Desespero, Mats Eriksson
Desespero, Mats Eriksson

Criar um animal que pode fazer promessas – não é esta a tarefa paradoxal que a natureza se impôs, com relação ao homem?” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 1

Como fizemos do homem um animal capaz de prometer? E mais, como tornamos o homem este animal que se envergonha de si mesmo? A culpa e a má consciência são consequências diretas do ressentimento e inversão dos valores (veja aqui). Veremos neste texto o que Nietzsche chama de interiorização do homem. Mas antes vale voltar ao método genealógico e perguntar: quem quer prometer?

É útil para o homem ser capaz de prometer. Somos Vontade de Potência, que age no mundo, criando e dando sentido. Ao dar valor às coisas, temos a capacidade de efetuar trocas com outros homens. A relação credor-devedor nasce das trocas que efetuamos ao darmos valor às coisas. “Estabelecer preços, medir valores, imaginar equivalências, trocar” (p.54). Mas, diz Nietzsche, a única forma de ativar a memória no homem é através da dor. A própria dor tem um valor positivo na pré-história da humanidade. Ela serve tanto como pagamento de uma dívida, como marca que permite ao homem lembrar-se posteriormente de suas promessas. A dor é sempre exterior, ela é parte necessária da vida, é preciso amá-la. Na relação credor-devedor do começo da humanidade o castigo existia exatamente para impedir a culpa: paga-se a dívida com uma punição e põe-se fim à questão.

Sem crueldade não há festa: é o que ensina a mais antiga e mais longa história do homem – e no castigo também há muito de festivo!” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 6

O primeiro passo para a interiorização do homem acontece quando ele se torna incapaz de esquecer. Sim, somos dispépticos: não temos a força ativa capaz de limpar a consciência. A força ativa que há em nós deve forçar a consciência a ficar vazia, para abrir-se ao novo, experimentar coisas diferentes, mergulhar novamente no mundo. Desaprendendo a esquecer na hora certa, aprendemos a lembrar na hora errada.

Fechar temporariamente as portas e janelas da consciência; permanecer imperturbado pelo barulho e a luta do nosso submundo de órgãos serviçais e cooperar e divergir; um pouco de sossego, um pouco de tabula rasa da consciência, para que novamente haja lugar para o novo, sobretudo para as funções e os funcionários mais nobres, para o reger, prever, predeterminar […] eis a utilidade do esquecimento, ativo, como disse, espécie de guardião da porta, de zelador da ordem psíquica, da paz, da etiqueta: com o que logo se vê que não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 1

É útil para a cultura um animal capaz de prometer, ele se torna confiável, mas isso deve ser usado apenas no sentido de fazer do homem um animal mais forte. A promessa se dá entre iguais em força que se beneficiam ao lembrar do que prometeram um ao outro:

O homem ‘livre’, o possuidor de uma duradoura e inquebrantável vontade, tem nesta posse a sua medida de valor: olhando para os outros a partir de si, ele honra ou despreza; e tão necessariamente quanto honra os seus iguais, os fortes e confiáveis (os que podem prometer – ou seja, todo aquele que promete como um soberano, de modo raro, com peso e lentidão, e que é avaro com sua confiança, que distingue quando confia, que dá sua palavra como algo seguro, porque sabe que é forte o bastante para mantê-la contra o que for adverso” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 2

Mas no homem do ressentimento, estas forças ativas se tornaram debilitadas, ele não consegue mais esquecer. Consequência: todo estímulo se torna um incômodo, toda lembrança se torna um tormento, toda memória uma lamentação. “Oh! No meu tempo… ah! Quando eu era jovem…“, é um dos possíveis casos, mas o homem do ressentimento também não esquece as dores, ele vive remoendo e ruminando a dor que não consegue digerir: “Aquela ofensa, aquele dia; ele me pagará, ele não perde por esperar!“. Mas isso significa que Nietzsche despreza a memória? Não, tomemos cuidado com as palavras, toda força reativa existe e sempre existirá, mas o escritor de Genealogia da Moral apenas quer colocá-la em seu devido lugar. No homem do ressentimento, a memória se torna dor interiorizada, então, a saudável relação credor-devedor (que envolvia a dor como algo externo, mas necessário) se transforma em uma relação credor-culpa.

A cultura existiria primariamente para dobrar o homem, moldar sua consciência, criar um ponto de apoio onde ele poderia subir e superar-se. Contudo, ela permitiu que a erva daninha da má consciência crescesse e se espalhasse. A dor, antes externa e parte do processo se tornou algo interno e motivo de vergonha. O homem é um animal que foi quebrado, sua cultura é pesada demais para ele carregá-la em seus ombros; como um camelo (veja aqui), ele se esforça para levar consigo sua moral, seus deveres, suas leis e suas responsabilidades.

Esse animal que querem ‘amansar’, que se fere nas barras da própria jaula, este ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de converter em aventura, câmara de tortura, insegura e perigosa mata” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 16

Não há contrato social, apenas uma guerra interna dos instintos que antes se exteriorizavam. A doença da má consciência é uma desordem fisiológica. Seu resultado? O “cidadão de bem”: cômodo, conciliado, obediente, vão, sentimental, cansado. A pré-história preocupou-se com o adestramento das forças reativas; na história, inverteram-se os valores, preponderaram a fraqueza e a desordem. Resultado: o homem se tornou um plano que fracassou, uma promessa não cumprida. Ele se arrasta no tempo esperando redenção.

Vejo a má consciência como a profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão da mais radical das mudanças que viveu – a mudança que sobreveio quando ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 16

Vivemos os tempos de paz e tranquilidade, do sossego e da concórdia. O homem forte ainda consegue viver nesta cultura, buscando suas batalhas, criando valores, e se mantendo distante dos fracos e ressentidos. O fraco é um perigo para o forte, ele pode contaminá-lo. Por isso o senhor precisa manter o pathos da distância. Mas o escravo é aquele que inverte os valores, para ele os mansos são os bem-aventurados. Os dóceis, que chamamos de fracos, doentes, não tem para onde descarregar seus instintos, voltando-os para dentro.

Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isto é o que chamo de interiorização do homem: é assim que no homem cresce o que depois se denomina sua ‘alma’. Todo o mundo interior, originalmente delgado, como que entre duas membranas, foi se expandindo e se estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 16

A sociedade exige o amansamento da fera, a expansão dos instintos não tem mais vazão. É o momento da introjeção. Olhando para a vida com rancor, como uma mentira, estas forças viram-se contra si mesmas. O homem escoa agora todos os seus instintos, toda sua agressividade, para dentro. A força é interiorizada e se torna dor; a dor é interiorizada e se torna culpa.

Bicho-homem interiorizado, acuado dentro de si mesmo, aprisionado no ‘Estado’ para fins de domesticação, que inventou a má consciência para se fazer mal” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 22

Giuseppe Crespi
Giuseppe Crespi

Mas do primeiro para o segundo momento é preciso o golpe de gênio de umas das figuras mais interessantes do bestiário nietzschiano: o sacerdote ascético (veja aqui). Ele entra em cena para salvar o homem que sofre pela falta de sentido para sua dor e seu incômodo. A dor é muito pior quando ela não tem sentido. “O que revolta no sofrimento não é o sofrimento em si, mas a sua falta de sentido” (p. 53). Ela é possível de suportar, mas a dor sem sentido é uma maldição! O homem do ressentimento precisa de algo que justifique seu incômodo com o mundo em que vive, seu mal-estar na civilização, sua indisposição. O sacerdote ascético surge para inverter a direção do ressentimento e dar-lhe um sentido.

‘Eu sofro: disso alguém deve ser culpado’ – assim pensa  toda ovelha doente. Mas seu pastor, o sacerdote ascético, lhe diz: ‘Isso mesmo, minha ovelha! Alguém deve ser culpado: mas você mesma é esse alguém – somente você é culpada de si!…”. Isto é ousado bastante, falso bastante: mas com isso se alcança uma coisa ao menos, com isto, como disse, a direção do ressentimento é – mudada” – Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, § 15

Com a dívida infinita nós nos tornamos eternamente culpados. Como não podemos pagar a dívida, nosso credor se torna poderoso e sobrenatural. “O advento do Deus cristão, o deus máximo até agora alcançado, trouxe também ao mundo o máximo de sentimento de culpa” (p. 73). O aprofundamento do ressentimento levou à má consciência, mas ainda não havia uma justificativa para a dor, com o aparecimento do sacerdote cristão a vontade estava salva. Mas a dor e a culpa se tornam ainda mais profundas:

O próprio Deus se sacrificando pela culpa dos homens, o próprio Deus pagando a si mesmo, Deus como o único que pode redmir o homem daquilo que para o próprio homem se tornou irredimível – o credor se sacrificando por seu devedor, por amor (é de se dar crédito?), por amor a seu devedor!…” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 21

Mas voltemos à genealogia: quem quer o Deus cristão? Quem se sente devedor? Quem precisa do sacerdote ascético? O escravo, claro, ele não pode afirmar, por isso nega o outro. Ele precisa aliviar seus tormentos! O escravo quer, mas quer o nada (Deus); nesta negação tem a falsa ilusão da afirmação. Ele quer pagar a dívida, mas não consegue; ele quer afirmar-se, mas não pode; ele quer ser senhor, mas não é. Como ele não pode expandir-se, devido à sua fraqueza, ele inverte os valores e diz que só não age assim porque é bom, manso, humilde, espera o reino do céus e a volta de cristo.

Há uma crescente interiorização de seus impulsos, e consequentemente, de sua raiva, ódio e ressentimento. Para manter tudo no lugar, o sacerdote ascético administra seus remédios, conservando o homem da má consciência sempre manso, dócil, confuso e obediente (veja aqui).  E o sacerdote ascético termina com o processo, invertendo o ressentimento e salvando a própria vontade que declina.

Mas o que há de mais baixo no homem moderno é que ele quer fazer todos se sentirem culpados, devedores como ele. Para isso, espalha os valores ascéticos aos quatro ventos, levando sua doença para cada vez mais longe. Este é o tema do próximo texto de nossa série.

> Genealogia da Moral: “O que significam ideais ascéticos?” <

Raskolnikov, personagem do livro "Crime e Castigo" de Dostoiévski
Raskolnikov, personagem do livro “Crime e Castigo” de Dostoiévski

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

8 comentários

  1. com o amadurecimento da nossa cultura amadurece, também, a culpa disseminada nas massas. com isso as religiões se fortalecem, acolhendo os ressentidos …
    ” Ele apreende em “Deus” as ultimas antíteses que chega a encontrar para seus autênticos e insuprimíveis instintos animais, ele reinterpreta esses instintos omo culpa em relação à Deus”
    Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 22

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