01 BB mais bonito arteAntes de mais nada, meus parabéns ao movimento Passe Livre por mais uma manifestação! Estive presente durante toda a caminhada, mas infelizmente fui embora antes da apresentação de rap e do jogo de futebol na rua. A criminalização do movimento já era algo esperado, e não deve causar surpresa. Mas o que a grande mídia esqueceu de dizer é que o movimento está se organizando de forma absolutamente horizontal e autogestionária; a força do MPL, bem como de outros movimentos, mostra a potencialidade das organizações de rua e sua capacidade de mudança do panorama político.

Com relação aos Black Blocs. Com que direito eles quebram agências? Com que direito eles destroem carros?

Simples, com o direito de seus pedaços de madeira e suas pedras. Direito é potência: uma força vai até onde ela pode. Se os Black Blocs tomam parte na luta da forma como agem, então sua força é legitimada por sua própria ousadia de quebrar as coisas e enfrentar posteriormente a ação da polícia.

Tudo que um corpo pode fazer (sua potência) é também seu ‘direito natural'” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão

 Direito é potência. Com que direito um vulcão explode? Com que direito um leão come uma zebra? Com que direito um país invade outro? Com que direito o povo sai às ruas para protestar? Com a legitimidade de sua própria força de agir. Se os Black Blocs tem pedaços de madeira para quebrar carros, os grandes empresários tem a Tropa de Choque para chegar atirando neles e os torturarem na delegacia. O campo social está dado e a luta segue…

Mas e a propriedade privada? Bom, mas o que seria a propriedade privada? Uma porção de matéria física que determinada pessoa tem a capacidade de manter sob seu domínio? Se o dono da Mercedez-Benz não pode cuidar de seus carros, bom, ele está à mercê de qualquer evento que possa acontecer. Isso pode ser um maremoto ou uma manifestação que não concorde com seu jeito de acumular riquezas.

Da mesma forma que o Estado tira as famílias de suas casas e lhes dá indenizações irrisórias, uma tática conhecida como Black Bloc destrói parte da propriedade privada de grandes empresários. A diferença é que as famílias que perderam suas casas, a parte mais fraca, recebe uma compensação monetária simbólica; já os Black Blocs, a parte mais fraca, agride simbolicamente a parte mais forte, já que os lucros destas empresas não chegam nem perto dos prejuízos causados por vidraças e carros de mostruário.

Ato Movimento Passe Livre - SP 19/06/2014 Concessionária da Mercedes-Benz, inaugurada há uma semana, estima prejuízos de R$ 3 milhões após ação de encapuzados. Photographer, William Oliveira
Ato Movimento Passe Livre – SP 19/06/2014
Concessionária da Mercedes-Benz, inaugurada há uma semana, estima prejuízos de R$ 3 milhões após ação de encapuzados.
Photographer, William Oliveira

Não cabe a mim julgar quem é bom e quem é mal. Minha intenção é mostrar que não há certo e errado nem verdadeiro e falso nesta luta. Há um regime de forças que está dado em um campo social complexo. Sim, os Black Blocs continuarão atuando… com que direito? Sua própria indignação e vontade de mudança é o que lhes dá esse direito. Seu “vandalismo” é a parte de negação dentro de um movimento social de afirmação (ver O Homem Revoltado). E que eles fazem parte do movimento social, isso já é fato.

Ao invés de desejar que as coisas sejam diferentes, ao invés de querer que caia do céu a solução, deveríamos nos perguntar: como conjugar nosso movimento popular com estas novas forças que estão presentes? Afinal, querendo ou não, temos atuado em paralelo, e se há alguém que deve temer os Black Blocs, são os poderes instituídos, não nós…

> Veja também: Quem tem medo do Yellow Blocs? <black-bloc3

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

24 comentários

  1. Que maravilha esse texto! Muito contente de ter lido. As fotos também me marcaram muito. A primeira policial e manifestante estão de preto (é preto né?), o que me remeteu a uma mesma condição (humana? social? política?) que partilham. Exceto pelo capacete, que além da proteção me traz a idéia de racionalização fechada: não se pode pensar além do que o capacete deseja pensar. A segunda foto eu contei dois manifestantes depredando e quatro pessoas fotografando. Agir tem sido menos frequente que registrar. Manifestar tem sido menos feito que compartilhar. Já a última foto me remeteu a coisas mais sem muita noção, mas como pretendo aqui jorrar as associações livres, lá vai: um manifestante contra vários policiais. Só os policiais possuem armadura e só o manifestante agride. Mas a luz da foto está indo da esquerda para a direita, como se essa galera se armadura quisesse iluminar os reclusos e obscurizados. Me deixou na dúvida: quem teme e quem é temido? E por fim, a placa “Taxi” sendo arremessada que me lembrei da música da Angélica “Vou de Taxi, sê sabe…”. E poxa, quantos seguranças ela não tem? A mídia, a emissora respectiva da autora da canção… O quanto eles não gostam da plaquinha de taxi hein?

    Muito bom rafa!! Legal você estar indo nos movimentos, sempre com olhar ingênuo e crítico!!

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    1. Ah, Vinni, seus comentários são muito bons!!! a fotos foram cuidadosamente escolhidas!!! que bom que trouxe estes aspectos tão interessantes, acho que eles conversam bem com o texto!!

      Quanto ao “TAXI”, hahaha, eu confesso ter lembrado dessa música! Quase foi um critério de exclusão! 😛

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  2. O direito não deve estar estabelecido legalmente? Assim, deteriorar o patrimônio alheio, bem como matar não constituiriam direito, mas possibilidades. Nesse caso não estaria havendo uma confusão entre o que é direito e o sentido do apenas ser possível pela força de potência? Ora, o direito é potência (vai até aonde pode). O até aonde se pode ir não deve ser determinado no âmbito da lei?

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    1. mas a lei é de quem, o que adiantou respeitarmos ela? A lembrei Cláudias sendo arrastadas nas ruas e amarildos sumindo! e seus filhos virando crianças de rua poi seus pais morrem ou desaparecem!…… NAS MÃOS DA LEI!

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  3. Texto simplesmente maravilhoso. Estou estudando esse movimento (black bloc) desde o ano passado. Com exceção dos estudos da Ester Solano, tudo que tenho encontrado sobre eles na internet mostra a visão da mídia corporativista. O seu texto é, pois, uma feliz exceção. Parabéns.

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  4. Achei esse texto bastante raso. Se “uma força vai até onde ela pode”, isso nos abre uma infinidade de possibilidades de ação, com consequências diversas. De que adianta enunciar que tantas coisas são possíveis? Não acrescenta nada, isso todos já sabíamos.
    Não vejo como podemos aprofundar um debate sobre os Black Blocs nos esquivando de um posicionamento (sim, juízo de valor) sobre o que eles fazem. Essas e tantas outras coisas são possíveis, mas nós as julgamos cabíveis? Sob uma frágil bandeira de revolta (com muito pouca responsabilidade com relação às suas propostas), cabe então a uma força ir até onde ela pode?

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  5. Excelente texto. Você colocou o dedo na ferida da VONTADE DE PODER, os Black Blocs vão continuar e até aumentar a quantidade de atos de vandalismo até alguem para-los. Nesse caso, que tem a obrigação de para-los é a policia, baixando o pau mesmo, numa demonstração de força bem maior, e desestimulando os atos de vandalismo, prisão, processo e multas pesadas, assim como fianças bem altas. Os que forem menores de idade, multar os pais em valores bem altos para cobrir o prejuizo do bem vandalizado. A ação da policia tem que ser truculenta mesmo, porrada, cacetada, tiro de borracha e pimenta nos olhos, pra doer muito mesmo, mas sem matar ninguem, só dar uma pisa violenta. A imprensa vai filmar tudo e vão sair dizendo que foi ação desproporcional e tudo mais…Mas as forças do estado não devem se abalar e continuar na mesma linha, até o movimento de dispersar e morrer. Os Black Blocs fazem o que querem porque podem, exatamente como você comentou. Se o estado utilizar a força, que é legitimamente autorizada para restabelecer a ordem, e deixar o mi mi mi da midia pra lá, essa putaria acaba e a ordem será restaurada.

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    1. Acho que esse comentário explicita bem a crítica que eu ia fazer ao teu texto, rapaz querido (Rafa). Vale a pena propor um ponto de vista maquínico esquivando-se do referencial das tuas implicações?
      Você pode acabar alimentando alguns processos como este aqui /\ (eu e minhas disjunções).

      Abraço ❤

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  6. CACETE NESSES COVARDES !!! SE FOSSEM TUDO ISSO MESMO NÃO ESTARIAM COM OS ROSTOS COBERTOS PARA NÃO SEREM IDENTIFICADOS E RESPONSABILIZADOS !!! DO MESMO JEITO QUE ARREBENTARAM AS AGÊNCIAS BANCÁRIAS, DEPREDARAM A CONCESSIONÁRIA PRIVADA, MATARAM UM CINEGRAFISTA COVARDEMENTE E EU COMO CIDADÃO COMUM SOU TOTALMENTE CONTRA ESSE BANDO DE VAGABUNDOS COVARDES E QUE NA SUA GRANDE MAIORIA SÃO TOTALMENTE IGNORANTES E REVOLTADOS NÃO CONTRA O SISTEMA E SIM COM ELES MESMOS. CACETE E CADEIA PARA TODOS !!!

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  7. Quem tem medo dos black blocks? Pelo jeito eu sou o único aqui. Não chego perto, não quero contato, não quero chamar pra um café e, certamente, não os quero dentro de casa. Vai que decidem quebrar tudo e eu, leitor da grande mídia (pode não?), capitalista assumido (o inferno me espera), vou ter que pagar a conta do estrago porque, pelo que se vê aqui, eles tem o direito de usarem o que tiverem em mãos para fazerem o que bem quiserem. Como é que se chama isso mesmo? Anarquia, não é? Coisa moderna, esses tal de black blocks…
    Ao contrário da maioria aqui, não conheço e, portanto, não posso filosofar e citar filósofos, pensadores e tantos outros que, dependendo de como se interpreta, embasam o quebra quebra geral porque é “mudérno” e porque é pop ser “contra o sistema” (quem é esse cara afinal???).
    Policiais são anjos? Claro que não, ninguém é. Mas eu estou do lado deles e não de quem quebra o que não lhe pertence, alguém que bate no que não pode revidar, em gente que quebra o que é dos outros mas que odiaria ver sua casa e seus pertences destruídos porque alguém se achou no direito de destruir apenas porque pode, porque tem o poder.
    Quanto a fotos que mostram o lado A ou B da estória…por favor né! Desde a época de Lenin já manipulava a opinião pública com fotos, nada de novo aqui. O que eu posso dizer com certeza é que os black blocks não estavam limpando o vidro dos bancos nem tampouco jogando uma água na Mercedes bonitona, até porque isso se chama trabalho e esse pessoal provavelmente prefere viver à custa dos pais do que trabalhar, esses mesmos pais que pagam a baladinha do final de semana e que também rezam pra não terem o pouco patrimônio que juntaram ser quebrado por gente que tem o “direito” de quebrar. Estavam quebrando mesmo e nenhuma foto do ocorrido vai mostrar o contrário.
    Pra encerrar: acho que o único jeito do país mostrar que não aguenta mais ser conduzido por políticos tão notoriamente corruptos é através de grandes manifestações que tenham um objetivo claro e defendam causas factíveis. Em vários países do mundo, governos foram legitimados e derrubados porque o povo deixou claro que queria mudança. Acho que nosso país está mostrando aos poucos que sabe se mobilizar e isso deixa os políticos sem ação. Não me incomoda ter que desviar o meu caminho de volta pra casa depois do trabalho porque uma manifestação tomou a rua, o incomodo tem que valer pra todo mundo e tem que marcar uma posição firme.
    Mas daí a tentar achar algum romantismo na posição daqueles que elegeram o quebra quebra como causa…tenham dó.

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  8. se os Black Blocs tem direito natural de destruir a propriedade privada, os empresários tem direito de usar força letal e não letal contra os manifestantes, se nos continuarmos pensando assim, vamos para num caos total!

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  9. Em São Paulo e Rio de Janeiro, sempre se incendiou ônibus e explodiu-se caixas eletrônicos, mas como isso era feito por bandidos do PCC, o governo pouco se lixou, agora ficam com essa histeria toda por causa desses jovens anarquistas que, a bem da verdade, estão conquistando cada vez mais adeptos. Isso porque (quem participa de manifestação vai entender) abraçam todas as causas que consideram justas, dentre as quais cito duas bem marcantes: a linha de frente para defender o direito de greve de professores no RJ e o suporte no resgate de animais usados em experiências científicas no Instituto Royal em SP, e aqui faço um adendo – as ativistas já estavam há mais de 2 anos lutando por aquilo sem sucesso e repercussão alguma, foi só quando os black blocs entraram em ação para ajudá-las que elas conseguiram a projeção que a causa animal merecia. Fechou-se o instituto e abriu-se a discussão sobre a ética no uso de animais para fazer testes em produtos cosméticos e de limpeza. Houve, inclusive, a sanção de uma lei estadual em SP proibindo o uso de animais em testes para cosméticos. Ah, mas depredar patrimônio não vai adiantar nada……………………………………….Será que se o instituto não tivesse sido invadido, depredado e tivessem seus bens (animais) roubados, teriam as ativistas conseguido “sozinhas” abrir a discussão para a sociedade? Teriam conseguido a atenção da grande mídia? Teria o senhor governador se sentido pressionado para aprovar as pressas uma lei proibindo o uso de animais em testes de cosméticos? A resposta fica para os pensantes.

    Então, francamente, achar que esses jovens são meros “revoltadinhos”, “playboyzinhos”, “vagabundos bancados pelos pais”, dentre outras coisas que os conservadores costumam dizer, é de ingenuidade kafkiana (para não dizer hipocrisia).

    Afinal, qual é o real prejuízo causados por meia dúzia de mascarados? Será maior do que aqueles causados pelas várias máfias que roubam o dinheiro público nesse país(mensalões, trensalões, paraísos fiscais etc.)?

    Os mesmos que ficam escandalizados com vidraças de bancos (ooohh o patrimônio particular e privado) não se escandalizam com escolas e hospitais públicos que estão e sempre foram sucateados, cujo dinheiro você leitor já pagou, afinal você é um cidadão “de bem” que paga seus impostos. Sim, você paga todo dia e nunca se importou com nada disso e agora fica horrorizado por vidraças que só os juros e a anuidade do seu cartão de crédito já são bem suficientes para arcar com o prejuízo do coitadinho do banco.

    Acompanhei algumas manifestações pois tenho interesse acadêmico nos coletivos, notadamente nos black blocs. Nunca depredei (e nunca vou depredar) patrimônio de ninguém, mas você aí que está escandalizado com vidraças quebradas e concessionárias depredadas, não se preocupe, você já está pagando com os juros. Você sempre pagou, mesmo quando não havia depredações feitas por mascarados infiltrados em manifestações.

    Um grande salve para os vândalos que fizeram a queda da bastilha, embora eu ache que protestar nas urnas e uma petição online já era suficiente para resolver. Ironia.

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  10. Rsrsrsrs. Estes anarquistas que são conhecidos como Black Bloks tentam tornar a situação insustentável para o Estado, tal como o ETA, o IRA e os “exércitos vermelhos” da Alemanha e a Itália objetivaram. Todos eles falharam pelo simples fato de que suas preocupações não eram compartilhadas pelo povo. Ainda mais do quê, quem normalmente participa destes movimentos são os filhos da classe média, estudantes universitários, enfim, jovens que não vivenciavam conflitos familiares, financeiros e sociais, mas que, como todo ser humano, precisavam tê-los e encontraram na “luta das classes” que aprenderam na faculdade uma forma de obter este drama existencial. Mas, como disse anteriormente, este drama dos Black Bloks não é compartilhada pelo povo. Eles não representam os oprimidos e por isto mesmo não podem libertá-los da opressão. Só o povo pode se libertar da opressão, e isto sob a bandeira do capitalismo – único sistema viável que proporciona certo grau de autonomia individual para a obtenção do poder.

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    1. Concordo com você. Um cara numa postagem acima, afirmou que os empresarios teriam o direito de defender seus patrimonios, já que os Black Bloks se acham no direito de sair quebrando tudo. Mas esse seria o pior dos cenários, o sonho desses mimadinhos, rebeldes sem causa, causar uma situação de conflito armado entre os empresarios e a “classs operaria” oprimida, os pobres…coisa que neum desses Black Bloks são. A força legitima para resolver esse problema é a policia, baixando o pau e prendendo. Esses caras são bandidos e bandido não deve ser tratado com beijinho e abraço, é no cacete mesmo.

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