A Juventude de Baco - Bouguereau
A Juventude de Baco – Bouguereau

– por Rodrigo Vaz

Para os gregos, nenhuma substância era má ou boa em si, pois o perigo não estaria na droga, mas na maneira de usá-la. Foi assim que se cunhou o termo pharmákon, para algo que, ao mesmo tempo, seria remédio e veneno.

Jacques Derrida definirá um pharmákon como algo que faz sair dos rumos, das leis gerais, naturais ou habituais, fez Sócrates sair do seu lugar habitual e de seus caminhos costumeiros. O phármakon é o descaminho e mesmo quando são drogas utilizadas para fins exclusivamente terapêuticos, manejadas com boas intenções e eficazes, não podem jamais ser simplesmente benéficas.

Não existe remédio inofensivo, já que a essência ou a virtude benéfica de um phármakon não o impede de ser doloroso. No limite, um phármakon pode ser benéfico enquanto cura, e, por isso, cercado de cuidados, e ao mesmo tempo encarnar as potências do mal, tendo que também seu uso ser cercado de precauções. Angustiante e apaziguador, sagrado e maldito; habitando essa fronteira e essa crise, apresenta e abriga a morte, mas também pode ser perfume, uma certa festa e um certo jogo.

Pensando esse campo da problematização das drogas e as relações entre intensificação, experimentação e desejo, Deleuze dirá que não se sabe o que fazer com as drogas, e mesmo com os drogados, mas também não saberíamos falar melhor delas, pois ora invocaríamos prazeres muito difíceis de escrever, ora causalidades muito gerais, extrínsecas. Este autor nos propõem pensarmos em um conjunto-droga, onde:

As drogas dizem respeito às velocidades, às modificações das velocidades, aos limiares de percepção, às formas e aos movimentos, às micropercepções, à percepção tornando-se molecular” – Deleuze

Em um plano-droga como prefere chamar Deleuze, os drogados fabricam suas próprias linhas de fuga ativas, mas essas linhas se enrolam, se põem a girar nos buracos negros. E seria em cada buraco negro que o drogado pode correr o risco de estabelecer uma relação de dependência abjeta, dependência em relação ao produto. Assim, caberia distinguir as experimentações vitais dos empreendimentos mortíferos.

Uma experimentação vital é aquela que instaura cada vez mais conexões, se apodera, se agarra ao experimentador e abre-o a mais conexões e podendo até comportar elementos de autodestruição sem necessariamente ser uma linha suicidária. Uma linha ou um empreendimento suicidário só se traçaria quando o fluxo destruidor se rebate sobre si mesmo: “minha” dose, “minha” vez, “meu” copo. Sendo a droga pela droga, ela faria um suicídio tolo, ritmando-se por essa linha morna única e enfadonha.

Deleuze finaliza colocando que se há algum ponto no qual se deve intervir com alguma terapêutica seria neste onde se faz a transformação de uma experimentação vital (mesmo sendo autodestrutiva) em um empreendimento mortífero de dependência generalizada, unilateral. Deleuze louvava um certo aspecto de valor da “viagem”, o que era também posicionamento do movimento Antipsiquiátrico, pois seria um modo de evitar e conjurar a terrível produção de trapos de hospital, de uma criatura de hospital.

Podemos aqui também pensar que a fabricação de drogados é também política. A afinação de Deleuze com os anti-psiquiatras se dá pela resistência política e questionamento das práticas que marginalizavam esses estilos de vida. Era possível captar a potência da droga sem se produzir um farrapo drogado? Sendo toda experimentação um empreendimento, como ajudar alguém que tentou alguma coisa, mas falhou, desmoronou?

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

5 comentários

  1. Um homem livre tenta fazer o que nao lhe prejudica. Como dizia Espinosa, “se esforça por conservar seu proprio ser. Portanto, se alguem ingere drogas ele esta sendo coagido por um impulso interno mais forte que seu direcionamento racional.
    (meu teclado nao ta pegando acentos)

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    1. mas isso não significa que as drogas sempre prejudiquem, ou significa? conservar o ser, mas também aumentar a capacidade de afetar e ser afetado…

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  2. bom… acho q pra quem leu o texto tá claro, não?

    Não existe remédio inofensivo, já que a essência ou a virtude benéfica de um phármakon não o impede de ser doloroso. No limite, um phármakon pode ser benéfico enquanto cura, e, por isso, cercado de cuidados, e ao mesmo tempo encarnar as potências do mal, tendo que também seu uso ser cercado de precauções. Angustiante e apaziguador, sagrado e maldito; habitando essa fronteira e essa crise, apresenta e abriga a morte, mas também pode ser perfume, uma certa festa e um certo jogo.

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