Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons­truídas à margem de um rio de águas diá­fanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enor­mes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para men­cioná-las se precisava apontar com o dedo” – Início de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

100 Anos VFoi com tristeza que, faltando dez páginas para terminar Cem Anos de Solidão, fiquei sabendo da morte de Gabriel García Márquez. Parece que o fim da obra coincidiu com sua morte porque o próprio livro é de uma solidão que não poderia terminar de outra forma. Tudo acontece de maneira trágica, invitável e ao mesmo tempo ficamos facinados pela beleza do inequívoco destino desta família, os Buendía.

O realismo fantástico é um gênero literário que descobri faz pouco tempo. Saramago, Ítalo Calvino e Márquez têm sido seus representantes para mim. Suas histórias se misturam às minhas leituras de psicologia e filosofia. Muitas vezes aprendo mais lendo estas histórias que nunca aconteceram do que com as “pesquisas científicas” de livros escritos por famosos psicólogos e filósofos que dizem ter descoberto as profundezas da alma humana. Enfim, poderia falar muito disso, mas vamos ao livro.

Cem Anos de Solidão conta a fundação de uma vila chamada Macondo por José Arcádio Buendía e Úrsula Buendía. Ao longo da história, passamos por várias gerações desta família, cada uma vivendo histórias inimagináveis que são interligadas pelos acontecimentos extraordinários da casa e da cidade em que moram.

Cada personagem é absolutamente singular, mas existe uma forma de repetição que acontece como que por baixo de cada acontecimento. Estranhos laços parecem prender cada um da família. Isso já é claro pelos nomes: José Arcádio e Aureliano, que se repetem em todas as gerações. Mas a principal característica é a enorme solidão que envolve cada um dos membros. É impossível escapar, trata-se do habitat de cada um, seu território, sua sina. O silêncio, a distância, a dificuldade da alma humana entrar em contato com o outro e principalmente com o mundo.

Tudo isso preenchido pela prosa magnífica de Márquez e seu realismo fantástico. Aqui eu poderia citar inúmeros casos sem com isso estragar a narrativa: pessoas que saem levitando, chuvas torrenciais que duram dez anos, formigas enormes e invencíveis, borboletas amarelas que denunciam amores, guerras intermináveis, ciganos misteriosos, insônias que contagiam os moradores, animais que ficam prenhes como coelhos, filhos com rabo de porco. São muitos acontecimentos extravagantes que são tratados pelos moradores de Macondo como as mais naturais das coisas.

E talvez aí esteja a beleza do mundo criado por Márquez, a magia não está apenas nestes acontecimentos, mas sim na vida em si, e eles se misturam. O mundo já é tão incrível e estonteante que pessoas aprenderem a fórmula da pedra filosofal ou provarem a existência de Deus através dos chocolates passa a ser coisa pouca.

Terminei o livro com uma avidez que poucas vezes senti. A história da família Buendía é algo que me acompanhará para sempre e se fará presente em todos os meus momentos de solidão. Sua prosa nos leva para outros mundos, distantes e inimagináveis, mas ao mesmo tempo com todos os problemas e belezas da vida corriqueira dos habitantes de uma aldeia comum. Talvez por isso García Marquez seja um gênio, ele tira magia da realidade ao tornar mágico o cotidiano.gabriel-garcia-marquez

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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