“O verbo acende um fogo, o sujeito vem se aquecer, esse sou eu, como é? Daqui dá para ver o objeto muito bem, além — a terra de ninguém do silêncio. Aqui faz frio, peço desculpas por fazer tão frio, faz tanto tempo que eu sinto frio que já nem sinto frio, já nem sei se isso é frio”

– Paulo Leminski

1O filme Ex Isto de Cao Guimarães, estreou em 2010, parte do repertório de Iconoclássicos. O filme livremente se baseia no livro Catatau do poeta brasileiro Paulo Leminski. Tudo ocorre a partir de uma simples frase “E se Rene Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?”

Nada além.

Repito.

2Nada além. disto é necessário para compor ao público um filme tão sensorial e sensível que não cabe reflexões. Apenas experimentações…

A trajetória de nosso herói, Descartes, explorando as terras brasileiras pode ser entendida como uma metáfora da racionalização desenfreada em busca por uma verdade – que jamais alcança – entrando em contato com o mais puro ecstasy de mergulhar no profundo desconhecido de nossa pele – união do encontro do mundo, com nós mesmos. De cara, o herói nos convida a colocar o juízo moral de lado por algumas horas. Pelo menos até o filme acabar.

10178014_10203300725296897_6832977606753970231_nrio do mistério

que seria de mim

se me levassem a sério?

E conforme o personagem caminha, e vai se redescobrindo mundo afora, somos convidados a caminhar com ele. Por ambientes às vezes conhecidos, às vezes desconhecidos, mas sempre ambientes que pela luz, pelo som, e pelo não estar constante (ou um constante estar) nos sempre leva a dois destinos: o novo e o estranho. E é a partir disto que podemos apenas sentir o filme. É como se o filme fosse tátil – assim como as poesias de Leminski – ou como se o filme fosse olfatível – e pudéssemos cheirar o mar e os ventos os quais o personagem pode se deleitar.

cine luz

o cine tua sina

o filme FEEL ME

signema

                               me segure fime

cine me ensine

a ser assim

                            e a ser senda

10302374_10203300725856911_3148982484066668135_nAssim somos convidados a re-experimentar os ambientes que somos expostos diariamente. É um baile a ser feito, entre o urbano que se desdobra para nós e encontra com os poros que – agora – permitimos florescer. A arquitetura molda-se a cada humano que ela habita. O mundo agora é mole, maleável, frutífero. É a capacidade da criança em ver graça em tudo, pois tudo não passa de um objeto novo que podemos brincar e explorar – sem juízo racional para nos impedir.

Cada rotina se transforma em novidade, em múltiplo pulsar. O mesmo deixa de existir no vocabulário e abre alas para o inédito. A existência deixa de ser virtude, e o verbo existir se recolhe em timidez. Ex-isto. Tudo o que acontece, é sempre um vão segundo para a passagem de um novo acontecimento. A realidade deixa de existir em concretude, e tudo vira passado, vira extermínio, exposição, experiência, ex, ex, ex…. isto.

Dança da chuva

senhorita chuva

me concede a honra

desta contradança

e vamos sair

por esses campos

ao som desta chuva

que vai sobre o teclado

(Paulo Leminski)

Interessa-nos Descartes, simbolizando a razão. A fome pela verdade. A vida na biblioteca. Eis que se apresenta de forma metafórica, encorpada e muito bem vestida a razão. Mas há uma razão mais sutil, quase um véu… Pois Descartes foi estando, se encontrando com o mundo e nada dizendo, pre-dizendo, desdizendo… A razão, senhora dos gerúndios, foi dando espaço aos verbos intransitivos. E é nestes verbos que pode habitar um hiato:

invisível

.

.

.

indizível

.

.

.

intraduzível

… um hiato que transcorre a nossa percepção, pois nos dá uma nova certeza. Trata-se da razão que se dá ao que o corpo sente. É como Descartes, experimentando tudo o que o mundo lhe traz, explicasse porque seu contato com o mundo lhe fizesse sentir assim. É como se escondesse atrás dos livros para não viver; ou se escondesse atrás dos livros após o viver. O corpo pede somente o corpo – a mente? É qualquer massa cinzenta. Ninguém pode viver com o cérebro se apenas nossa pele compactua com a natureza.

5O final: nu com a natureza. O pelo se multiplica, a pele estende e dialoga melhor. Porém esse texto não é mais um texto, na medida em que tudo o que foi digitado nada fora escrito. Ninguém ao menos o leu. Dançar com as poesias de Leminski – que não compõe diretamente, mas sobrevivem ao Catatau – é muito mais que ser Descartes. Ou que esse conjunto de palavras acima. É preciso que este texto não seja um texto. É preciso que este texto não exista para ex istir.

6

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

2 comentários

  1. Demais!!!
    E vivam as experimentações!

    Por um mundo mais “catatau”(*) e menos ” “catatônico”(*).
    😉

    (*)Dicionário informal
    Significados
    Catatau: grande quantidade de qualquer coisa.
    Catatônico: Um indivíduo catatônico é uma pessoa viva, indiferente ao mundo exterior.

    Curtir

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