Já estamos cansados de colecionar recortes de jornal com casos de moradores que resolvem fazer justiça com as próprias mãos. “Justiceiros” que levam a “ordem e progresso” para nossas ruas já que as autoridades não fazem nada. É isso que queremos? Seria isso justiça com as próprias mãos? Pessoas representando o estado policialesco?

Oh, como eles mesmos estão no fundo dispostos a fazer pagar, como eles anseiam ser carrascos! Entre eles encontra-se em abundância os vingativos mascarados de juízes, que permanentemente levam na boca, como baba venenosa, a palavra justiça” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §14

Bandido bom é bandido morto” ou “direitos humanos para humanos direitos” são frases que escuto constantemente. Me dá medo, a violência e a morte está muito presente em nosso cotidiano. Datenas e Rezendes estão aí para nos dizer diariamente da violência nas ruas e nos incitar a sublimar nossa violência vendo a cabeça do bandido debaixo do coturno da PM.

Então, a partir do momento que uma jornalista estupidamente ousadamente diz que devemos fazer justiça com as próprias mãos, o povo sai às ruas para punir “devidamente” aqueles que não andam na linha, não são pessoas de bem, não são trabalhadores obedientes pegando duas horas de lotação na volta pra casa. À propósito, defendo até o fim a liberdade de expressão, para mim, Sherazade pode dizer o que quiser; o que me assusta é um povo tão manipulável, e tão facilmente levado a atos de tal violência. Apologia ao crime? Deixa ela falar o que quiser, meu receio são as pessoas que escutam e aprovam.

Mas a grande questão “fazer justiça com as próprias mãos” não é um problema para mim. Sinceramente acho isso algo bom, e vejo bons exemplos disso. Precisamos tirar o poder da justiça distante e mentirosamente cega. A justiça nunca esteve do nosso lado: burocrática e tendenciosa ela sempre beneficiou aqueles no poder; que não por acaso são os que fazem as leis.

Precisamos tomar o poder para nós, para o povo, para a realidade e o cotidiano. Não mais deixar que digam como e quando temos que fazer, não mais deixar letras em um papel nos guiar pela dinâmica do dia a dia. Não é a bíblia nem o código civil que deve dizer como devemos agir uns para com os outros, é a nossa própria capacidade de nos relacionar pelo nosso bem e dos outros. A lei é algo limitada pela imensidão da realidade, tão móvel e relativa que não é possível julgá-la com um Vade Mecum na mão. Temos capacidade de fazer isso? Claro, fazemos justiça diariamente, em associação de moradores, em casa, na escola, nas ruas. Somos seres políticos, somos seres que dão valor às coisas e às pessoas. E, acreditem, sabemos nos relacionar sem nos matar ou exigir a lei de uma instância superior.

Não podemos ser o oprimido querendo se tornar opressor. Nos confins do nosso país, onde a lei não alcança, os poderosos fazem justiça com armas. É isso que estou propondo? Claro que não, mas lá eles entendem que direito é sua potência de exercê-lo! Quando foi que criamos um povo tão dócil e submisso que é dominado tão facilmente? E ainda metemos na cabeça deles que não ser oprimido é ser opressor! Então, quando temos demonstrações de “justiça do povo”, ficamos horrorizados e pedimos “pelo amor de deus! Volte opressão, volte poder, não sabemos agir sem vocês”.

Enfim, para concluir, defendo a desjudicialização, defendo a justiça com as próprias mãos, mas não acredito que estes casos sejam um bom exemplo do que estou dizendo. Não devemos fazer justiça como o Estado faz, prendendo, matando, oprimindo, aterrorizando, torturando. Justiça não é assassinato (o Estado que mata é justo?). Se formos agir, que seja pela vida, que minha ação seja para potencializar a vida e não para gerar terror e morte.

jovem preso ao posteVeja também “Interpretando os linchamentos populares com Bauman

                         “Nietzsche e a Justiça

                         “Stirner e os Direitos Humanos

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

17 comentários

  1. Gostei do texto, mas fico pensando em algumas outras questões sobre isso.Acredito que temos aqui um problema de origem, e que não envolve apenas a influência midiática. De fato, somos capazes para pensar e agir pela vida, mas isso não diz respeito só à justiça, nem só ao imaginário dicotômico entre opressor x oprimido. Penso que, mesmo que quebrássemos com esse imaginário, com o poder alienado da justiça e com a ação influente da mídia ( pró- violência), ainda teríamos processos de extrema violência. Como diria Hannah Arendt, estamos todos envoltos pela banalidade do mal. E isso não diz só respeito a falta de acreditar nas nossas potências, diz respeito à falta de recursos que contribuem para nossas potências. Precisamos de mais participação pública, precisamos equilibrar esfera pública de esfera privada, precisamos olhar para fora um pouco, unir pessoas, refletir com pessoa, participar com pessoas…
    Quando digo algo sobre origem, quero dizer algo de nossa história social e política que tem reflexo direto a tudo isso que está acontecendo. Quando penso nesses linchamentos, penso que qualquer pessoa poderia ser linchada, mas não o é. Quem sofre esse tipo de violência sempre é a classe mais pobre, na maioria de etnia negra e dos bairros mais periféricos das cidades. E isso por quê? Porque elas que estão mais vulneráveis e que historicamente foram desqualificadas e desprovidas de direitos. Ora, e se são desqualificadas, por que respeitar seus direito?
    Vejo aqui um problema grave de racismo, de preconceito, de exclusão. E claro, vejo muita relação com o sistema educacional e com políticas públicas( ausentes ou falhas). Mas, se não pensarmos antes nessa origem, e refletir sobre essas raízes, fica difícil pensar sobre o “sintoma” em si.
    E sim, o poder da justiça, da mídia e das ideologias tem uma forte( e bem forte) influência sobre isso, mas não podemos esquecer que esses poderes são exercidos por pessoas, e pessoas, assim como nós, sofrem influências multifatoriais e estão cada vez mais individualistas. A pergunta é : COMO mudar?

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    1. Ao meu ver, vc respondeu sua própria pergunta. Já mudou. O que vemos hoje são reflexos e resquícios dessa origem. Olhe ao redor. Você vê efetivamente um pedreiro branco (de mesma produtividade) ganhar mais do que um negro? O mundo mudou, as pessoas que assinam os cheques não são as mesmas que empregam. Pode ser que em nichos ou em tratamento humano ainda haja diferenciações. No entanto, não podemos continuar com a ladainha politicamente correta de que preto é pobre e pobre mora na periferia pq é excluído. Preto é pobre por uma questão histórica. Fim. Pobre é excluído pq é assim que a dinâmica social funciona. Esse não é o problema.

      O problema de fato não tem nada a ver com a discriminação ou com o fato de haver pessoas pobres ou racialmente excluídas. O problema está em i)como minimizar o número de pobres. Se a mulher que foi linxada fosse branca, japonesa ou oq for, ela estaria viva hoje? Algm olhou pra ela e pensou: “vamos matar essa preta pobre” ou pensou “vamos matar essa mulher que mata crianças em ceitas satânicas”? Ela talvez estaria viva caso as pessoas que pensaram isso tivessem sido minimamente educadas, caso estivessem satisfeitas com a sociedade ao seu redor, caso ao inves de estarem fazendo nada estivessem trabalhando, fazendo compras, levando seu filho no jogo. Está vendo o ponto? O problema não é acabar com a discriminação com o pobre, o problema é erradicar a pobreza em si.

      “Mas não existe país sem pobreza.” É verdade. Porém existe muitas pobrezas. A pobreza em São Paulo não é a mesma do Ceará, que não é a mesma da Zambia, que não é a mesma da Ucrânia que está longe de ser a da Dinamarca. No fim, chegamos sempre ao ponto da humanização, da condição social, do emprego, renda e dignidade. O que não te motiva a matar ou roubar alguém e o que motiva outros?

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      1. Sobre o seu primeiro comentário, gostaria apenas de dizer que no caso do Guaruja, o motivo do linchamento foi uma tal de uma “magia negra” que uma suposta mulher fazia com crianças. Ora, vai me dizer que você também ( da cultura branca ocidental), acha que esse tipo de coisa é um ritual satânico? ( aposto que acha). Enfim, o motivo diz bastante da falta de contato com a cultua negra. E sim, isso tem a ver com preconceito , tem a ver com discriminação, tem a ver com exclusão social, com pobreza ( que na maioria envolve pessoas também de etnia negra- vide IBGE), com todo questionamento posto no texto desse blog, com a falta de recursos, participação e talvez, principalmente com esse ideário de uma falsa mudança de mundo. São muitos fatores, e acho que eles influenciam, sim! Enfim, descordamos, e é isso. O “como mudar” é mais uma provocação do ” o que fazer” em termos de ações práticas do que uma pergunta meramente reflexiva.

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        1. Desconsiderando o fato de vc ter automaticamente julgado que eu sou branco e possuo uma cultura ocidental (que no caso estou quase certo que se refere a um posicionamento religioso), diria que não, não creio ser um ritual satânico. Mas eu tb não estou por ai espancando pessoas…

          Não acredito que a discriminação seja o problema em si. Não espancaram a mulher por fazer macumba, espancaram por sequestrar crianças (mesmo que isso não fosse verdade). Minha crítica no caso foi contra essa relação praticamente imediata que fazemos com racismo e discriminação, quando muitas vezes é apenas exaustão, ignorância e pobreza.

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    2. COncordo! A análise social é muito importante para abrirmos os olhos para aquantidade de variáveis que estão em jogo! A questão da vulnrabilidade social se relaciona diretamente com respeito pelos direitos. Tentei a via da auto-gestão como possibilidade de empoderamento, mas é claro que em dois parágrafos ela se torna simplista e idealizada…

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  2. “Quando foi que criamos um povo tão dócil e submisso que é dominado tão facilmente? E ainda metemos na cabeça deles que não ser oprimido é ser opressor!”

    Não sei pq estão todos tão chocado com isso. Não há novidades. O povo que faz isso é o mesmo povo que saqueia e aterroriza em manifestações. É o mesmo povo que revindica esmola e depois tem a cara-de-pau de cobrar o governo expansionista que eles mesmos colocaram la. É o mesmo povo que não avisa o garçom qdo esquecem de cobrar algo na conta. É o mesmo povo que te atende tão mal numa repartição pública quanto numa instituição privada sem motivo aparente. É o mesmo povo que precisa de placas de “não urine no chão” em restaurantes que cobram 100 reais num filet de frango.

    É o povo brasileiro, composto de pobres ignorantes esmoleiros indefesos, defendidos por novos ricos falsos intelectuais pobres de espírito e interesseiros. O mal do Brasil não são os políticos, não são os empresários, muito menos o povo trabalhador. O mal do Brasil são os brasileiros.

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  3. Continuam distorcendo as palavras da moça. Ela disse: A atitude dos ‘vingadores’ é até compreensível. (…) O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite”.
    Ela não disse que concorda. Disse que é de se compreender. A população não aguenta mais.

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  4. Sobre o seu primeiro comentário, gostaria apenas de dizer que no caso do Guaruja, o motivo do linchamento foi uma tal de uma “magia negra” que uma suposta mulher fazia com crianças. Ora, vai me dizer que você também ( da cultura branca ocidental), acha que esse tipo de coisa é um ritual satânico? ( aposto que acha). Enfim, o motivo diz bastante da falta de contato com a cultua negra. E sim, isso tem a ver com preconceito , tem a ver com discriminação, tem a ver com exclusão social, com pobreza ( que na maioria envolve pessoas também de etnia negra- vide IBGE), com todo questionamento posto no texto desse blog, com a falta de recursos, participação e talvez, principalmente com esse ideário de uma falsa mudança de mundo. São muitos fatores, e acho que eles influenciam, sim! Enfim, descordamos, e é isso. O “como mudar” é mais uma provocação do ” o que fazer” em termos de ações práticas do que uma pergunta meramente reflexiva.

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  5. “Não é a bíblia nem o código civil que deve dizer como devemos agir uns para com os outros, é a nossa própria capacidade de nos relacionar pelo nosso bem e dos outros.”

    Gostei do texto. Me ajudou a reunir mais argumentos contra a barbárie e absurdo da exigência de punição e recompensa (medo e esperança) tão comum em nossos dias, argumentos que busquei reunir no texto abaixo:

    http://humanaesfera.blogspot.com.br/2014/05/contra-as-recompensas-e-punicoes-isto-e.html

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  6. Jesus amado que comentários frutíferos! Caramba Mi, sempre soube de seu grande espírito, só não havia ainda o visto expresso em tão sábias palavras!

    Diego Angeli talvez você sofra do mesmo distúrbio que grande parte de nossa sociedade. Se sente há tanto tempo oprimido por tais questões sociais, que resolveu juntar tudo num mesmo saco e fazer sua “pobre” catarse opressiva, se igualando a todos a quem critica.
    Falando em crítica, poderia até elogiar as seguintes frases suas, porém acho que há muito o que acrescentar de meu “pobre” ponto de vista:

    “…não podemos continuar com a ladainha politicamente correta de que preto é pobre e pobre mora na periferia pq é excluído. Preto é pobre por uma questão histórica. Fim. Pobre é excluído pq é assim que a dinâmica social funciona. Esse não é o problema.”

    Talvez você tenha entendido as questões sociais de maneira ainda limitada, quando tratamos de assuntos sociais há verdades que se intercalam e um fato nem sempre exclui o outro, ao meu ver você entende a “ladainha” como se excluísse seu ponto de vista, mas os fatores são diversos e não apenas um só, como você tentou determinar, ou seja, a maioria das pessoas da sociedade que possuem a pele negra, ou nem mesmo isso, os brancos afrodescendentes como eu, residem nas periferias. Agora eu nunca ouvi ninguém falar que pobre mora na periferia porque é excluído, talvez você tenha interpretado muito mal a abordagem sobre o preconceito que nossa amiga Milena tentou expressar. Leia com mais calma meu caro, não se precipite tanto assim.

    “O problema não é acabar com a discriminação com o pobre, o problema é erradicar a pobreza em si”…

    Uma ótima afirmação, apenas um pouco pretensiosa, a não ser que usou a palavra pobreza no sentido de pobreza de espírito. Será que não há discriminação com os pobres em países onde a pobreza não é tão evidente quanto aqui? Então acabar com a discriminação faz parte também da solução, só erradicar a pobreza não é o suficiente, ainda mais em um país com o histórico discriminatório enraizado que temos.

    …”No fim, chegamos sempre ao ponto da humanização, da condição social, do emprego, renda e dignidade”

    Me desculpe a brincadeira e a ironia. Acho muito difícil alguém discordar dessa sua afirmação, caberia maravilhosamente bem em propaganda política e afins… Essa sua frase é a luz no fim do túnel, aqui é onde percebe que os fatores são diversos e precisam ser corrigidos com cuidado, sem excluir outras sugestões também positivas. Porém é ainda uma visão geral, se for pegar cada um desses pontos e agir verá o trabalhão que dá cada um desses pontos. As soluções são construtivistas.
    Há diversos estudos recentes que podem responder em parte sua pergunta sobre as motivações contemporâneas, das que tive acesso, a maioria está em concordância com os nossos pontos de vista.

    “É o povo brasileiro, composto de pobres ignorantes esmoleiros indefesos, defendidos por novos ricos falsos intelectuais pobres de espírito e interesseiros. O mal do Brasil não são os políticos, não são os empresários, muito menos o povo trabalhador. O mal do Brasil são os brasileiros.”

    Este tipo de generalização arnaldojaboriana é a maior pobreza de espírito que um brasileiro pode expressar. Aqui eu já não estou mais brincando meu caro. Tenho a impressão de que você é uma pessoa com muitas potencialidades, porém é evidente sua ansiedade de interpretação e consequentemente sua precipitação. No tempo certo você conseguirá alcançar a sua maturidade científica e moral e conseguirá ver de uma forma mais construtiva e participativa este debate. Isso se não for daqueles que já sofreram tanto que já não conseguem contribuir, restando apenas a alternativa confortável das catarses e de sair do país.

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    1. Me sinto lisonjeado por ter sido merecedor de um comentário tão extenso, mesmo apesar do meu distúrbio.

      Do comentário da sua amiga: “Quem sofre esse tipo de violência sempre é a classe mais pobre, na maioria de etnia negra e dos bairros mais periféricos das cidades. E isso por quê? Porque elas que estão mais vulneráveis e que historicamente foram desqualificadas e desprovidas de direitos. Ora, e se são desqualificadas, por que respeitar seus direito?
      Vejo aqui um problema grave de racismo, de preconceito, de exclusão.”
      É clara a ligação que ela também faz entre pobreza, racismo e exclusão. Não sou o único a “falar que pobre mora na periferia porque é excluído”. Se não o é, me diga o por que não vemos pobres morando nos Jardins ou no Leblon. A periferia possui menos privilégios, é mais distante, não possui muitas vezes alguns serviços públicos essenciais, não possui lojas, hospitais ou escolas de qualidade e por todas essas razões, eu aqui, a denomino como “excluída”. Mas você está livre para definir com a palavra de sua preferência. Tenho certeza que havia entendido meu ponto. Se você achou simplista minha explicação do porque preto é pobre e pobre mora na periferia, ficarei feliz em ler seus argumentos.

      Acredito que erradicar a pobreza de espírito é muito mais pretensioso do que a pobreza física. De fato a discriminação existe até nos países mais desenvolvidos. I’ll give you this one. Mas a propensão à criminalidade por parte daqueles retirados da pobreza (e não exatamente contra aqueles pobres) não seria diminuída? É uma questão de oferta e demanda. Realmente, ter menos pobres para sofrer violência (demanda) talvez não seja a solução, mas ter menos pobres para exercer a violência (oferta) seja um bom começo (não necessariamente a solução final). Veja bem que não discordo que a mentalidade discriminatória não cause violência, como você diz. Basta vermos os casos de xenofobia e homofobia no mundo. No entanto, no Brasil, a MAIOR PARTE do sentimento de insegurança está ligado a crimes contra o patrimônio e não de cunho social ou racial.

      Quanto a frase da luz no fim do túnel, bem nitidamente a solução não é simples. O que eu quis expor com ela é que a solução ronda a “humanização, a condição social, o emprego, renda e dignidade” e não, como sugerido pela Milena, o racismo ou a discriminação social. Não é preciso pegar ponto a ponto para corrigí-los, basta pegar o intercepto destes problemas que é, como disse anteriormente, a pobreza.

      Sem dúvidas de que não pretendo encerrar meus dias esperando este gigante acordar. Porém, devo alertar que as generalizações e esteriótipos existem por uma razão. Elas são o ponto médio da percepção de um grupo de indivíduos ou sociedade e portanto são muito valiosas. Não as menospreze. Numa simplificação rápida (apesar de ter percebido que você também não é muito fã desta palavra), liguemos os pontos: nas suas palavras, temos um profundo problema de discriminação, que como mostrei, advém do descompasso entre riqueza e inclusão social, que por sua vez, como a Milena citou, são causadas por problemas no “sistema educacional e nas políticas públicas( ausentes ou falhas)”, que por sua vez são de responsabilidade não só dos governos como das instituições midiáticas, educacionais, culturais e sociais. Estas instituições são geridas, construídas, organizadas, financiadas e controladas por pessoas, brasileiros. Se existem profundas falhas nestas instituições, estas falhas são o resultado do trabalho destes profissionais. Então por favor, me diga se a minha “pobre” catarse não tem fundamento.

      Aproveito para deixar uma manifestação de curiosidade sobre sua própria opinião sobre o assunto, dado que aparentemente você já alcançou a sua maturidade científica e moral e conseguirá ver de uma forma mais construtiva e participativa este debate!

      =)
      (Uma carinha feliz pois, apesar da acidez, fiquei feliz com seu comentário de qualidade rara em debates online e para instigá-lo(a) a uma resposta)

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  7. Estes “justiceiros atuais”, assim como a maioria dos brasileiros, são pessoas desesperadas por atenção (conscientemente ou não). Acreditam realmente estar fazendo justiça, quando na verdade não sabem nem ao menos o significado, a essência desta. Talvez nem eu mesmo saiba. Não os condeno. Vejo neles toda a beleza que é a mente humana: tem um potencial infinito para se fazer “Deus” e, ao mesmo tempo, passível de ser escravizada. Digo que a justiça com as próprias mãos seria uma boa alternativa para corrigir a grande falha na política do nosso país. Na verdade a justiça sempre esteve em nossas mãos. O que não podemos fazer é agir como animais irracionais e sair por aí querendo matar até o vento. Usemos o cérebro.

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  8. Gostei bastante do seu texto e concordo que estamos voltando á barbárie com essas atitudes, mas não acho que a Sherazade tenha a ver com isso. Ela apenas falou que não tinha dó dos infratores e não condenava aqueles que viam na justiça com as próprias mãos a única solução para a violência, não acho que ela tenha influenciado ninguém. A justiça com as próprias mãos sempre existiu e sempre existirá, na mesma quantidade que existe atualmente (nem mais, nem menos) a diferença é que agora a mídia trouxe mais a tona esses casos devido aos comentários dela, mas como no Brasil as pessoas só tomam conhecimento das coisas após a mídia divulgar né…
    Enfim, apesar dessa discordância adorei o seu texto e adorei ver que uma pessoa tão jovem tem pensamentos tão profundos e próprios. Abraço

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  9. Muitas vezes vos ouvi falar daquele que comete um crime como se não fosse
    um de vós mas um intruso no vosso mundo.
    Mas digo-vos que, tal como os santos e os justos não se podem erguer mais
    alto do que o mais alto que existe em cada um de vós, também os maus e os
    fracos não podem cair mais baixo do que o mais baixo que existe em vós.
    E tal como uma simples folha só amarelece em conjunto com toda a árvore,
    Também aquele que comete um crime não o pode fazer sem a anuência
    secreta de todos vós.
    Como numa procissão, caminhais juntos em direcção ao vosso eu interior.
    Vós sois o caminho e os caminhante e quando um de vós cai, cai por aqueles
    que vêm atrás, para os avisar da pedra que encontraram no caminho.
    E cai por aqueles que vão à sua frente, que, embora mais rápidos e seguros,
    não estão livres de tropeçarem na mesma pedra.
    -Khali Gibran, O Profeta

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  10. Mais algumas reflexões sobre esse tema:

    AUTONOMIA, ESPIRAL DE VIOLÊNCIAS E APELO À FORÇA (I.E, À CLASSE DOMINANTE)
    [ http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/06/autonomia-conflitos-e-apelo-classe.html ]

    “Frente a uma violência, é natural, compreensível, humano, que os agredidos ou vítimas reajam com ódio. Emocionados, o agredido e/ou os que se compadecem com a vítima tendem a reagir recorrendo a uma violência igual ou maior (a deles mesmos, a de uma gangue, de um gerente, da polícia, do direito ou mesmo a de um monarca cósmico absoluto imaginário). Isso pode iniciar uma espiral de represálias recíprocas que multiplica a violência e foge ao controle de todos. Até o ponto de ninguém mais se lembrar do motivo inicial, tornado irrelevante pelas sucessivas violências mútuas que se agravam cada vez mais. Tentar reparar um dano com outro dano multiplica os danos e, em última instância, faz de cada um o causador dos danos feitos a si mesmo mediante os outros, numa corrida armamentista que escraviza a todos.

    Há quem argumente que, para interromper esse ciclo, é preciso “compaixão” ou “empatia”: nos compadecer com a dor do agressor porque na verdade ele teria sido antes vítima de outro agressor e assim sucessivamente, ad infinitum. Porém quem diz isso esquece que a empatia é a própria causa da espiral de violência (sob a forma de indignação). O erro do argumento da empatia é que “empatia de amor” e a “empatia de ódio” são igualmente emoções – e emoções são reações espontâneas (se não forem, são falsas emoções), ou seja, não dependem de nenhum argumento.

    Sem dúvida, a paixão é o que nos move e não há como escapar disso. O que fazer então? Uma possível resposta é dada pelos filósofos ultra-iluministas Benedito de Espinoza e Jean Meslier: entre as paixões humanas está a paixão pela liberdade – a razão. A razão é ação, e não reação (todas as demais emoções não passam de reações), porque ela busca modificar as causas, não reagir aos efeitos; busca transformar as condições de existência, e não escolher entre caminhos pré-estabelecidos; busca subverter o status quo, o tabuleiro, não mover mais uma vez as peças de um jogo suicida e escravizador. A questão é: a paixão pela liberdade, pela autonomia, é capaz de superar as outras emoções? E como agir, isto é, como criar um ambiente onde as emoções possam se expressar da maneira mais enriquecedora e feliz possível?

    Seja como for, quando ocorre uma violência, se queremos evitar o surgimento de uma espiral de violências – que só serve para suprimir a autonomia e legitimar o poder da classe dominante, ou seja, a adesão à falsa garantia dada por alguma violência ainda mais ameaçadora, tal como a gangue, o gerente, a polícia, o direito, as forças armadas e o Estado -, só nos resta abandonar toda e qualquer ideia de punição (e recompensa), porque, como vimos, ela não tem o menor fundamento, é pura irracionalidade. *

    É preciso ao menos que saibamos ser concretos:

    – Quem agrediu pode agredir outra vez? Em outros termos: a agressão dele é um hábito? E se é um hábito – um vício -, ele poderia (ter liberdade para) não agredir da próxima vez?

    – Mas se ele teve liberdade para escolher agredir, que razão o motivou a fazer isso? A agressão foi motivada por algo transitório, improvável de se repetir? Ou motivada por algo constante ou repetível? Como atacar esse motivo?

    – Se a agressão dele é um hábito, o que fazer? Isolá-lo, para que não voltemos a sofrer agressões dele? Mas como ajudá-lo a se libertar do hábito de agredir que o escraviza?

    – E o agredido, como tratá-lo?

    Em suma, questões materialistas práticas básicas.

    humanaesfera, junho de 2015

    Nota:
    * Falar em “livre arbítrio”, “intenção”, “vontade”, “falta de vontade”, não só é perfeitamente inútil e oco mas extremamente nocivo. O apelo à vontade serve apenas para atribuir culpa, causando ainda mais raiva e ressentimento. Quando buscamos parar de fumar, por exemplo, a vontade não é nada “em si”, porque o que determina essa vontade é, não ela mesma, mas as paixões de parar de fumar (que pode ser uma paixão pela autonomia que parar de fumar trará) frente às paixões cada vez mais tristes (servis) de continuar fumando (prováveis doenças, interrupção constante das atividades para suprir o vício, mau cheiro nas interações sociais etc.). Se a vontade é algo, ela não passa do hábito – que é uma paixão “animal”, pavlovianamente adestrada – de se focalizar para alcançar qualquer fim, seja ele qual for. Enquanto os fins sempre são formados pelas livres interações, combinações ou associações das paixões, nunca pela “bestial” vontade “em si”.

    Bibliografia:
    – Reflexões sobre as causas da liberdade e da opressão Social – Simone Weil
    – Ética – Benedito de Espinoza
    – Ateismo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier – Paulo Jonas de Lima Piva
    – Le Humanisphère – Joseph Déjacque”

    http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/06/autonomia-conflitos-e-apelo-classe.html

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  11. Se alguém estiver interessado, abaixo está a continuação das reflexões dos textos que postei anteriormente [“Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante)” e “Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção)]” :

    Autonomia e cotidiano – Espinosa e o imperativo de Kant: “Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios”
    http://humanaesfera.blogspot.com.br/2015/10/autonomia-e-cotidiano-espinosa-e-o.html

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