img3373oldHá muito tempo venho observando a obra de Michel Onfray. O primeiro contato com o autor foi por meio dos seus livros sobre a Contra-história da Filosofia. No primeiro volume encontrei indagações vitais com relação á história da filosofia, questões que levavam principalmente a Friedrich Nietzsche, Walter Benjamin, Michel Foucault. Pois, existi ali um questionamento à historiografia da filosofia, porque ela continuaria sempre a mesma, com suas versões, com seus esquecimentos e seus erros, as mesmas referências, as variações mínimas. No primeiro volume da Contra-história da Filosofia, Onfray nos mostra vários erros e esquecimentos, com relação à Antiguidade. Como, por exemplo, colocar Demócrito como pré-socrático sendo que ele viveu mais de 30 anos, após a morte de Sócrates. As críticas de Onfray perpassam em geral o esquecimento de todo materialismo, para sobrevalorizar o platonismo, ou seja, uma história metafísica:

A escrita da história da filosofia grega é platônica. Ampliemos: a historiografia dominante no Ocidente liberal é platônica. Assim como se escrevia a história (da filosofia) apenas do ponto de vista marxista-leninista no Império soviético do século passado, em nossa velha Europa os anais da disciplina filosófica se estabelecem do ponto de vista idealista. Conscientemente ou não” – Onfray, Contra-História da Filosofia I

Onfray viu que a história da filosofia é idealista. O que chama a atenção é ele reescrever esta história, por outro viés. Ele não somente crítica o idealismo, a história metafísica, como também refaz a história e escreve seus livros como máquinas de guerra, para professores, para acadêmicos e também para a população em geral, pois o autor cria duas Universidades Populares na França, na qual mostra os resultados de suas pesquisas. Estas foram às primeiras questões que vi em um primeiro contato com Onfray. Uma inquietação filosófica misturada com uma vontade de mudança.

onfray camusDepois deste primeiro encontro li alguns outros livros, que me chamavam atenção pela particularidade da escrita e por colocar um sabor na existência. Livros que abordavam o ateísmo, a construção de si, a poesia, a arte contemporânea, viagens, política – e agora para minha surpresa sai um livro de Onfray sobre um dos meus filósofos favoritos: Albert Camus. Esta aliança de Onfray com Camus é extremamente necessária, para uma revitalização do pensamento camusiano. É a criação de amizades salutares, sem um engodo idealista, metafísico, que geralmente culminam em violência e amarras existencias.

9782081264410O livro de Onfray, L’ordre Libertaire – La vie philosophique d’Albert Camus, ainda não foi traduzido para o português, contudo temos uma carta de Michel Onfray que poderia ser o prefácio-político do seu livro, uma carta dirigida a Sarkozy. Da mesma forma que Onfray lutou fervorosamente para preservar a pessoa de Albert Camus, das mãos de Jean-Paul Sartre, ele em sua carta tenta livrar Albert Camus das mãos sujas de Sarkozy. Esta carta é um ato de amizade, mas também uma forte crítica à política de Sarkozy. Desta forma ela é duplamente instrutiva:

Senhor Presidente, torne-se Camusiano

 

Michel Onfray

 

Senhor Presidente, escrevo-lhe uma carta que talvez leia, se tiver tempo. O senhor acaba de manifestar o seu desejo de transferir os restos mortais de Albert Camus ao Panthéon, o templo da República Francesa, na fachada do qual estão inscritas as palavras: « Aos grandes homens, o reconhecimento da Pátria ». Não podemos considerar este seu gesto como um erro, pois Camus foi realmente um grande homem, tanto na sua vida quanto na sua obra e um reconhecimento da Pátria seria honrar a memória deste bolsista da Educação Nacional, transformando-o num provável modelo, num mundo atualmente sem modelos.

De fato, durante a sua vida demasiadamente curta, Albert Camus atravessou a história sem nunca ter cometido erros: pelo menos, ele nunca cometeu o erro de se aproximar intelectualmente de Vichy. Melhor: ele quis participar do combate armado contra a ocupação nazista, mas seus problemas de saúde o impediram. Pelo seu engajamento, Camus é considerado um personagem ilustre da Resistência. O que não foi o caso de todos os seus companheiros filósofos. Ele igualmente não fazia parte do grupo de intelectuais que criticava a liberdade americana por acreditar que ela existisse somente no leste europeu: ele nunca se comprometeu com os regimes soviéticos ou com o maoismo.

Camus foi oponente de todos os terrores, de todas as penas de morte, de todos os assassinatos políticos, de todos os totalitarismos, sem nunca fazer uma única exceção para justificar a guilhotina, os crimes ou os campos de concentração que teriam servido a suas ideias. Por todas estas razões, ele foi realmente um grande homem enquanto tantos outros demonstraram ser tão pequenos.

Mas, Presidente, como o senhor justificará a sua paixão por Albert Camus que, durante o seu discurso na Suécia, fez questão de dedicar seu prêmio a Louis Germain, seu professor primário, ao homem que o ajudou a sair da pobreza e da miséria de suas origens e que através da escola, dos livros, da cultura e do conhecimento, foi se tornando aquele que a academia sueca honraria com o Prêmio Nobel? Aproveito para lembrá-lo da sua afirmação do dia 20 de dezembro de 2007, no palácio Latran: « Na transmissão de valores e no aprendizado da diferença entre o Bem e o Mal, o professor primário jamais poderá substituir o sacerdote » Portanto, foi graças a Princesa de Clèves que Camus pôde se tornar Camus e não graças a Bíblia.

Como o senhor justificará, Presidente, como representante da nação, sua exibição evidente de todos os sinais de sua americanofilia a mais ostensiva? Certa vez, fazendo seu jogging, o senhor vestia uma camiseta com a frase « eu amo a polícia de Nova York ». Durante suas primeiras férias, como Presidente, numa estação balneária, conhecida por ser a preferida dos militares americanos, o senhor se expunha, desta vez sem camiseta, à vista das lentes dos jornalistas. E quantas outras vezes ainda não confessaria a George Bush o quanto o senhor amava os Estados Unidos!

Será que o senhor sabe, que Albert Camus, apresentado frequentemente pelos hemiplégicos somente como um antimarxista, era igualmente, e o que dava sentido ao seu engajamento, um antiamericano redutível? Não por não amar o povo americano, mas, como muitas vezes declarou, por detestar o capitalismo na sua forma liberal, o triunfo do dinheiro rei, a religião do consumismo, o mercado impondo suas leis em toda parte: o imperialismo liberal imposto a todo o planeta – o que caracteriza quase sempre os governos americanos. É este o Camus que o senhor ama? Ou será aquele que na revista Actuelle exige uma « verdadeira democracia popular e operária», « a destruição sem piedade dos trusts » e « a felicidade dos mais humildes entre nós »? (Œuvres complètes d’Albert Camus, Gallimard, La Pléiade, tomo II, página 517).

E outro detalhe, Presidente: como explicar que em julho de 2008, sorrindo diante das câmeras de televisão, o senhor ironizava que « daquele dia em diante, quando houvesse uma greve na França, ninguém mais a perceberia »? Como conciliar esta declaração com o fato de querer honrar um pensador que nunca deixou de celebrar o poder sindical, a força do gênio colérico do trabalhador, a potência da reivindicação popular? Foi ressaltado, no « O Homem Revoltado », sua crítica ao totalitarismo e ao marxismo leninista, esquecendo-se, porém, a parte positiva – uma perversão sartriana bem enraizada no inconsciente coletivo francês – . Neste livro havia igualmente um elogio dos pensamentos anarquistas franceses, italianos e espanhóis; uma celebração da Comuna, e, sobretudo, uma vibrante defesa de um « sindicalismo revolucionário », apresentado como um « pensamento solar » (t. III, p. 317).

Será o Camus, que faz apelo a « uma nova revolta » libertária, que o senhor pretende levar ao Panthéon? Aquele que deseja desafiar a « forma da propriedade » na revista Actuelles II (t. III, p.393)? Pois, este Camus libertário de 1952 não é uma exceção, é o mesmo Camus que, em 1959, oito meses antes de sua morte, respondendo a uma revista anarquista brasileira Reconstruir, afirmava: « O poder enlouquece aquele que o detém » (t. IV, p. 660). O senhor quer honrar o anarquista, o libertário, o amigo dos sindicalistas revolucionários, o pensador político que afirmava que o poder transforma em Calígula quem quer que o detenha?

Presidente, o senhor que, após dois anos de mandato, recebeu, às vezes em grandes pompas, chefes de Estado que se ilustram pelo crime, pela ditadura de massa, pela prisão de opositores, pelo apoio ao terrorismo internacional, pela destruição física de povos minoritários; o senhor que, na ocasião de seus discursos como candidato à presidência, anunciava o fim da política sem fé e sem lei, aliás, citando Albert Camus; como o senhor conseguirá conciliar o seu pragmatismo desvinculado da moral com o zelo Camusiano de jamais separar política da moral? Uma moral voltada aos princípios, às virtudes, à generosidade, à fraternidade, à solidariedade?

Albert Camus aborda no livro “O Homem Revoltado” a necessidade de promover um individualismo altruísta, preocupado tanto com a Liberdade quanto com a Justiça. Escrevo bem: tanto quanto. Pois para Camus, a Liberdade sem Justiça, é a selvageria do mais forte, o triunfo do liberalismo, a lei dos bandos, das tribos e das máfias. A Justiça sem Liberdade é o reino dos campos de concentração, dos arames farpados e dos miradores. Em outros termos: a Liberdade sem Justiça são os Estados Unidos impondo ao planeta o capitalismo liberal sem escrúpulos e a Justiça sem Liberdade foi a URSS fazendo do Goulag a verdade do Socialismo. Camus queria uma economia livre numa sociedade justa. Nossa sociedade, senhor Presidente, da qual senhor é a encarnação soberana, é livre somente para os fortes, ela é injusta para os mais frágeis que encarnam igualmente os mais desprovidos de liberdade.

Os mais humildes, para os quais Camus queria que a política fosse feita, são, hoje, os trabalhadores e os desempregados, os clandestinos, os precários, os imigrantes e os refugiados, os sem-tetos, os estagiários sem contratos, as mulheres dominadas pelas minorias invisíveis. Para eles, não há Liberdade ou Justiça possível. Estes filhos e filhas, irmãos e irmãs, descendentes dos sindicalistas espanhóis, dos miseráveis da Kabila, dos operários oriundos dos países árabes da África do Norte, no passado, honrados e defendidos por Camus, hoje, não são convidados a participarem da festa de seu reino. Será que o senhor já se perguntou o que Camus iria pensar de sua política pouco altruísta e tão individualista?

Como fará Presidente, para não mencionar no seu discurso, na ocasião da cerimônia no Panthéon, que o senhor foi à usina Mittal de Grandange anunciar aos operários que a fábrica onde trabalhavam seria salva, e que, na verdade, acabaria por falir alguns meses depois? Que Camus escrevia, no dia 13 de dezembro de 1955, num artigo intitulado « A condição operária » que todo trabalhador deveria participar diretamente da gestão e da repartição da renumeração nacional (t. III, p. 1059)? Foi preciso a preguiça dos jornalistas, revisando os dois mais célebres biógrafos de Camus, para fazer do filósofo um social democrata…

Se Camus pôde participar do debate democrático parlamentar foi de maneira pontual para apoiar Pierre Mendes France, em 1955, na tentativa de dar à Algéria uma chance à inteligência contra os partidários do sangue do exército francês ou do terrorismo nacionalista algeriano. Albert Camus nunca opôs reforma à revolução, ele era por uma reforma à espera da revolução, na qual ele sempre acreditou, desde que ela fosse, evidentemente, moral. Porém, estas suas posições são raramente mencionadas.

Como compreender, quando ele publica no jornal L’Express, do dia 04 de junho de 1955, que a ideia de revolução, à qual ele não renuncia em si, encontrará seu sentido quando ela deixará de apoiar o cinismo e o oportunismo dos totalitarismos do momento e quando ela « reformará seu material ideológico e bastardo por meio século de compromissos e que, para finalizar, colocará no centro de seu ímpeto a paixão irredutível pela liberdade » (t. III, p. 1020) – o que no « Homem Revoltado » toma forma de uma oposição entre socialismo Cesariano, aquele de Sartre, e o socialismo libertário, o seu. Ora, devemos sublinhar que a crítica camusiana do socialismo Cesariano, senhor Presidente, não é a crítica de todo o socialismo, longe disso! Este socialismo libertário passou em silêncio pela direita, o que é compreensível, mas também pela esquerda que, desde esta época, já aspirava a hegemonia de um único representante.

Portanto, o senhor tem razão, Presidente da República, Albert Camus merece o Panthéon, mesmo se o Panthéon fica longe, muito longe de Tipaza, o único túmulo que ele trocaria provavelmente por outro em Lourmarin… Mas se o senhor quiser que acreditemos na sinceridade de sua conversão à grandeza de Camus, à eficacidade de seu exemplo (não é a função republicana do Panthéon ?) será preciso começar pelo senhor.

Na realidade, dê aos franceses o exemplo em nos demonstrando que como Camus – que merece o Panthéon – o senhor prefere os professores aos sacerdotes para ensinar os valores; que como Camus, o senhor não acredita nos valores de mercado impondo suas leis; que como Camus, o senhor não despreza nem os sindicalistas, nem o sindicalismo, nem as greves, pelo contrário, o senhor conta com o sindicalismo para encarnar a verdade do político; que como Camus, o senhor não tem a intenção de desenvolver uma política despreocupada da Justiça e da Liberdade; que como Camus, o senhor destina a ação política na melhoria da condição de vida dos mais fracos, dos humildes, dos esquecidos, dos desmunidos, dos sem diplomas, dos sem títulos, dos sem-vozes e que como Camus, o senhor inscreve o seu combate na lógica do socialismo libertário.

Na ausência desta política, desculpe-me, senhor Presidente da República, eu acreditarei que atrás deste anúncio de homenagem a Camus no Panthéon, há um novo plano de comunicação de seus conselheiros em imagem. Camus não merece isso. Demonstre-nos então, que sua leitura do filósofo não foi oportunista, ou seja, que ela terá produzido efeitos na sua vida, e por consequência, na nossa. Se o senhor ama Albert Camus a este ponto, torne-se camusiano. Certifico, senhor Presidente, que agindo desta forma, o senhor se encontrará na origem de uma autêntica revolução que nos dispensará de apoiar outra.

Despeço-me, com meus sentimentos respeitosos e, todavia libertários,

Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

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