01038621_6i0c7a5a0i-1Não digite #ibirapuera ou #pordosol nas redes sociais, ou melhor, deixo com você esta escolha. Andar pelo parque, respirar ar puro, ver um pouco de verde, ouvir o silêncio, são privilégios que temos neste lindo parque paulistano. Mas quem cede à tentação de tirar uma foto com seu Iphone, perde tudo isso?

Contagem regressiva, nosso astro rei já se deita no horizonte, se despede para voltar no dia seguinte, a carruagem puxada por Hélio dá espaço para a Lua tomar seu lugar. É um momento de rara beleza. Em uma ponte, apoiado no corrimão, tenho o privilégio de contemplar a cena.

Mas eis que surgem, novamente, as sacerdotisas do deus Iphone (veja aqui). Na verdade, percebo que estou cercado por Iphones apontados para nossa brilhante estrela. Me vem novamente à mente a discussão aqui tantas vezes travada nesta página. Será que estas pessoas não perdem o momento para ficar tirando fotos? Será que eles vivem aquilo que capturam com em uma imagem?

Muitos subiam à ponte, tiravam a foto e desciam para terminar sua caminhada. Outros eram mais exigentes, na foto era necessário enquadrar a si mesmo, o sol e a companheira, tarefa árdua que exigem alguns minutos e filtros do Instagram. Mas a cena mais singular foi a criança que subiu na ponte e disse: “Olha, mamãe, o pato… olha, mamãe, ele nadou para embaixo da ponte! Onde ele está indo?”. A criança correu para o outro lado para concluir seu experimento científico, será que o pato sairia do outro lado? “Filho, disse a mãe, vira aqui pra mamãe pra tirar uma fotinho, vira”. Não, crianças ficam hipnotizadas por aquilo que lhes chama a atenção, ainda mais se estas coisas fazem “QUACK!”: “Mãe, o pato mora aqui? Mãe, o que o pato come? Ele não se afoga nesse lago?”. Chegamos ao último ato, onde tudo se decide: “FILHO! VIRA PRA MAMÃE! Vamos tirar uma foto!”.

Quantas mortes são necessárias para perdermos a curiosidade pelas coisas pequenas? A criança cujo interesse era simples, sincero, espontâneo, se vê fazendo uma pose para que sua mãe coloque a hashtag #filhao em suas redes sociais e ganhe mais um joinha daquela vizinha invejosa. Fim do aqui-agora… a mãe desce com o filho da ponte puxando-o por uma mão e segurando o celular com a outra.

O sol se pôs, o pato não morreu afogado, as fotos foram postadas, a criança esqueçeu o grito de sua mãe, mas esqueceu também a resposta de sua pergunta: “tirar foto pra quê, mãe?”

#patos
#patos

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

2 comentários

  1. A partir do momento que ganhar o like da vizinha invejosa preenche mais a necessidade de atenção e dá a pessoa um sentimento de felicidade maior do que o por-do-sol, qual o problema?

    Em algum momento da história as pessoas também perderam o gosto por ópera e passaram a ir pra balada, em algum momento as pessoas perderam o gosto por ver leões matando prisioneiros de guerra e passaram a assistir o Datena, em algum momento as pessoas deixaram de andar a cavalo para fazer rolezinho no shopping. Em algum momento as pessoas perderam o interesse nos patos e agora gostam de postar fotos deles. Quem somos nós para julgar o que faz o outro feliz, mesmo que isso seja uma moda generalizada?

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