logoNem todos sabem como é difícil obter uma concessão para ocupar legalmente uma faixa de frequência no rádio. Para além da especulação imobiliária em matéria de ondas eletromagnéticas, pouca coisa resta: rádios institucionais, estatais e algo de independente. A maior parte da banda que vai de 87 a 107Hz, que é a destinada para o rádio comum, é dividida em dois grandes grupos (ou bancadas, como preferir): de um lado, o espaço da publicidade disfarçado por músicas-produto ou notícias-factoide; de outro, o espaço das rádios religiosas que intercalam os pedidos de doação e dízimo com a palavra de Deus.

Um dia destes, eu, parado no trânsito, trocava entre duas dessas rádios na mesma frequência em que trocava da primeira para a segunda marcha. Ouvia um pedaço dessa, voltava para aquela e, assim, ia costurando meu tédio com um pouco de indignação. Pois bem, a princípio achei que estava realmente indo da água pro vinho, do sagrado ao profano, dos conselhos do pastor para os das teenagers descoladas. Não sei como demorei tanto para me dar conta…

O pastor dizia ao rebanho: Sabe aquele seu primo que desistiu da Igreja e agora vai no centro espírita? Aquele lá que trocou a casa do Senhor e os seu ensinamentos pela macumba? – Eu pressionava o botão e ia para a outra onde as meninas conversavam num tom íntimo e descontraído: Não tem coisa pior mesmo. No motel, eles têm que pagar a conta. Uma amiga minha já foi com um cara que jantou com ela no quarto e ainda quis dividir, acredita? – e eu mudava – Corre e tira ele de lá, pelo sangue de  Jesus! Mostra pra ele o caminho da salvação, vaso! – de novo – A gente fez aqui uma listinha pra ajudar você, amiga. Primeiro, nunca coma algo muito pesado antes de ir com o gato pro cafofo, né? – Elas riam, o pastor gemia. Nessas idas e vindas, e nos trezentos metros que eu andei enquanto ouvia, eu ia achando tudo bastante engraçado. Foi então que ambos pronunciaram a mesma palavra: “Nunca!” seguida de vários “Não pode” seguida de alguns “Você tem que.. Você deve”.

Continuei com a brincadeira, mesmo depois de ter me tocado de que ela tinha perdido a graça: Tá na Bíblia! Veja a história de Saúl, por exemplo, aquele que foi consultar a feiticeira. Ela falou assim… É uma questão de bom senso, levar a camisinha para não ter imprevistos, vai saber se lá eles não usam a marca da pegação [e aqui eles fizeram uma pequena publicidade]… Se você procurar outros deuses, você vai estar se entregando pro Diabo.  É o primeiro mandamento …. Checar sempre se os lençóis estão limpinhos! E ai de quem usar o cobertor … Só tem uma verdade, que é Cristo. O resto é armadilha pra te tirar do caminho … do Motel. Afinal, é melhor ir longe de casa pra não dar o vexame de encontrar alguém conhecido…

Tão diferentes superficialmente, mas tão semelhantes formalmente. Ambos os discursos partiam de um julgamento comum para criar uma moral transcendente. Um dever travestido de estória ou piada não deixa de ser um dever. Os conteúdos também pouco diferiam: mudavam os sacerdotes de acordo com os ídolos, mas a adoração continuava lá e, junto com ela, a negação, o sacrifício, o mandamento, o ideal ..

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

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