Vitrinismo

hqdefaultNa rua Alfa há um bar

em esquinas parelelas

sempre um novo bar

Do mundo surdo

Caldo e tudo,

da boemia.

___

Entre bares há vitrinas

destas,

que expõe manequins

e refletem manequins.

___

Mas há na rua Alfa, uma vitrina que se difere de todas as outras

não por ser diferente, mas por ser igual a todas as outras.

___

Nesta vitrina,

O Recanto das Artes,

Há um manequim sobrevivido.

Ele se move, ele dança, ele é artista,

da fome ou não – aí é ao critério do leitor,

mas artista.

___

Os estudantes de teatro,

veneram.

As modelos de fotografia,

invejam.

Os jornalistas de plantão,

anotam.

As senhoras em questão,

recordam.

O povo de capital,

faz conta.

A criança de quintal,

faz de conta.

___

A moça que limpa a vitrina,

e vez em quando serve água

para o artista que só faz o vitrinar,

a vitrina não pode mais limpar.

A moça, que nada estudou,

nada fotografou, nada plantou,

nada questionou, nada comprou,

fez de conta que o fantoche era gente!

___

Deu água

___

E limpando a vitrina,

deixava límpido o olhar ao manequim vivo…

Largou o emprego,

em meses a sujeira acumulada na vitrina,

fez do vidro: espelho.

___

Hoje quem passa na rua Alfa,

ainda não entende porque a vitrina do manequim vivo

é diferente não por diferir, mas por ser igual.

___

Não faz mal.

___

A moça que deu água,

sujou a vitrina,

hoje é tranquila:

da banho em animal.

A poesia “Vitrina” fora escrita após a visualização do filme “O Homem Elefante” de David Lynch. As sensações causadas pelo filme foram impressas em formas de versos, na tentativa de re-contar uma história sem perder os elementos narrativos e cinematográficos tão próprios da sétima arte e que, por serem próprios, articulam-se de tal maneira que causa essas sensações… capaz de poetizar. A tentativa de atualizar as angústias que o filme causa foram metaforizadas. O filme de 1980 ainda é atual aos dias de hoje e causam embotamento aos olhos que o vê de forma contemporânea. É impossível calar-se diante de um mundo em que o diferente não é visto como semelhante, mas exposto como bizarro. A cracolândia não fica distante do universo londrino retratado no filme.

 

Onde vemos e reconhecemos o próximo?

 

A angústia de ver John Merrick (O Homem Elefante) gritando no banheiro do metrô de Londres que é um homem e não um elefante é tão recorrente em nossos dias que não há palavras que expressem e nem silêncio que caiba em meu peito. Há então, a poesia…

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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