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por Agnes-Cecile

– por Fábio Klinke

O eco do oco que dá na alma da gente moderna clama pelo preenchimento do  vazio em todos os momentos.  Esse oco que insistia em ressoar na minha consciência e que me impelia a nutrir a mente com mais e mais sensações de vazio. Nutrir com o vazio, sim, pois fui treinado para me esvaziar de tudo, nutrindo-me.  Isso ironicamente no mesmo sentido em que a minha época é de mensurações  sem fim, em que tudo é contado, o tempo, o dinheiro, as experiências, as pessoas: quantas horas eu tenho pra estudar para a próxima prova; quantos dias faltam para entregar o próximo trabalho; hoje eu dou só 5 aulas; amanhã, 6; nesse mês eu beijei 3 pessoas e me restam 5 amigos, com os quais eu pretendo passar umas 5 horas no sábado, antes de voltar pra casa ‒ talvez dois apareçam, talvez um. Talvez nenhum, porque, afinal, todos estamos fazendo muitas matérias, 6 ou 7, trabalhamos muitas horas e precisamos garantir o fim do semestre ‒ daqui a 1 mês e 12 dias. Quem sabe depois eu não tenha 20 dias de férias, 20 dias contados.  Tudo cinza, tudo sem cor.

Eu tinha um tempo vazio, cheio de horas, cheio de contagem, um tempo que era contagem o tempo todo. E na medida em que mais eu contava tudo, somava tudo, mais eu não conseguia qualificar nada direito, porque tudo se perde em tempo contado. Mas isso sou eu, um pouco vítima do nosso tempo, muito vítima de mim mesmo, porque há um tempo que eu percebi que não queria contar só o tempo mais, que me resignei a lutar contra sua sucessão sem fim. Quis parar o tempo e, então, eu me empenhei em construir pra minha vida um colorido estático, arrumar um sentido perene, espacializar um pouco algumas coisas de forma vertical. Foi aí que tentei fazer uma parede íngreme que pudesse conter a passagem do tempo, aceitei o conselho mais clichê e eficaz para tanto: amei alguém.

Percebi que nesse instante o tempo não parava, mas que acontecia uma coisa nova, o eixo-parede traçado de forma perpendicular no interior do fluxo temporal, o amor, não podendo conter a passagem do tempo, se arrastava horizontalmente de  modo irregular, dançando e desenhando contornos em sua passagem, era a sincronia dentro da diacronia: a música. Não pude parar o tempo, mas pude pintar sua passagem com um ponto fixo que ia junto de mim na vida. E milagrosamente essa linha-eixo-perpendicular passou a fazer uns mil desenhos coloridos… cheios de tintas bonitas e cheirosas, calores frescos  que soavam cálidos, suavam quentes  e dormiam juntos, tinha muito do amarelo castanho, do roxo meio lilás, do vermelho um pouquinho encardido, do verde quadriculado em flanela e da nota si(m).

Assim eu tentei parar o tempo, e assim foi que não consegui, porque de pouco em pouco a tinta foi perdendo o viço, a parede foi se esfacelando frente o atrito entre a fixidez e o fluxo temporal ininterrupto, a vida foi perdendo a cor,  a linha passou a ser substituída por pontos cada vez mais intermitentes, de ponto em ponto a harmonia passou à dissonância, e foi daí, então, que alguém não me amou mais.

Depois do fim, dessa minha tentativa de fixidez temporal, alguém poderia sugerir a ideia positiva, agora, de que eu fizera o tempo parar de certo modo, que agora eu teria uma imagem sólida daquele colorido ‒ estática ‒ um retrato bonito e emoldurado do tempo que passou. Mas eu diria que não dá pra se regozijar com as horas cinzas de contemplação de um quadro morto quando já se foi tela, tinta e música.

Escrevi esse texto em 03 horas e 06 minutos, e o eco do oco que dá na alma da gente nunca foi tão alto.

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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