulher que até então se
    resguardara
    É porção melhor que trago em mim agora
    É o que me faz viver”

    Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s