Originalmente com o intuito de questionar a biologia-como-destino, a distinção entre sexo e gênero atende à tese de que, por mais que o sexo pareça intratável em termos biológicos, o gênero é culturalmente construído: consequentemente, não é nem o resultado causal do sexo, nem tampouco aparentemente fixo quanto o sexo. Assim, a unidade do sujeito já é potencialmente contestada pela distinção que abre espaço ao gênero como interpretação múltipla do sexo.  (Butler)

Judith Butler
Judith Butler

Um dos primeiros pontos que Judith Butler nos salienta com relação ao gênero é que a aplicação do termo tinha um intuito político de ser um contra-argumento com relação a uma visão essencialista das diferenças sexuais. O gênero aparece para questionar a biologia-como-destino. Esta diferença é vital nós salientarmos, pois a posição essencialista converte as diferenças em algo ontológico, que pertence destinalmente ao indivíduo, que pertence essencialmente a ele, e que não pode ter uma alteração. Essa é, por exemplo, a tese aristotélica, na qual as mulheres não têm domínio de si mesmas, e por isso não estão aptas a virtude, ao autodomínio, ou mesmo o exercício da cidadania. Tese da qual, o filósofo Immanuel Kant vai corroborar em alguns aspectos quando afirma a incapacidade do sexo frágil para a razão prática. Ou que Sigmund Freud escreve que na subjetivação da mulher com relação ao homem, o Surperego, não é tão forte, e por isso as mulheres teriam os seus valores éticos mais maleáveis, elas não seriam tão éticas como os homens. Relaciono estes argumentos com o essencialismo, pois são argumentos fixos, um sistema da qual não se tem mudanças e este sistema cria uma aparência de natureza. Estas são geralmente as tentativas metafísicas, um impulso para criar explicações unívocas, sem mudanças e que deem conta da realidade. O problema destas tentativas é que a realidade sempre se mostra múltipla, algo sempre escapa.

O conceito de gênero vem como um contraponto ao de sexo. O sexo seria algo dado, que iria se referir à constituição anatômica e fisiológica, que entenderíamos como fixos e naturais. O gênero surgiria como um contraponto, pois se vincula com o processo, com a construção, teria papéis sociais mutáveis, relações mais maleáveis, múltiplas interpretações. Desta forma, o gênero como processo histórico-social poderia questionar o dado, o natural e as construções baseadas em uma diferença que é vista geralmente como algo negativo e que serve para criar e sustentar uma realidade de dominação. A psicanálise também tem importantes contribuições na questão do gênero, poderíamos levar em conta autores como Stoller e Greenson, no caso de Stoller ele mostra que nos seus estudos sobre o transexualismo que o sexo biológico (a diferença anatômica) é posta em xeque mediante as tenras formas de socialização. Greenson aponta a identificação como algo importante, na ideia de se sentir homem ou mulher. Greenson esta nos remontando a identificação do bebê com a mãe e o processo de constituição do sujeito, passando pela máquina edipiana. Um último autor, Laplanche, nos diz algo interessantíssimo, pois é contra-intuitivo, é que: o gênero vem antes do sexo. Ele também leva em conta a identificação primária pelo o adulto, a atribuição do gênero na criança é anterior à tomada de consciência dela com relação a sua diferença anatômica, o sexo ganha um valor em um segundo momento fixando a identidade sexuada.

Judith Butler sabe do valor político do conceito de sexo e gênero, contudo também vai criticar ambos os conceitos, e a relação que fizeram deles como se um fosse a natureza (sexo) e o outro a cultura (gênero) (e esta divisão binária de natureza e cultura, diz respeito à outra forma de hierarquia, na qual a cultura impõe o seu significado na natureza, é uma estrutura de domínio, não foi por acaso que as mulheres, os pardos, os índios, os negros, os colonizados eram/são colocados como estando mais próximos da natureza, se opondo a uma cultura elevada). É valido lembrar que se as diferenças sexuais são um fato e este fato é cultural – o que torna o sexo e também o gênero construções sociais. Desta forma, o sexo também não é algo dado, mas um construto. Segundo Butler:

A radical divisão de sujeitos de gênero possui outro par de problemas. Podemos nos referir a um “dado” sexo ou a um “dado” gênero, sem primeiro perguntar como o gênero é dado e por quais meios? E o que é “sexo”? Ele é natural, anatômico, cromossômico, ou hormonal, e como deve a crítica feminista avaliar os discursos científicos que alegam estabelecer tais “fatos” para nós? Teria o sexo uma história? Teria cada sexo uma história diferente, ou histórias? Haveria uma história de como se estabeleceu a dualidade do sexo, uma genealogia capaz de expor as opções binárias como uma construção variável? Seriam os fatos ostensivamente naturais do sexo produzidos discursivamente por vários discursos científicos a serviço de outros interesses políticos e sociais? Se o caráter imutável do sexo é contestável, talvez o próprio construto chamado “sexo” seja tão culturalmente construído quanto o gênero; a rigor, talvez o sexo sempre tenha sido o gênero, com a conseqüência que a distinção entre sexo e gênero mostra-se como não tendo distinção 

Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir

Já que não temos o sexo ou o gênero como algo dado, a questão que surge é como se dá a construção do próprio gênero. Judith Butler retorna para a filosofia de Simone de Beauvoir, no seu livro O Segundo Sexo, fazendo referência a uma de suas frases mais citadas: “Ninguém nasce mulher; torna-se mulher.”. Entretanto, como é possível este tornar-se mulher? O que Judith Butler aponta como claro é que Beauvoir vê o gênero como uma construção, que por sua vez não está relacionado com o sexo, pois nada indica que um homem não possa tornar-se mulher. Este “ninguém nasce mulher” poderia se referir tanto ao masculino quanto ao feminino. Outro aspecto importante é como se daria esta construção do gênero, e é por meio deste questionamento que Butler problematiza a ideia de sujeito proposta por Simone Beauvoir. Na leitura de Judith Butler, o sujeito em Beauvoir ainda se ancora no cogito cartesiano, na divisão mente e corpo. Este fundamento teórico tem suas implicações, porque este dualismo leva em si uma hierarquização e uma relação de poder. A filósofa nos escreve que:

Parece que Beauvoir mantém o dualismo mente/corpo, quando propõe uma síntese desses termos. A preservação dessa distinção pode ser lida como sintomática do próprio falocentrismo que Beauvoir subestima. Na tradição filosófica que se inicia em Platão e continua em Descartes, Husserl e Sartre, a distinção ontológica entre corpo/alma (consciência, mente) sustenta, invariavelmente, relações de subordinação e hierarquia políticas e psíquicas. A mente não só subjuga o corpo, mas nutre ocasionalmente a fantasia de fugir completamente à corporificação. As associações culturais entre mente e masculinidade, por um lado, e corpo e feminilidade, por outro, são bem documentadas nos campos da filosofia e do feminismo. Resulta que qualquer reprodução acrítica da distinção corpo/mente deve ser repensada em termos da hierarquia de gênero que essa distinção tem convencionalmente produzido, mantido e racionalizado.

Em Beauvoir, ainda haveriam os ruídos falocêntricos, que a teoria cartesiana havia deixado na concepção de sujeito. O sujeito cartesiano tem um eu fixo, o cogito, do qual parte todo o conhecimento e que estabelece suas hierarquias, não é somente uma questão epistemológica, mas política. Por isso também é necessário entender o sujeito como acentrado. O sujeito não é somente constituído por um decicionismo, por uma possessão do eu sobre o corpo, mas também por diversos conhecimentos que o atravessam e constituem, que não diz respeito somente a uma realidade social. O sexo não é somente um construto social-discursivo. Butler vê o sexo como uma norma cultural que governa e materialização do corpo, para a existência do corpo é necessário ser sexuado por meio da normatividade e na nossa sociedade o que temos como esta norma é uma matriz heterossexual, que se apropria da diferença anatômica para a criação de uma hierarquia. A diferença anatômica é inevitável, o que esta em jogo é a construção simbólica, cultural, diante desta diferença. Por que somente a matriz heterossexual para a criação da subjetividade? Por que uma primazia da hetero-norma?

 

Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

7 comentários

  1. Texto fantástico, bastante interessante a visão de Judith Butler, sou acadêmico de psicologia e vou me aprofundar mais na visão dela, apesar de ser da visão da filosofia, mas contribuirá muito. Sem falar nos outros três autores da psicanálise citado. Ótimo.

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