Todo ano me chega o mês de maio. A febre, a chuva, o vento úmido que não seca mais meus cabelos. O corpo que deixa de conhecer o nu. O fim de um novo amor.

Todo ano me chega o amargo e depravado esquecer de alguém. A rotina, a noite, a televisão que não muda a programação. As cartas deixam de chegar por debaixo da porta.

Todo ano me chega os meses de abril e junho, e a merda de amar alguém continua embaixo de um medo. O outro, assim como eu, dois elefantes num abismo sem eco.

Todo ano me chega uma cama de presente, tão grande que ao deitar poderia passar o mês ali sem nem sair. É sempre no mês de maio, que a cama surge e eu desmaio.

Todo ano me chega flores, espinhos e castiçais, e eu nada faço com isso. Fico fingindo que me conheço, e vendo o outro tanto tonto quanto eu sonso, achar que entende também de amar.

Todo ano peço desculpas e prometo promessas.

Todo ano me chega o humor, pra tirar sarro de mim e da merda do amor não correspondido. Me chega também, o intelecto, e a punheta transfigurada em estudos, leituras, trabalhos e a mais recente e vossa poesia.

Todo ano me chega um espelho que reflete não minha face, mas apenas o que a luz do ambiente permite refletir. Gozado é que não pago a conta de luz desde maio passado.

Todo ano me chega dezembro, me lembrando que há um novo ano a surgir. E todo ano novo me lembra a herança a repartir.

Todo ano me chega a simplicidade de amadurecer. Entender a horizontalidade, pluralidade, o comunismo apolítico, a desgraça da televisão, o nojo da mídia, a preguiça do ego acima da arte, a preguiça do ego acima da família, a preguiça do ego acima da profissão, a preguiça do ego, dos remédios e da vida em confusão.

Todo ano me chega o mês de maio, e a conclusão de que amar não é no primeiro semestre. Mas setembro é discreto em confirmar que amar também não é de segundo semestre.

Todo ano me chega novos amigos – e a gramática que se cuide – e o frescor de repensar a vida. Os amigos mais antigos vão se acomodando, e os que partem… partiram bem.

Todo ano me chega o frio de saber que dez anos são uma década. E uma década é tanto tempo que nem se conta nos dedos.

Todo ano me chega na porta de casa um cão. E só eu sei que é este cão que poderá salvar-nos da humanidade.

Todo ano me chega energia que se esvai e abstinência que implica. O vazio que me consome, a força que some, a confusão que excita.

Todo ano me chega a vontade de escrever. E a necessidade de apagar tudo.

Todo ano me chega os absurdos ainda não descobertos na minha vida. E a memória dos já descobertos. E o consentimento dos que ainda serão.

Todo ano me chega um gostar de alguém, um olhar simpático, um sorriso cor de casa, uma abraço atemporal, as frutas no jardim, um cantar junto, um dormir grudado, um grito, uma palavra não dita, um verso não ouvido, um sentimento expremido, mais um maio não vivido.

Todo ano me chega me ano todo.

Todo ano me chega a arquitetura de uma cidade nova, as pessoas de uma espécie nova, o falar, o pensar, o agir, o estar no mundo, que me desdobra em feições por vezes inéditas, por outras logo esquecidas.

Todo ano eu finjo no mês de maio que sou feliz.

Todo ano me chega tarefas, conquistas, realizações. A estante junta troféus e poeira. Mas é vitrine para quem vê.

Todo ano me chega uma chuva que sempre me deu medo, me excluiu. Hoje, porque a cada maio um amor morria, eu danço com a chuva. E cuspo em cima dos clichês.

Todo ano me chega um rótulo novo, e eu já quis entrar num supermercado e arrancar todos os rótulos. Mas descobrir que não querer um rótulo em mim, é talvez adotar o sem-rótulo.

Todo ano me chega um poder exorbitante de dominar as palavras, e no vaso sanitário encontram-se os rótulos.

Todo ano me chega um pouco da adolescência e da fase adulta. As crianças – minhas e outras – que me visitam, são brevemente distribuídas em momentos de mim. São as únicas que eu permito que me passem. O meu adolescente e meu adulto insistem em ficar. Eu deixo.

Todo ano me chega o mês de maio e é só no final dele que vejo que desaprendi o amor.

Todo ano me chega uma grande invenção, três decepções, uma revolução cortada ao meio, quatro projetos inacabados, uma dose de ser humano e zero maio.

Todo ano? Me chega.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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