O inusitado filme Waking Life é um despertar-nos, ainda que, majoritariamente, o filme fale sobre sonho. Trata-se de uma proposta de filmar a realidade e, na pós-produção, animar o que fora filmado. O filme é portanto, uma animação feita em cima de cenas reais, que são em geral encontros e diálogos que põe em xeque realidade e sonho. Mas a forma inesperada do filme que nos transporta para um mundo paralelo, uma nova maneira de se ver e fazer cinema, não está desvinculada do seu conteúdo, seu argumento. Para além da discussão do que é vida, sonho e realidade, podemos vivenciar – ainda que seja um pouco desconfortável no princípio – algumas horas do que seria a (i)rrealidade proposta no filme: a vida é um sonho, a morte é a continuação do sonho, e estar acordado é dormir. O nosso personagem principal trilha sua jornada de vida – quase como um grande roteiro de cinema – e vai encontrando pessoas que lhe explicam, confundem, gritam, alegram e até desesperam sua existência. Não apenas ele, mas diversos outros personagens vão dando tom à história e sempre colocando o espectador diante do dilema: o que é real e o que é sonho?

Claro que os diálogos – científicos, filosóficos, anarquistas, amorosos, infantis, artísticos, psicóticos e até as conversas despretensiosas – nos fazem entrar intelectualmente no barco que o filme navega, enquanto sua forma artística nos navega no barco das sensações que o filme propõe causar e nós, espectadores, podemos (ou não) mergulhar.

O grito, Edvard Munch
O grito, Edvard Munch

 

Pois mergulhemos então nos nosso sonhos – e quiça na nossa mais profunda capacidade de existir. Se são nossos cinco (aos supersticiosos, seis) sentidos que nos fazem ter contato com a vida, a realidade, a neurose do cotidiano, é no sonho que podemos domá-los, orquestrá-los de acordo com nossos íntimos desejos. É na psicose onírica que encontramos em nossa pele, em nosso sentidos, nossa potência de existir. Quando sonhamos, nossos poros desprendem-se da rigidez muscular da sociedade, da “realidade” que encontramos em estado de vigília. E é aí, neste momento, em que existimos. Não querendo ser freudiano ao afirmar que no sonho temos contato com nosso inconsciente e desejos profundos e assim estamos de fato numa realidade; nem querendo ser deleuzeano ao acreditar que a pele é nosso inconsciente e a troca de afetos com o mundo é o que nos mantêm potentes e reais. Não. É o resto entre estes dois autores por vezes antagônicos. Qual o resto disto? Não sei também, talvez dormindo eu descubra.

O filme caminha por uma série de interposição de artes: a arte do roteiro, com diálogos profundos e vagarosos; a arte da filosofia e da fisiologia, na ânsia de explicar as questões ali expostas; a arte da filmagem, na provocação estética dos ângulos e da montagem dos quadros; na arte do desenho, ao fazer a realidade filmica transformar-se em desenho lúdico; a arte musicada, que dá ambiência, atmosfera e sentimentos ao encadeamento do filme. Mas todo o trabalho muito bem realizado, não nos leva a alcançar esse estado de realidade – uma realidade que não compactua com a verdade, nem com a completa mentira, e que é desconhecida por nós – mas nos leva a um start, um começo. Há de se dormir enquanto acordado, se explorar, após o filme.

“Se o mundo é falso e nada é real, então tudo é possível. A caminho de descobrir o que amamos, achamos o que bloqueia o nosso desejo. O conforto jamais será confortável. Um questionamento sistemático da felicidade. Corte as cordas vocais dos oradores carismáticos e desvalorize a moeda. Para confrontar o familiar. A sociedade é uma fraude tamanha e venal que exige ser destruída sem deixar rastros. Se há fogo levaremos gasolina. Interrompa a experiência cotidiana e as expectativas que ela traz. Viva como se tudo dependesse de suas ações. Rompa o feitiço da sociedade de consumo para que nossos desejos reprimidos possam se manifestar. Demonstre o que a vida é e o que ela poderia ser. Para imergimos no esquecimento dos atos. Haverá uma intensidade inédita. A troca de amor e ódio, vida e morte, terror e redenção. A afirmação tão inconsequente da liberdade, que nega o limite.” – Trecho do Filme

 

Imagen da Revista

 

Alegremente, este trecho e talvez um pouco do filme como um todo, dialoga com a primeira edição da revista deste blog, que – não querendo fazer propagandas – você acessa aqui: Revistas

 

Não há texto – nem nenhum outro tipo de manifestação – que nos aproxime deste inicio de proposta de experiência que o filme suscita. Talvez este texto aqui, desperte, em você que está lendo, a fina vontade de se deliciar no devaneio artístico de Waking Life. Mas foi bom dividir, num texto quase sonâmbulo, algumas impressões, sensações e deleites dos textos e imagens do filme. Eis um fim de texto com algumas predileções – é hora de dormir pra vida.

“Thomas Mann escreveu que preferiria participar da vida que escrever. Giacometti foi atropelado por um carro, certa vez. Ele lembra-se de ter caído em um desmaio lúcido, um prazer repentino, ao perceber que finalmente algo estava lhe acontecendo. Assume-se que não se pode compreender a vida e viver ao mesmo tempo. Não concordo inteiramente. Ou seja, não exatamente discordo. Eu diria que a vida compreendida é a vida vivida. Mas os paradoxos me perturbam. Posso aprender a amar e fazer amor com os paradoxos que me perturbam. E em noites românticas do eu, saio pra dançar salsa com a minha confusão. Antes de sair flutuando não se esqueça, ou seja, lembre-se.. Por que lembrar é muito mais uma atividade psicótica do que esquecer,.. Lorca no mesmo poema disse que o lagarto morderá os que não sonham. E, quando se percebe, que se é um personagem sonhado no sonho de outra pessoa, isso é consciência de si.” – Trecho do Filme

 

Waking Life

 

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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