Semir Zeki é um professor de Neuroestética na University College London. Ele tem quatro livros publicados, Splendours and Miseries of the BrainA Vision of the BrainInner Vision: an exploration of art and the brain e em francês o livro La Quête de L’essential. Zeki cunhou o termo neuroestética e vem cada vez mais aprofundando nesta temática. O que envio para esta  Razão Inadequada é uma tradução livre do texto The Arab Spring, Twitter, Facebook and the brain e também algumas tirinhas de André Dahmer que se relacionam com o tema. Resolvi traduzi-lo, pois foi o único texto que vi tentando dar uma explicação neurobiológica para a Primavera Árabe.

Primavera Árabe, Twitter, Facebook e o Cérebro

Grandes coisas têm sido escritas sobre o que temos conhecido como a Primavera Árabe. Dois fatores teriam instrumentalizado e tornado este fato possível. Uma destas teses é dificilmente crível, ao menos para mim, a outra é de um profundo interesse neurobiológico.

A primeira tese é sobre uma revolução das redes sociais feitas com canais como, Facebook e Twitter.  Acho difícil reconhecer esta possibilidade. Tunísia (onde a revolta começou) e Egito são países pobres 40% da população vivem com menos de dois dólares, por dia. Eu entendo que muitos outros além desta pequena porcentagem tenham meios de comprar computadores, e telefones celulares.  Contudo, certamente é difícil de acreditar que Mohammad Bouazizi, o jovem que tragicamente e sem esperanças sobre a sua pobreza, sacrificou a si mesmo, tenha os meios para acessar todas estas mídias. Televisão, comumente disponíveis em Cafés parece ter um papel mais significativo. Não se trata de dizer que Twitter e o Facebook não facilitaram a comunicação. Claro que eles facilitaram apenas como (em um mundo muito menor) um cavalo facilitou a comunicação durante a Revolução Francesa.

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O Segundo – perda do medo – é de grande significância e também de um interesse neurobiológico. Contaram-nos repetidamente que massas que estão se revoltando comumente contra uma força muito mais equipada, tem perdido o seu medo. O medo é associado com certa atividade fisiológica e especialmente sobre o cérebro, as estruturas que contribuem para tal atividade é o complexo núcleo chamado amígdala, dentro do lobo temporal do cérebro, e tendo muitas subdivisões.  Não gostaria de sugerir que a amígdala sozinha seja responsável por um estado tão complexo, a amígdala está conectada a tantas outras estruturas cerebrais que coletivamente são responsáveis por gerar e manter o estado de medo, como uma máquina defensiva para proteger o indivíduo.  Seja qual for o papel de diferentes estruturas cerebrais, o papel central da amígdala foi mostrado muitos anos atrás quando descreveram danos na amígdala, que resultam em perda de medo em animais e seres humanos.

A amígdala tem uma extensa conexão no cérebro. Acredita-se que existem duas rotas para a amígdala uma “imediata” dos órgãos de sentidos, a qual passa o córtex cerebral e uma mais “vagarosa” que retransmite sinais através do córtex cerebral. A amígdala é também conectada com outros centros, como o sistema nervoso simpático, que controla a mobiliza a reação individual apropriada em resposta a eventos ou estímulos de medo.

Eu suponho que o estado padrão é uma atividade – seja qual for a sua natureza – dentro deste sistema, a atividade da amígdala é retransmitida para outros centros que ela está conectada. Eu também pressuponho, talvez de forma simplista, que a desativação do sistema é que leva à condição que nos descrevemos como “perda de medo”.

Isto faz nascer a interessante questão de que desencadeia a desativação e o que dita o tempo de duração desta desativação, e a mudança de um estado de estar sem medo, para se voltar ao estado padrão.

É obvio que uma longa série de queixas chega ao ponto onde os indivíduos deliberadamente desafiam o estado fisiológico e não mais se importam com as consequências das suas ações. No caso da Primavera Árabe também houve um gatilho emocional, o sacrifício de Mohammad Bouazizi. A amígdala é parte do sistema social e emocional do cérebro e a relativa influência do componente emocional comparado com componentes mais cognitivos regulando, a sua atividade é interessante de determinar.

Meu ponto de vista é que, no Egito teve um desencadeamento, que foi mais significante que o Twitter e as mensagens do Facebook.  E este foi o colapso emocional de Wael Ghoneim na TV egípcia, um episódio que foi visto e revisto, e presumo que foi visto pelas massas em vários Cafés nas cidades egípcias. O episódio foi realmente acompanhado por música, assim fortalecendo a mensagem emocional.

O sistema do medo tem sido estudado em larga escala com relação aos animais, mas acontecimento como a Primavera Árabe e outros eventos similares faz germinar importantes questões sobre a organização deste sistema em humanos e como pode ser estudado.

Uma questão é relativa ao curso da desativação. A julgar pelos eventos da Primavera Árabe este tempo pode ser bastante longo, na verdade ele pode também ser permanente. Isto ainda pode ser um interessante exemplo da plasticidade do nosso cérebro.

A segunda questão relacionada com este desencadeamento. Parece se ter poucos motivos para duvidar que este desencadeamento emocional era apenas isso, um desencadeamento vindo de muito descontentamento. Isso por sua vez levanta a questão de saber se existe um limite para desencadear a desativação da amígdala, e quais os mecanismos neuronais para manter tal estado. Também nasce a questão de como o sistema regressa ao seu valor padrão, assumindo que a mudança no cérebro não é permanente. Finalmente, isso levanta a questão de como as duas rotas até a amígdala – a rota direta e a rota cortical – se regulam.

A terceira questão é também sobre o efeito potencializador causado pela desativação pela ação de um grupo. Parece haver pouca dúvida de que o envolvimento de muitos na revolta teve um efeito facilitador, mas como isso funciona ninguém sabe.

Como eu disse acima, o sistema que regula o medo não se limita à amígdala e a uma investigação sobre os mecanismos neurais envolvidos na perda do medo, sem dúvida tem que se estender muito além dela. Contudo, a amígdala é um bom lugar para um começo.

Primavera Árabe é um exemplo de outro evento onde a perda de medo é uma ferramenta poderosa para se iniciar uma mudança. Daí as lições que ela oferece por experimentação e resultados destas experimentações terão importantes implicações gerais.

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Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

4 comentários

  1. Muito legal essa perspectiva! Sou fã de neurologia (mas não sei quase nada) 🙂
    Sempre questionei a importância das redes sociais na Primavera Árabe. Basta olhar para o Oriente Médio atual.

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