opsPé ante pé, ombro a ombro, entre palavras a Razão Inadequada se fazia pelas ruas da av. Paulista. Nada muito distante do habitual, até nos depararmos com uma troca pública de figurinhas repetidas. Maços envoltos em elásticos, números anotados em papéis esperando para serem rasurados, pastas lotadas de bustos nomeados e à disposição. Que interação singular! Um escambo de papéis colantes ali no meio da rua, exemplar. Uma pena que não houvesse a emoção do bater figurinhas, um esporte tão digno de nota quanto o futebol.

Aquele encontro nos tirou totalmente a atenção do assunto que então vínhamos conversando: “Qual o sentido de colecionar figurinhas?” foi talvez uma das perguntas que fizemos um ao outro, se me lembro bem. Lembrei logo dos álbuns da infância, que estariam até hoje incompletos, se por um acaso eu os houvesse guardado. Essa memória me fez cuspir uma frase de todo inadequada: “Que lógica é essa dos álbuns? Criar uma demanda insana e produzir uma mera dezena de figurinhas do Sneijder? Que porra-louquice é essa?”.

Criada a jogada, oportunistas que somos, arrematamos e, creio eu, foi um golaço: o álbum da copa é um ótimo exemplo do que chamamos de produção da falta. Essa noção é cara à publicidade, por exemplo, pois ela opera todo o tempo invertendo nosso desejo, esvaziando nosso consumo, escavando nossa vontade,  é uma verdadeira máquina de buracos. Não basta criar uma demanda, é preciso criar uma ausência. Produzir a falta é uma tentativa frustrada de esvaziar o desejo, não resulta em mais do que tristeza. O colecionador precisa se coçar de raiva vendo aquele espaço vazio em uma das páginas de seu amado álbum.

Não há nada de errado em colecionar figurinhas, aqui o julgamento não nos interessa. O que importa é escapar à lógica da falta, para que dela não nos tornemos escravos. Quando vemos que completar o álbum ultrapassou a simples vontade de trocar figurinhas, temos um perfeito indicativo de vitória da imagem, do mito, da falta. Não me falta a última poesia, não me é ausente a onda perfeita, nem a última manobra, muito menos a última figurinha brilhante.

 

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

4 comentários

  1. Mano, o cara está desempregado, pobre, a namorada deu um pé na bunda, sem amigo, fudi……, e não FALTA nada? Acho pouco compreensivo tudo isso,pelo menos no campo
    da realidade.

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    1. Você está falando por ele, não podemos realmente saber se a ele falta isso. Lembremos que Diógenes morava num tonel ..

      Se assumirmos que ele quer essas coisas, então, de fato, essas coisam faltam a ele. Mas isso não significa que o seu desejo precisa delas como um buraco a ser preenchido, pelo contrário, o seu corpo é uma máquina que deseja que cria o tempo todo, a este não falta nada.

      Se estiver interessado, dê uma lida nesses textos:

      https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/02/08/deleuze-desejo/

      https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/05/10/deleuze-maquinas-desejantes/

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      1. Mano, li teus posts, mas confesso que achei difícil de entender.
        Seria correto dizer que nunca falta nada, no sentido de que aquilo que
        agente quer está na nossa imaginação, na transcendência, e o que agente
        de fato necessita é a nossa realidade? A gente só tem aquilo que de fato deseja? Socorro, cara. tudo muito complicado. De qualquer forma, muito massa o blog.

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        1. É complicado mesmo! Principalmente porque nós costumamos pensar o desejo como falta: há toda uma tradição filosófica/psicológica/sociológica … que o interpreta desse jeito.

          A questão é que alguns filósofos (Spinoza, Deleuze, Onfray, por exemplo) interpretam o desejo não como falta, mas como excesso. Aqui não há transcendência. O desejo para eles é algo criador, revolucionário, pois ele não simplesmente “quer” um objeto, aliás, ele não quer nenhum objeto, ele quer a si mesmo, ele quer ser desejo e desejar cada vez mais. É antes um movimento de um organismo potente do que um apelo platônico a algo que falta…

          Espero ter ajudado um pouquinho. Tem um outro texto um pouco mais didático .. dê uma olhada:

          https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/12/01/desejar-verbo-intransitivo/

          Obrigado pelo elogio e pela discussão!
          Um abraço.

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