camusParece que o herói absurdo percebe um lampejo, que o torna consciente e sincero da sua própria condição. A obra do dramaturgo Sófocles delineia as matizes do absurdo no personagem de Édipo Rei. O destino de Édipo está relacionado com sua guenós, sabe-se de antemão que ele cometerá o assassinato e o incesto. Édipo é aquele que diz para si mesmo que tal vaticínio não é possível. A arte de Sófocles consiste em uma forma natural e lógica, mostrar que é possível, e isso é a realização do próprio destino. O matiz do absurdo mostra a ligação desta realidade lógica, natural, cotidiana, afetiva, social, com a tragédia que parecia impossível. Assim também é em algumas das obras de Albert Camus, no qual ao fluxo da vida diária mescla a uma catástrofe. De acordo com Horácio Gonzalez:

Camus elabora a tragédia pela via do cotidiano. Mas no cotidiano já está o trágico, assim como no ordinário está o extraordianário e no lógico está o absurdo. Uma calamidade, assim trabalhada, revelará uma carência de patetismo que nos situa de cheio na arte de narrar o trágico. Ele acontece, quando acontece, no meio de um mundo que oscila entre a banalidade e o sobrenatural. Transmitir essa oscilação é tarefa do romancista, oscilação que, de outra forma, é um jogo de contrastes que na narrativa deve estar apenas sugerido. 

Albert Camus não somente analisa o herói absurdo, como primeiramente o cria. Com o seu amor aos gregos faz recolocar em evidência o valor da tragédia, e seus ensinamentos. Refaz o mito de Sísifo (o indivíduo solitário que diz sim para a vida) como também olha com apreço a figura de Prometeu (aquele que se revolta contra os deuses). O autor de Édipo por sua fez se torna um dramaturgo maior, pois trata da condição humana, principalmente do sofrimento, entretanto não somente deste sentimento. A obra transborda em significações.

Dois pontos interessantes podem ser tirados para uma reflexão acerca do absurdo, e da obra Édipo Rei. O primeiro é com relação aos próprios receptores da obra. Albert Camus em sua crítica literário-filosófica a Oscar Wilde, afirma que Wilde não fora um artista até a criação de De Profundis e para isso dá o exemplo de Sófocles como um verdadeiro artista.

Wilde até então somente tinha escrito sob o sol, mas quando estava na prisão suas obras não tinham uma palavra que poderia ajudá-lo. Entretanto, na obra de Sófocles se encontra palavras que podem fazer parte de uma burguesia, quanto aos companheiros de sofrimento, companheiros de cela de Wilde, pois saúda a ordem do mundo na sua extrema derrota. A criação de Sófocles dá um sentido ao sofrimento de uma vida absurda.

Um segundo ponto de uma reflexão com relação ao absurdo na obra Édipo Rei, se trata da própria leitura camusiana deste livro em que ele afirma que Édipo diz Sim, não é somente ver a derrota extrema, mas de também dizer que tudo está bem, que a vida não foi experimentada até o seu fim. Nesta perspectiva um ponto se torna revelador na trajetória de Édipo, Albert Camus ressalta o seguinte pensamento: “Uma frase desmedida ressoa então: ‘Apesar de tantas provas, minha idade avançada e a grandeza da minha alma me levam a julgar que está tudo bem’. O Édipo de Sófocles, como o Kirilov de Dostoievski, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga coincide com o heroísmo moderno.” Entretanto, este julgar que está tudo bem, que me parece àquela aceitação à Amor Fati de Nietzsche, não pode ser tudo, e se o fosse então Édipo não seria um Herói. Aceitar tudo não faz sentido, Édipo reivindica a beleza, no momento em que quer tocar o cabelo da filha, no momento que mediante de toda a tragédia quer voltar a ver – neste momento há uma revolta estética. Este lampejo de beleza é motivo para se desdobrar, torna-se mais uma vez para a experiência da vida. Talvez esse seja o heroísmo, um local entre o sim e o não, um lugar entre os extremos. Nem a negação absoluta, nem a afirmação absoluta, mas um ponto significativo no qual a vida possa transbordar em significação. Da mesma forma que temos que inventar um sorriso nos lábios cansados de Sísifo, é necessário imaginar Édipo levando a mão ao cabelo de seus filhos, e então enxergando com o tato – a serenidade daquele que então vencido vence.

- Francois Xavier Fabre (1766-1837)
– Édipo e a Esfínge, de Francois Xavier Fabre (1766-1837)

Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

1 comentário

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s