votar

A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado” — Eduardo Galeano

Descaso ou descrédito? Não tenho em quem votar… conclusão: vou anular meu voto! E o menos pior? Não, não votarei no menos pior. O melhor a se fazer é não votar em ninguém. Ainda assim, sempre acabo ouvindo: “você não pode deixar seu voto ir para o PT, aquele bando de petralhas!” ou então, “mas vai ser muito pior se alguém do PSDB for eleito!“. Sim, sim, mas a questão é muito mais simples: eu não quero entrar no jogo eleitoral… não quero atuar na coxia do teatro democrático… eu não quero participar da política desta forma. Eu me abstenho… me abstenho da frustração de eleger alguém.

Não é um “voto de protesto”, não é “simbólico”; eu sei que o voto nulo não tem a capacidade de anular a eleição, e não é essa a intenção. O motivo para não votar é porque acredito que não é assim que se faz política, não é este o caminho. Assim como disse Nietzsche, “não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar!” (GC, §276). Somente assim podemos ver outras coisas que ficam escondidas pelo falido jogo democrático.

Minha política não é representativa, é participativa! Não é quadrienal, é diária. Já é hora de desfazer a máquina “democrática/representativa” brasileira. Se esta página possui convicções libertárias, seria um contradição escolhermos um candidato. Queremos também pichar os muros com um “Nem Deus, nem mestre“! (Maio de 68). Se esta página se considera anarquista, então ela não pode escolher quem ficará acima dela. Se os autores deste blog odeiam a verticalidade, é coerente seu voto nulo. A responsabilidade é grande, claro, porque votar nulo não me exclui da política, pelo contrário, me insere mais intimamente, me traz ao primeiro plano: atuação direta.

Votar Nulo é votar em vão? É anular-se? É fugir? É niilismo político? Ou seria o contrário? Quem vota se esconde, quem vota evita, quem vota se priva, quem vota se acovarda, quem vota abstêm-se. Votar é passar a bola é pedir “representantes preparados”? Temos pena destes representados! Só há uma diferença entre reis, papas, presidentes e ditadores: o voto. Votar nulo é exercer o mínimo de sua condição libertária. Por essas e outras, não votarei! Não há nenhuma pessoa que gostaria de colocar no poder porque não gosto do poder! Na verdade temos nojo do poder! Poder e potência não combinam! Não queremos tomar o poder, queremos acabar com o poder! Eu votaria somente em um plebiscito para dissolver a câmara, o senado e o próprio voto!

Me fazem acreditar que o único meio de ser politicamente ativo é votando, mas isso é uma mentira, o voto é a última e menor das possibilidades. Ainda assim, que grande pecado para a democracia parece ser alguém que ativamente diz “não vou e não quero votar em ninguém!“. O voto, a democracia representativa, convém com indivíduos passivos, cansados, desiludidos. Ela serve bem aos interesses de quem quer o povo bem longe da política! Levamos a comparação ainda mais longe, votar não é passar a bola, é chutá-la para fora do campo!

Claro que seria possível votar em alguém que aceleraria o processo de fim da opressão. A esquerda libertária seria a melhor possibilidade na minha opinião, mas não a encontro… Onde ela está? Onde estão os partidos de esquerda-libertária? Eles também querem ministérios, cadeiras, cargos! Pior, quando escuto o que dizem, só escuto: poder, estado, poder, estado, poder, estado…

Outro problema do voto, ele funciona por tudo ou nada. É a ditadura da maioria, a ilusão de unidade. Eu quero o candidato X, você quer o Y, por que eleger apenas um? Ora, por que não os dois? Por que não mil, ou todos? Sabemos a resposta, precisamos de um chefe máximo e único porque não sabemos lidar com a multiplicidade! A diferença nos assusta! Nós queremos seguir outros caminhos: se eu quero abortar, eu aborto, se você não quer, não aborta. Se eu quero fumar maconha, eu fumo, se você não quer, não fuma. Se eu quero trocar mercadorias com fulano, eu troco, se você não quer, não troque, se eu quero trocar trompete, eu toco, e você poderia aprender outro instrumento. Se eu quero trabalhar com Sicrano eu trabalho, se você não quer, não trabalhe. Não somos todos iguais, não queremos ser iguais, podemos e teremos ideias diferentes. Por isso não precisamos eleger alguém para obrigar os outros a serem iguais a mim, a diferença se relaciona na imanência, na horizontalidade, não com códigos e constituições.

Por que sempre pedimos por mediações? Não sabemos mais efetuar encontros? Nossos poros estão entupidos de poder! “Vote em fulano, ou o mundo acabará!”. Não sabemos mais nos relacionar? Precisamos sempre de uma cartilha, uma lei, um chefe, um presidente. Votar é submeter-se. Precisamos criar novas alternativas políticas, porque estas vias institucionais estão gastas e enferrujadas.

Se política é uma questão de escolhas, e se votar é escolher, então escolho votar nulo e fazer a política no meu dia a dia, minhas outras escolhas tornam irrelevante meu voto, por isso ele não existirá. Escolho levar a política para micro-política, onde eu posso atuar. Só se defende a liberdade dando liberdade! Só se quer a liberdade se for para multiplicá-la. Liberdade de oprimir? Fazer leis? Impor limites? Liberdade para escolher quem vai te governar? Não, definitivamente não, mil vezes não. Liberdade e voto não combinam.


Dicionário poético, por Vinícius Lopes:

e-LEI-ção

Vote.
Maiúscula, potente, vigente
cartilha, números, números
enquete pra que te inquieta
escolha lá seu governante
e jamais pise no branco

Volte.
O espelho da
demo
cracia espia
olha redondo, vigia
junte todos para foto
é programa eleitor-all

Todos estão na mira
quem piscar saiu da linha
Não há grito, ser cidadão
é decidir com o dedo da mão?
Oxalá, meu irmão
ser cidadão é entender um pouco do não
compreender um pouco do sim
abusar também do talvez
cidadão não é freguês.

Não vote.
e veja teus direitos abduzidos
a luz, a pátria, as filhas
o filho que não foge, há luta!
Não há astro, pássaro, árvore ou
cor
corra
querem teu dedo no espelho
teu peito em chama
tua alma na lama.

Não volte.
Seja sincero,
eleitor verde-amarelo
há também azul, branco, preto
há também o nada,
as cores por inventar
e o que lhe é de direito.
Crie-se a cada quarteirão
invente a eles o que é enfim ser
cidadão.

Eu voto nulo,
mas não volto nulo.

Vote NULO VOTE NULO2 VOTE NULO3 VOTE NULO4 Voto nulo 6

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

22 comentários

    1. verdade, quando digo não votar eu quero dizer que o voto nulo não é contabilizado… mas a possibilidade de nem comparecer no dia da eleição também é bem tentador

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      1. (não sabia que os votos nulos não são contabilizados..)
        não vou comparecer no dia das eleições, pois não quero entrar no jogo, não quero que entendam que acredito que isso seja democracia, apesar dos votos nulos não serem contabilizados..

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  1. Vou votar pela primeira vez, até pouco tempo tinha em mente votar nulo, mas mudei de opinião. Acho importante o voto nulo, porém tendo em vista o cenário político atual optei por não votar nulo…

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  2. Sou anarquista e compartilho de suas afirmações. Gostei de como abordou o tema: mostrando a política do dia a dia e a falsa liberdade da democracia burguesa. Também votarei nulo, exceto para um cargo, o de presidente. Votarei no Mauro Iasi como protesto. De qualquer forma, tudo o que ele escreve e fala merece nossa atenção. Ele é realmente bom. Mas repito: a política acontece no dia a dia e meu voto é apenas um protesto.

    Acho que você foi simplista em alguns pontos, como “se eu quero trocar mercadorias com fulano, eu troco, se você não quer, não troque. Se eu quero trabalhar com Sicrano eu trabalho, se você não quer, não trabalhe” e na micro-política. A liberdade de escolher o trabalho é inexistente em nosso contexto político-econômico. E talvez seja preciso pensar no macro para resolver alguns problemas sociais.

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  3. Não sei ao certo se concordo com as belas palavras e os ideais ou discordo da gritante utopia e distância da realidade.

    Quando você diz que sua política é diária, o que isso significa em termos práticos?

    Quando você pergunta por que pedimos por mediações, como sugere que respeitem as suas preferências e individualidades?

    São questões óbvias e rasas mas que infelizmente me sinto obrigado fazer diante do utopismo desenfreado. Adoraria viver neste mundo que você sugere, mas infelizmente ele existe tanto quanto o mundo de corujas carteiras e carros voadores. O idealismo e a subjetividade cabem aos textos que analisam as pessoas. Mas o conjunto de pessoas, a sociedade, está no mundo da objetividade, e este é feito de ações, não de ideais.

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      1. A utopia nada mais é do que a expressão da não aceitação do mundo que se impõe. A mudança se faz pautada pelas regras que cá estão pois estas regras são estipuladas não pela vontade de quem está no poder, mas pelas características naturais do ser humano e da sociedade que ele criou.

        O belo idealismo fundamentado em argumentos rasos e irreais me leva a crer que no fundo, essa é apenas a voz de uma criança que não entende ou concorda com as regras do jogo e então decide não jogá-lo. A diferença é que não há como fugir desse jogo. Ele irá atrás de você aonde quer que você se esconda…

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        1. quiça com a implementação do voto facultativo as coisas mudariam.. é uma reflexão pertinente.. de início, um baque, poucos votos.. depois, esforço dos políticos para cativar o povo e a partir daí uma evolução na direção de melhorias desse sistema..

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          1. É de fato uma reflexão pertinente. No entanto, não acredito que o desenrolar seria este que você sugere. O esforço político, ao menos no curto-médio prazo onde claramente não haveria qualquer envolvimento social relevante de fiscalização, se concentraria em “comprar” estes poucos votos com promessas, favores, corrupção, lobby e populismo, a exemplo do que ocorre em muitos lugares na Europa, em que o populismo exacerbado levou a uma crise econômica-trabalhista.

            Gosto da ideia do voto obrigatório pois minimamente garante alguma participação popular direta. Nem que para anular o voto, “forçar” o sujeito a ficar parado por 40 segundos na frente de uma urna ja o força a pelo menos refletir superficialmente sobre o que ele está fazendo naquele momento.

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    1. Diego: O mundo da objetividade e das ações um dia não foi mais do que ideias. O liberalismo que vivemos hoje foi sonhado e idealizado por muitos antes de entrar em vigência. O mesmo vale para o abolicionismo, a liberdade individual, os direitos humanos, a economia como eixo condutor e “autorregulador” da sociedade e etc. É claro que estas coisas não são exatamente da maneira como projetaram, mas hoje elas estão aí de alguma forma, viraram “realidade”, se você quiser designar por essa palavra só as coisas que existem materialmente. Então talvez devesse ter menos certeza quanto a defesa deste “realismo” pobre que você se apega tanto, porque o que hoje é, para você, utopia, amanhã poderá ter um “lugar” (topos).

      Outra sugestão é para você ler um pouco mais sobre o conceito de política. Recomendo que vá nos filósofos antigos, como Aristóteles, para aprender que desde muito tempo a política não é entendida como aquilo que apenas os representantes do povo tomam conta. E leia também autores contemporâneos: Foucault, Agamben, Rancière, Negri. E vai perceber que a política no sentido institucional é apenas uma extensão que se apoia em redes ao rés-do-chão, que são construídas e desconstruídas “diariamente”. Política não é só ir lá na urna depositar seu voto como quem aposta numa corrida de cavalos.

      Abraço

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      1. Mais uma vez, belas palavras, pouca prática. O liberalismo que vivemos hoje foi um processo evolutivo natural. Não foi idealizado por alguém que chegou e implementou uma reforma econômica que passou a ser adotada do dia pra noite. Ele foi idealizado de diversas formas e foi adotado na prática através de pequenas ações ao longo dos anos que visavam adaptar a realidade das pessoas a um novo contexto social, atendendo interesses e grupos sociais de liderança em cada contexto histórico.

        Não vejo as grandes transformações sociais como projetos impostos. Vejo-as como um conjunto de ideias que aos poucos foram naturalmente selecionadas. Uma espécie de Darwinismo intelectual. Concordo que elas, de alguma forma, passaram de livros para o dia-a-dia. Mas discordo que um dia elas tenham sido utópicas.

        Ser utópica é ser impraticável por definição. São impraticáveis porque a formação da análise racional, é baseada em axiomas. Se este axioma não é válido, toda sua análise se esfarela, a exemplo da anarquia e do socialismo que perduraram apenas no mundo das ideais de quem não consegue se desprender de sua beleza utópica, fundamentada em alicerces de areia.

        Hoje co-existem diversas formas de organização social que serão, com o tempo, fadadas a reformas ou à extinção, mas que dificilmente se configurarão no formato de ideais pautados em utopias, uma vez que os axiomas que formam essas ideias são irracionais.

        Política e economia são formados historicamente pela união de interesses comuns. Negar seu voto é apenas abster sua influência destes interesses.

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        1. Não concordo nem um pouco com a sua ideia de Darwinismo intelectual, Diego. Entendi o seu ponto que o contexto da época influencia as ideias dos homens e das mulheres, mas a nossa realidade não é produto de um acaso, de uma seleção natural. O mundo como ele é foi planejado. Totalmente planejado. O liberalismo foi uma antítese ao absolutismo. Os seus teóricos claramente dão modelos de nova sociedade, de novos tipos de organização, de uma novo modelo econômico. O nascimento da economia política, a divisão do trabalho de Adam Smith, a metafísica do poder dos contratualistas, a escola como ela é, o que é ensinado aos alunos. Tudo isso é planejado! É claro, há uma deturpação aqui ou ali, as ideias são adaptadas, mas o mundo é organizado por alguém! O grande problema do liberalismo é que o Novo se tornou Velho, e o Velho cria raízes, uma vez no poder se cristaliza, se solidifica! E o sólido, a imobilidade, não permite a fluidez humana, não permite a originalidade! A visão do jogo político como uma simples seleção natural de ideias é totalmente apassivante, pois torna os homens e as mulheres meros produtos de seu tempo, receptores, reprodutores, incapazes de criar! Essa visão de mundo coloca como agente criador da realidade algo que não existe materialmente, uma metafísica! O ser humano, para se superar, precisa ser criador! Precisa ser ativo! Precisa afirmar-se no mundo! Não simplesmente apegar-se a uma única teoria e conformar-se com ela! Precisamos ir para além da política-representativa-apassivadora!

          E sobre a experiência anarquista, leia mais sobre a Comuna de Paris, e também recomendo ler Sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres.
          Abraço!

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  4. “Nem sempre o ato de votar pelo que é certo implica fazer algo pelo que é certo. Implica tão-somente uma maneira de expressar publicamente meu fraco desejo de que o certo venha a prevalecer.” Thoreau

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  5. Finalmente descobri a posição política de vocês! Hahaha, sempre desconfiei pelos autores abordados (Nietzsche, Deleuze, Espinosa, Foucault), mas não imaginava que vocês eram anarquistas. Agora gosto mais ainda dessa página! É isso aí, gente! O voto nulo é um boicote, uma reação a uma ação do mundo. Precisamos, então, nos organizar! Agir ativamente! Criar modos de lutar contra esse mundo que subordina nossa originalidade à unidade! Afirmemo-nos!

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  6. Enquanto vota-se nulo e pratica-se o ato anarquista, o fascismo vai tomando força justamente por sobressair dessa negação política por abusar de mecanismos sujos, não sei, sinto que o voto nulo é apenas uma satisfação pessoal… Que se vayan todos?!

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