Cansamo-nos de tudo, exceto de compreender. O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.
Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analisa, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.
Caímos então naquele estado de inércia em que o que mais queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exata como foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.
Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, trecho 239.

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Virgílio por Salvador Dali na série sobre a Divina Comédia de Dante Alighieri, em que Virgílio é o personagem principal.

Cansamo-nos de tudo, exceto de compreender” é uma frase do poeta romano Virgílio, aqui interpretada por Fernando Pessoa através de Bernardo Soares. O que aparece exposto neste desenvolvimento é uma concepção de compreensão que pouco nos interessa, pois o saber desinteressado promove um desligamento entre a filosofia e a vida, cria um abismo entre o conhecer e o viver.

A primeira parte da frase, isto é, “Cansamo-nos de tudo”, já mostra uma vida impotente, entediada, estagnada, que aposta no tédio e não na criação. O resultado não poderia ser outro: o compreender acaba por ser utilizado como uma válvula de escape, tal como a arte em Schopenhauer. É apenas a resposta de um corpo doente, que ainda quer a cura porque não aprendeu a achar na doença o próprio vigor (ver a lição de Zaratustra aos estrupiados).

“Cansamos de pensar para chegar a uma conclusão”, é claro, afinal começamos com o pé errado. Pensamos porque a atividade de pensar é criativa, não para alcançar meta nenhuma. O filósofo não busca uma resposta, seu êxtase são as perguntas e as múltiplas reviravoltas que elas nos causam. Uma filosofia intensa não se preocupa com o seu destino, antes se concentra no próprio percurso.

“Compreender sem nos interessar”, “pensar sem agir”, “sentir o influxo e não seguir o impulso” são diversas formulações de um uso não intensivo do pensamento, que, como disse antes, não nos interessa. Queremos nos apaixonar pelo que nos acontece, pelas nossas questões, pela que se passa ao nosso redor. Tudo nos afeta, inclusive o compreender!

Outra pintura de Dali para a mesma série
Outra pintura de Dali para a mesma série

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

5 comentários

  1. “…Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.”

    Talvez tenhas entendido apenas parcialmente a apatia aparente desse nobre heterônimo. Como discípulo de Caeiro penso que Soares usa o cansaço como “propulsor da inércia”, como se essa contradição o colocasse entre o não dito, o avesso. Nesse sentido compreender é bem mais que pensar, pensar, nesse caso, é julgar. Compreender é leve, julgar é pesado. Será quase impossível compreendê-lo com esse olhar carregado. Mais sorte e leveza da próxima vez… Abraços!

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    1. Acho que não, John.

      Primeiro, não estou fazendo uma crítica direta ao Soares, eu precisaria de muito mais que um trecho para fazer isso. Simplesmente me utilizei do desenvolvimento dessa noção de “compreensão” para mostrar o que não nos interessa.

      Segundo, discordo que seja “compreensão”, aqui, seja apenas “julgar”. Basta ver o início do segundo parágrafo: “[…] pensar para chegar a uma conclusão”. Ainda mais se tratando de um verso de Virgílio …

      De olho na proposta do texto,
      Um abraço

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      1. O Rafa, acho que você poderia considerar sim o que o John falou. Você leu Soares com olhos de Deleuze. Porque? Você cansou de tudo, exceto de compreender (a seu modo) a obra.
        Soares é apático e irônico. “pois o saber desinteressado promove um desligamento entre a filosofia e a vida, cria um abismo entre o conhecer e o viver.” O saber desinteressado, para um artista, é “a vida, apenas, sem mistificações” (Carlos Drummond de Andrade)

        PS: vc colocou um Fernado pessoa. O p minusculo era proposital?

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  2. Com licença, tô chegando agora, conhecendo o blog.

    Cheguei aqui estudando Deleuze e Pessoa, ando buscando conexões entre eles e um possível projeto de pesquisa, para um Mestrado em Educação, também sou formado na escola da vida.

    Pode parecer exagero, mas percebo que todo o compreender de Soares é pesado, carregado de uma antagonismo entre o pensar e o ser, que torna feio o artista que Fernando deseja que ele o seja. Essa última estrofe da passagem que você postou, na abertura do post, Rafael, meio que fica clarividente, porquê assim sinto.

    Veja só:

    “Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.”

    Do que nunca nos cansamos? Do influxo, de não seguir o impulso, antagonismo, as opiniões alheias, ou seja, opção por apenas um lado, logo um esconderijo de outro, correto? Não poderia dizer-se que o impulso de Soares é movido pelo pensar racional, inerte? Sem emoção, seco, imóvel, um Édipo desejando ser cego? Um cristão se punindo pela não existência de um deus superior? Um bêbado, reclamando a falta do álcool, num sábado pela manhã, acordando as margens do Rio Tejo?

    Me permito pensar que em Soares a escrita é quem tem que doer, ao contrário de Caeiro, que pouco se importa com o pensar, compreender não é impulso, nem influxo, é os dois juntos. Um esquisoanalise que se faz confortavelmente anestesiado, após em ambos os lados ter se embriagado.

    Olha que belo:

    “Leve, leve, muito leve, um vento leve passa, e vai-se, sempre muito leve.
    E eu não sei o que penso, nem procuro sabê-lo”. Poema XIII – Alberto Caeiro.

    E você o que pensa, além do já posto?

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