Há uma certa estética que atravessa nossa existência. A maneira como nos portamos e trocamos afetos no mundo é particularmente devida a forma (leia-se também conteúdo) que despojamos nossos corpos em cada encontro. Essa estética é fruto de uma construção ininterrupta de nós, que ocorre sempre que nos dispomos a reabitar aqui com formas e conteúdos diversos. Quando nossos poros permitem ser modificados por qualquer intervenção externa ou interna e nos apresentamos de uma forma diferente no mundo, recebemos o mundo por assim, diferentemente. Essa maneira estética de estar, é portanto uma maneira política de estar. Somos seres políticos por habitar uma sociedade, e somos seres estéticos por habitarmos um corpo. Um corpo em sociedade é propriamente, uma metamorfose estética política.

Quando partilhamos nossa estética, nesse inter-jogo de formas e conteúdos intersetoriais, estamos partilhando aquilo que Jacques Rancière denominou de sensível. Seres sensíveis e políticos driblando formas e conteúdos que por vezes são emplacados em nossas redes ainda que nos cobrem ingresso.

Mas este papo está muito futebolesco, não? Então… é Fla-Flu!

Imagem da Internet – 07.04.2015

O país do futebol está num turbilhão político. Não há como precisar em que momento esta turbina começou a ventilar, mas me parece, por ora, que ainda há muitos ventos leves e tenebrosos por asfixiar uns e levitar outros. O que se apresenta – e este texto pretende discutir – é que há uma estética futebolesca habitando nossa estética de politicagem (uso o termo politicagem para me referir ao processo eleitoral brasileiro e suas consequências na sociedade; se isto é política ou não, outro dia conversamos…).

Num país em que o futebol nacional (sem contar o que é jogado lá fora) é consumido pelo menos duas vezes por semana, é inegável que a estética desta competição esteja em nosso paladar. Os que são mais gulosos, conseguem consumir nosso futebol quase diariamente, visto as reprises e programas dedicados a discutir os jogos e campeonatos.

Logo, pensemos no futebol. Dois times; vinte e dois jogadores, sendo onze para cada lado; três juízes; uma bola – que cumpre perfeitamente seu papel estético e político; um campeonato, logo um campeão; duas torcidas, organizadas ou desorganizadas (?); publicidades, patrocínios, competição, competição, competição… E aos poucos aquilo se torna uma paixão. A paixão da massa, que quando se constitui enquanto tal abandona seus pequenos rostos para encontrar um único e excelentíssimo rosto. Então… É Fla-Flu! Os jogadores continuam ali, atrás da bola. Os juízes apitando, mostrando cartões e procurando infrações. A bola, bem… saiba que ainda estão rolando os dados. As torcidas: completamente apaixonadas; cantando seus hinos; dizendo suas frases famosas e de efeito; com bandeiras, faixas, certezas e mais certezas; querendo vitória, não admitindo derrotas; e quando necessário, brigando; com toda a agressividade que lhe cabe no peito, pelo seu rosto único, sua paixão. Claro, duas torcidas opostas.

Agora, convido o leitor a um exercício. Como um pintor, trocar o cenário do futebol pelo da política.

Feito? A estética nos parece semelhante, por vezes, não?! Pois sim. Talvez existe futebol demais nos habitando. Não culpabilizando o precioso esporte que nos caracteriza por vezes enquanto brasileiro. Há em outras esferas uma estética tão parecida quanto essa. Nossas telenovelas, são, por vezes, no mesmo “estilo futebolesco”. Nossos jornais e telejornais igualmente. Sem contar nos filmes que consumimos, sempre num conceito de vilão e herói, certo e errado, bom e mau, escolha seu lado ame-o e tchau.

O que me preocupa é como nossa estética é constituída e quem fundamentalmente a constitui. Faz parte do ser político se atentar a isto. Faz parte do ser político compreender que perder um jogo por sete a zero e sentir-se humilhado, e depois perder uma eleição por um milhão de votos de diferença e querer que tudo mude, são a mesma coisa. Por mais dissemelhante que isso nos pareça. Faz parte do ser político compreender que nos colocamos de forma estéticas diferenciadas no mundo e esta é a real potência de uma democracia: a diversidade estética sendo aceita de maneira igual. Faz parte do ser político não querer um governo. Faz parte do ser político querer um governo. Mas muito antes disso, o ser político está fazendo parte da massa e os cidadãos não compreendem sua estética e então sua estética política. Seja pra qual time você torça, pode reproduzir discursos, levantar bandeiras, dividir agressividade… Tudo isso numa forma estabelecida e muito cara para nós. Uma forma oca, forma vazia conteúdo vazio. Quem se ocupa de sua própria estética? Eis a eleição!

Grupo Corpo no Espetáculo “Onqotô” – Imagem retirada da Internet em 07.04.2015

E enquanto estivermos opostos esteticamente, seremos democráticos. Enquanto estivermos em times opostos, seremos competidores. E enquanto competimos, o juiz apita surdo, a bola fica gorda, os jogadores cantam felizes… e nós ficamos na plateia. Para um time o pão, para o outro, o circo. Então… É Fla-Flu!

Somos mais que isso. Aqui em casa, por exemplo, o juiz é daltônico e o placar é disléxico. Os jogadores são de idades e biotipos diferentes e um jogo bom é quando damos risadas e vemos boas jogadas. Por vezes um de nós vai ao jogo e assiste. Por vezes um entra no campo e decide jogar. Por vezes jogam milhares, por vezes apenas um. O futebol é nos domingos, o vôlei no sábado e de quinta tem literatura brasileira. As vezes nem futebol tem. Então… É Fla-Flu! Faça-se a luz!!!

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

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