representação de um monge copista do séc. V
representação de um monge copista do séc. V

– por Daniel Barra

As filosofias hoje têm o poder de exercer o mesmo papel das religiões. Só não exercem, por falta de mediadores. Essa declaração não vai num nível rigoroso, tampouco acadêmico; é uma análise propositalmente superficial, e mesmo assim, notem, poderosa…

Nietzsche pode vender como água, mas isso não quer dizer que as pessoas entendam a sua filosofia. Decoram uma frase, uma ideia ou outra, mas as suas vidas não mudam por isso. Uma pena, já que esse pensador é um excelente exemplo da atitude que a filosofia contemporânea tem tomado: ser uma filosofia prática.

Mais do que viajar na maionese, ou complexificar assuntos densos, muitas filosofias nos são hoje contemporâneas por trazerem de volta o corpo e sua prática social. Filósofos badalados como Nietzsche, Espinosa ou Foucault por exemplo, nos chegam proporcionando isso. Nos dão pistas para uma postura de vida, noções éticas, estéticas e espirituais, de auto­conhecimento e de convivência em sociedade. Uau! Dito assim parece até uma novidade, um filósofo me dizendo “acredite nisso, pense assim, viva assim e faça assado“, muito parecidamente com as religiões. Não é que eles façam isso diretamente, mas no fundo é o que fazem, há séculos!

Dito isso, podemos pensar no tal foco dessa questão. Que as religiões também são “filosofias de vida”, conjunto de regras e valores que norteiam nossa postura como seres humanos e nossas ações cotidianas, fica claro. Mas então por que raios as religiões funcionam em grande escala e as filosofias não? Ignorando todas as outras respostas chatas e teóricas, vamos à mais direta: porque existe uma pecinha chave, um dispositivo situado entre as pessoas e o conhecimento a ser passado: o mediador!

Sacerdotes, padres, pastores, rabinos, mestres, professores, pajés, monges, e assim por diante. Estes mediadores nem sempre são os filósofos, santos, criadores dessas ideias, a principal função deles é a de facilitar esse entendimento aos outros. E é através dessa mediação, também, que muita confusão surge, gerando ramificações a partir de diferentes interpretações das fontes originais. O que deflagra a grande dificuldade de se compreender essas ideias.

Esta nítido que a maioria que leu Nietzsche não entendeu muita coisa, muito menos botou em prática. Mas é claro que não, é difícil mesmo de entender, e por isso também é difícil contagiar­-se. Filosofia é uma outra língua, cheia de armadilhas, e cada filósofo tem a sua. As palavras usadas são muitas vezes as mesmas: “ética”, “espírito”, “consciência”, “desejo”, “essência”, “verdade”, mas para cada autor elas podem ter significados diferentes. Daí o esforço de se entender o que é “ética” para Nietzsche, o que é “espírito” na filosofia de Hegel e assim por diante. Hoje em dia ninguém tem o saco de sentar a bunda na cadeira para pesquisar essas coisas, por isso a importância do mediador.

A quem o povo escuta?

Por mais que no cerne da nossa sociedade a ciência tenha vencido a batalha sobre Deus (quando você fica doente você procura o médico, e não mais acende uma vela e reza), ­ tem uma lado que a ciência não dá conta, que é o de nortear esses milhares de desesperados por tranqüilidade espiritual e normas éticas. Por mais que a ciência tenha provado por a + b que o mundo não foi criado em sete dias, milhares de pessoas ainda botam fé nestas palavras bíblicas. Oficialmente, trocamos o Deus da teologia pela ciência acadêmica, mas ela não resolveu muita coisa.

Infelizmente, nessa guerra santa, a filosofia foi para o lado da ciência e envaideceu­-se. Trancafiou­-se nos palácios acadêmicos, reduziu­-se a apertados nichos, e embestou­-se a falar cada vez mais difícil que é para demostrar mais nobreza, lhe conferindo destaque e gozando assim de prestígio. Mas talvez seja mesmo esse o papel do filósofo: habitar um mundo de criação e de estudos complexos demais para quem não vive nele, nós os reles mortais. Então, a pergunta: como a filosofia chega a nós? Através das metáforas indecifráveis do Nietzsche? Nos termos cabeludos do Deleuze? Ou os filósofos não querem contagiar os povos e as multidões?

Claro que a filosofia quer isso, como quis Espinosa, viver em uma “comunidade de homens livres“. E quer também que no fundo cada um possa ser o seu próprio filósofo, pois a todos lhes é dada naturalmente esta capacidade. Mas isso já é querer demais, por isso recorremos a eles. Só que dos poucos filósofos que existem, todos estão trabalhando para produzir a filosofia, e não para disseminá-la ou torná­-la mais acessível às pessoas.

Do lado de cá deste abismo, estamos nós, meros cabaços, tentando filosofar a seguinte ideia: Talvez tenha chegado o momento de desenvolvermos um dispositivo mediador, um “tradutor” de filosofia, que em poucas palavras e com muito charme, nos seduzisse a ponto de vivermos sob as proposições tão rebuscadas e trabalhas desses atualizados e sofisticados “novos santos” (a muito contragosto deles próprios), os queridos e profanos filósofos.

(Este tópico não se encerra aqui. Talvez sua continuidade seja “De que modo podemos produzir estes mediadores?)

- cena do filme "o nome da rosa"
– cena do filme “o nome da rosa”

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

2 comentários

  1. Parabéns, muito bom o texto. Sempre me causou curiosidade essa capacidade do meio acadêmico ou pessoas em geral fazerem belos discursos, falarem, falarem…. de Deleuze, Espinoza e outros filósofos; os tratando como “salvadores da humanidade”, sem que essas mesmas pessoas tenham uma atitude prática em relação ás filosofias que elas próprias costumam ler. Não sei se é por que não compreenderam muito bem essas filosofias ou por que tem tanto medo e incapacidade de colocá-las em prática.

    Espero um novo texto sobre o assunto. Muito bom.

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