O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está aí, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui – Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira

Capa Ensaio Sobre a CegueiraJosé Saramago, sentado na mesa de um restaurante, esperando a comida chegar, se pergunta: “E se nós fôssemos todos cegos?“. Grande ideia para um grande livro, mas só a maestria de um exímio escritor para transformar esta desconcertante ideia em um clássico da literatura. Sim, talvez fosse necessário cegar para descobrir que já há muito tempo não víamos.

O alto falante ecoa no manicômio abandonado onde estão internadas as primeiras vítimas, ele nos indica friamente o que se passa na história: “O Governo lamenta ter sido forçado a exercer energicamente o que considera ser seu direito e dever, proteger por todos os meios as populações na crise que estamos a atravessar, quando parece verificar-se algo de semelhante a um surto epidêmico de cegueira, povisoriamente designado por mal-branco”, os internados devem permanecer isolados até que se ache a cura. O livro tem um tom catastrófico, é profundamente aflitivo. Mas Saramago não precisa iludir seu leitor, e, como grande psicólogo que é, pode mostrar como os homens reagiriam se fossem submetidos à cegueira coletiva.

Aqui entramos com Espinosa. Os homens são seres que entram em relação com outros seres, eles afetam e são afetados por esta condição. Sua potência (conatus) é a força que possuem de afetar e serem afetados, é a capacidade de estabelecerem relações que sejam boas para si. Quando a afecção de cegueira aflinge os homens, eles são tomados pelo afeto de tristeza, isto porque a sua capacidade de afetar e serem afetados diminui bruscamente.

A essência do homem não é um espírito ou um ser eterno e imóvel. Sua essência é exatamente a sua potência atual. Isto significa que após uma afecção ela se atualiza como uma passagem para uma potência maior, denominada como alegria, ou uma potência menor, denominada como tristeza. Ao ficarem cegos as personagens do livro automaticamente têm suas potências de agir e serem afetados transformadas e radicalmente diminuídas. Esta é sua nova essência, esta é sua nova condição, e só por delírios ou sonhos é que se poderia imaginar diferente que é. Donde a conclusão de Espinosa: ao cego não falta a visão.

Dizemos que o cego está privado da visão porque o imaginamos facilmente como vidente, seja porque o comparamos com outros videntes, seja porque comparamos seu estado presente com seu estado passado. Afirmamos, então, que a visão pertence à sua natureza e que por isso está privado dela. Mas, se considerarmos o decreto de Deus e a natureza desse decreto, não podemos mais afirmar que esse homem está privado da visão, assim como não podemos dizê-lo a respeito de uma pedra, pois nesse momento seria tão contraditório que a visão lhe pertencesse como seria contraditório que pertencesse à pedra, porque nada pertence a esse homem , nem pode ser considerado seu a não ser aquilo que o intelecto e a vontade de Deus lhe atribuíram” – Espinosa, carta a Blyenbergh

Somente homens tristes encontram neste romance motivos para maldizer a natureza humana. Seguindo o raciocínio de Espinosa, que nos conduz por uma via da ontologia do necessário, não há o que lamentar. Aliás, no prefácio de sua Ética, Espinosa nos adverte dos perigos daqueles que falam da natureza humana desta forma.

“Atribuem a causa da impotência e da inconstância não à potência comum da natureza, mas a não sei qual defeito da natureza humana, a qual, assim, deploram, ridicularizam, desprezam ou, mais frequentemente, abominam” – Espinosa, Ética III, prefácio

Saramago é o que, como Lygia Telles bem definiu, uma pessimista luminoso. Não posso adotar um ponto de vista como esse, e sua escrita clara em Ensaio sobre a Cegueira (com o perdão do trocadilho), é muito importante porque não cai no moralismo nem na reprovação. Na obra, o autor preocupa-se principalmente em descrever de forma lúcida e realista: a natureza humana não é estragada em essência, mas em face de acontecimentos que o superam e o determinam. É como se Espinosa juntamente com Saramago dissesse, “Não vou exigir mais do que você pode dar, mas também não vou te iludir“.

Discordo radicalmente das leituras hobbesianas e freudianas do livro. Discordo radicalmente das várias outras resenhas que encontrei antes de escrever a minha. Saramago não expõe a crueldade humana em sua essência, apenas mostra a naturalidade com que os afetos humanos podem se transformar e estabelecer. Não há escondido em cada um de nós um ser cruel esperando para agir quando todos ficarem cegos. A cegueira não mostra a verdadeira face de nós mesmos, ela apenas cria novas condições de afetar e ser afetado.

Isso fica claro com a mulher do médico, que é a única que pode ver. Ela é a esperança? a Razão? Talvez os dois, mas ela é antes de tudo aquela que tem uma capacidade maior de ser afetada. Ainda assim ela também participa dos horrores à sua volta. Há de se lembrar do dito popular: “Em terra de cego, quem tem olho é rei”. Não neste livro, onde o medo da mulher do médico, a única que pode ver, é de ser escravizada por aqueles que não vêem. Não, ela não conta aos outros que pode ver, somente àqueles em quem confia, que tomam o cuidado de também não espalhar a notícia. Vemos a necessidade de lembrar de Nietzsche: “os fortes devem ser protegidos dos fracos“.

Que eu aprenda a ver as coisas cada vez mais a partir da perspectiva da potência, e não através de modelos transcendentes. O homem pode o quanto é capaz, se está cego, metaforicamente ou não, precisa lidar com isso de modo lúcido e realista e é provável que cometa as maiores atrocidades e horrores em seus tempos de desespero. Ainda sim, ele deve lutar, sem grandes esperanças, pois estas só atrapalham. Saramago chega a nos dar uma boa resposta: “Organizar-se já é de uma certa maneira, começar a ter olhos”. Os homens viveram até agora como cegos que vêem; disse o autor em uma entrevista, “cegos da razão”, organizarem-se em seu íntimo e organizarem-se entre si já é, de alguma forma, ver mais longe.

O Ensaio Sobre a Cegueira fala ainda de uma minoridade do homem, “o sistema que nos rege reduziu-nos à impotência” (Saramago), e precisamos nos esforçar para tornar a realidade diferente. É muito fácil ser pessimista, mas Saramago não me parece preguiçoso, o autor português declara em uma entrevista, “nossa maior cegueira é não sabermos aonde nos levam e não mostrarmos nenhuma curiosidade em saber“. Não fizemos uma análise profunda dos afetos, dos corpos, de nossas vidas, nossas relações. Enquanto perdermos tempo acusando e vituperando a maldade humana, culpando o homem de ser imperfeito e cruel, estaremos cegos para a maior das verdades: não se pode produzir uma realidade ética sem apostar que a felicidade pode ser maior que a tristeza, sem confiar na vida e sua força para realizar-se. O pior cego é o que não quer ver, o pior vidente é aquele que ainda está cego para suas relações e afetos, perdido no ódio de si e dos outros.

- cena do filme "José e Pilar"
– cena do filme “José e Pilar”

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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