hopper likeDez da noite, estava cansado, mas o percurso seria longo, então tratei de correr ao ouvir o sinal do trem, não me lembro de ter esbarrado em ninguém no caminho. Chegando lá, tive a sorte de me sentar, senti meu corpo todo relaxando de imediato, “estou cansado”, lembrei mais uma vez.

Alguns pensam melhor de pé, outros pensam melhor sentado, eu faço parte do primeiro grupo de pessoas, mas o pensamento está diretamente relacionado com o corpo e naquele momento me veio à mente uma frase de diógenes. O sinopense sai às ruas com uma lanterna na mão procurando um homem. Esta anedota me fez levantar a cabeça até então baixa e me perguntar: “Há algum homem aqui neste trem?”

A sensação me perseguia! “EEeeii! Há algum homem aqui?!“, fiquei com vontade de gritar. Primeira baldeação e a pergunta baldeou comigo: “Existem seres humanos neste trem? Onde eles estão?“. As pernas de um homem, tal como descreveu Machado de Assis, o levavam pra casa, a tela de um Iphone evitava que o outro dormisse, a mãe segurava maquinalmente a mão de seu filho, o casal se abraçava sem amor…

Estava angustiado. E se Diógenes de Sínope tivesse errado em sua pergunta? E se aquilo fosse o homem? Sua fragmentação viva, mas quebrada, funcionando sempre pela metade. A definição de homem: “alguém separado do que pode”. Enfim, o homem está esgotado, exausto.

Cheguei ao meu destino. Lembrei-me do morador de rua que fica perto da estação que costumo descer. Sempre que passo, observo o que ele está fazendo, acompanhado sempre por seus dois fiéis cães. Quando subi as escadas dei de cara com o mendigo sentado comendo um churrasquinho. Os cachorros o olhavam fixo e bastava um pequeno pedaço de carne jogado no chão para que abanassem o rabo de alegria. E ele, de todas as pessoas, era naquele momento a que me parecia a mais feliz.

Diógenes era conhecido pela alcunha de “cão”. Onde estava o homem? Não sei… mas já não queria saber.

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

3 comentários

  1. E uma jornada sempre as cegas confiar e remeter aos próprios dizeres cometidos. Por isso fomos, e nunca somos. Ainda é fácil simular o descredito das pulsões que sobram e assombram o nosso amanhã, e talvez aquele sonho de fim de tarde, talvez devêssemos estabelecer aquele elo de que todos falam nos jornais e tribunas.
    Esse elo de igualitarismo, esse sentimento reciproco de querer e movimentar aquilo que sentimos em acordo e desacordo com o outro, e ainda assim, querer sentar frente a frente e sentir o hálito da manhã, bucólico, santo e ingênuo.
    Sabe as querelas que passam em nosso saber, não pertencem nem mesmo ao nosso agora, talvez seja surpresas escondidas em algo maldito que aparecem e gritam sem saber, e que após a escrita que sempre parte em rarefação, como Blanchot dizia, nos aprisiona querendo justificar esse momento.
    Parece confuso? Sim é para parecer, o sentido só se constitui no depois, no pertencimento, no representável. Sentido que descobre e quer ser descoberto, cobrar e ser cobrado, sair e ser nomeado, para que? Simplesmente para existir, esse é o dilema.
    Diferença, capacidade inominável, e destacada, que crava cada movimento rápido e sem dilema, diferença, que não nomeia, mas diz isso sim é ser.
    Confuso, sim é para continuar sendo, pois continua aqui tateando a escrita, sempre a caneta, articulando, exercitando formas e criando dilemas, sim continuo, em prol da exaustão, do acaso, do fico e não remeto.
    Diz sempre pouco, mas o necessário para marcar cada ferimento, sim isso é sempre aquilo que vem de baixo, e não sucumbe a ternuras.

    Curtir

  2. Fico lendo as postagens antigas e vejo que cada uma vale muito a pena.
    Que belo texto, me fez parar e refletir sobre diversas situações, inclusive situações idênticas à ocorrida no texto.
    Muito profundo.

    Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s