ativistas em hong kong

Todos os dias, acordamos atrasados, sentimos que fracassamos mais uma vez. O relógio soa: “o tempo passou”. Aquilo que era seu, não te pertence mais, aquilo que era você, não te reconhece mais. Mas resistimos e dizemos, “temos conosco o ontem e o amanhã”; e enredando os dois, o presente. Se nosso passado é finito, ao menos o futuro é infinito. Sim, temos ainda todo o tempo do mundo.

Todos os dias, antes de dormir, fazemos tábula rasa do que foi, e do que será. O esquecimento é nossa benção. Deixar para trás é a condição de seguir em frente, não temos tempo a perder. O esforço é pela vida, nosso caminho é regado com nosso suor, não com sangue. Enquanto o riso valer mais que lágrimas, estaremos em pé.

Nos acusam de selvagens. Quem sabe se realmente o somos? Nos chamam de primitivos, quem o saberá? Primatas, indecentes, cruéis, inadequados. Isso com certeza o somos. Mas quem provará qual é a razão adequada? Podem nos chamar de brutos, violentos, desonestos, mas não de insensíveis. Fizemos das mentiras a maior prova de nossas verdades.

A cidade brilha em preto e branco com um sol cinza. A tempestade não vem, a água falta. Mas nos olhos cansados, os mares estão agitados. A boca seca quer gritar. Queremos fugir para longe, bem longe. Temos saudades do abraço apertado que nunca foi dado, nem na nossa infância, nem pela pessoa amada. O passado está morto, e nós o matamos; Deus está morto, mas ainda o cultuamos. Se calhar, até a vida está morta, mas não para nós, não, nós nunca cruzaremos esta linha. Não morreremos em vida nem viveremos da morte. Seremos a marca do agora, a força do presente, o grito da revolta. Temos nosso próprio tempo. Ele urge.

Não temos mais medo do escuro. Ora, que tolice, aprendemos a andar pela sombra nos tornando chama ardente e constante. A luz, o som, o cheiro, o sabor e o toque nos atravessam. O que foi escondido de nós foi o que se escondeu com medo da vida. O que nos foi prometido não passava de sussuros de fantasmas que não prometiam mais que ilusões. Mas mesmo assim, não foi tempo perdido…

Ainda vivemos a juventude da história, a mocidade da independência, a meninice da liberdade. Somos tão jovens, e ainda há tanto para se fazer. Somos tão jovens, e ainda precisamos de tantas palavras de coragem. Somos tão jovens, tão jovens…

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

7 comentários

  1. Magnífico. Acho que esse é o adjetivo que melhor posso expressar o que senti ao ler o texto. Sem sombra de dúvida é para mim o seu texto mais maduro. Nunca vi um rafael tão pleno na escrita, tão condizente com a razão, a poesia, a revolta e a emoção. É um prazer ver seu crescimento como pensador e como pessoa, e uma honra fazer parte deles em vários (ou alguns) momentos. Cada vez mais adequada a uma inadequação – sem teor pejorativo em nenhuma das palavras. A sutil força de descrever a delicadeza da tragédia, e o suspiro enérgico em aclamar a nebulosa esperança. Renato Russo com certeza se emocionaria com tamanha poesia lúcida aqui escrita. Eu pelo menos, me emocionei…

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