Unicorn_hunt_-_British_Library_Royal_12_F_xiii_f10v_(detail)Já faz um tempo que venho escrevendo um Bestiário, e foi no meio desta escrita sobre os animais que então vi a notícia sobre o menino que entra em uma jaula e tem o seu braço devorado por um tigre. A reação mais tola, a reação mais idiota e ao mesmo tempo a mais esperada é a ideia de sacrificar o animal; penso que ainda está fresca em nossa memória a reação das pessoas quando, por exemplo, fomos bombardeados por notícias de Pit bulls que então atacavam crianças. E isto aconteceu com determinada frequência. Estamos diante de certos animais não educáveis, quando o leão circense deixa de dar a mão, deixa de abrir a boca e volta para o seu impulso fazendo do circo não comédia, mas sim tragédia e não mais um aparato de pedagogia animal. O tigre não será um cordeiro, nem mesmo quando enjaulado, feito um animal farrapo para diversão de alguns, nem mesmo na poesia ele o é desta forma. É sobre este momento que quero voltar-me e fazer dois apontamentos, um poético com referência a William Blake e outro político a respeito de nossa domesticação.

Posto isso, quero primeiramente citar dois poemas de Blake, porque ele escreve sobre o tigre e o cordeiro. Primeiro vamos à imagem poética do cordeiro, mas antes saliento que o cordeiro é uma imagem arquetípica que perpassa o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. No poema há uma relação com a brancura imaculada do animal, com a inocência, com sua voz terna que daria alegria a todo o mundo. O cordeiro é a bondade. Diria que é um animal acariciável que sacrificaria toda a lã para aquecer o corpo dos seus filhos. O poema de Blake é o seguinte:

 

O Cordeiro

Cordeirinho, quem te fez?
Pois tu sabes quem te fez?
Deu-te a vida e deu-te pasto
Ribeirinho e largo prado
Deu-te roupa de delícia
Lã macia sem malícia
& deu-te esta voz tão terna
Alegrando toda a terra:
Cordeirinho, quem te fez?
Pois tu sabes quem te fez?
Cordeirinho, vou dizer-te,
Cordeirinho, vou dizer-te!
É chamado por teu nome
Pra si mesmo dá teu nome
Ele é meigo e moderado
De menino Ele é chamado:
Eu menino e tu cordeiro
Temos hoje o nome Dele.
Cordeirinho, Deus te crie.
Cordeirinho, Deus te crie.

Contudo, agora nos voltemos para outro poema de Blake, um mais feroz, com uma maior fúria, com uma maior luxúria. Trata-se do poema Tigre, e o tigre configura-se em outro registro, porque há outra imagem poética. Poderíamos ler o poema como um contraponto ao Cordeiro. O tigre como a representação do Mal. Blake chega a perguntar no seu poema “Quem fez o cordeiro te fez?”, ou seja, “O tigre foi obra de Deus ou do Demônio?”.  Vale a pena lermos o poema:

Tygre

Tygre, Tygre, fogo ativo,
Nas florestas da noite vivo;
Que olho imortal tramaria
Tua temível simetria?

Que profundezas, que céus
Acendem os olhos teus?
Aspirar quais asas ousa?
Qual mão em tuas chamas pousa?

Porque braço & que arte é feito
Cada nervo do teu peito?
E teu peito ao palpitar,
Que horríveis mãos? & pés sem par?

Que martelo? Que elo? Tua mente
Vem de qual fornalha ardente?
Qual bigorna? Que mão forte
Prende o teu terror de morte?

Quando em lanças as estrelas
Choraram ao céu, ao vê-las:
Ele sorriu da obra que fez?
Quem fez o cordeiro te fez?

Tygre, Tygre, fogo ativo,
Nas florestas da noite, vivo,
Que mão imortal armaria
Tua terrível simetria?

Tyger-ilustración-Blake

O tigre belíssimo como a representação do mal, mas também ele pode ser visto como representação do que é selvagem, do que é libertário, não somente como um contraponto ao cordeiro, mas como manifestação de Deus além do bem e do mal, além das antinomias do próprio poema.  Assim, a violência do tigre, a força do tigre não pode ser moralizada. O tigre mesmo na sua jaula não se tornará um cordeiro, e aqui não estamos usando metáforas ou imagens arquetípicas, mas sim vendo a natureza esbanjando-se mesmo quando acuada, cutucada e enjaulada. A solução absurda ao ver que o tigre não se tornará um animal de pelúcia para o prazer de alguns é pensar no seu sacrifício, ou seja, querer controlar este animal feito numa fornalha ardente.

caballo corneado_oO domador sempre quer subjugar suas feras. O domador sempre quer civilizar suas bestas. E claro que a relação homem-animal pode ser reconfigurada na relação homem-homem, a grosso modo, também somos domesticados e andamos de bicicleta como os ursos de circo, e sabemos reconhecer a voz do nosso amo. Porém, é necessário sempre salientar o primitivo-selvagem nas duas relações: homem-animal e homem-homem. A besta interna do homem e o homem interno do animal. Mas, o nosso otimismo não nos impede de tentar outras relações que vão com certeza além da tentativa de transformar tigres em cordeiros. Para além de uma lógica que diz que se não é possível civilizar, extermine-os!!

Escrito por Rafael Leopoldo

"A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Manuel Bandeira

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