é das cores que nasce a profundidade. não das cores, mas das coisas. a profundidade das coisas, bem sabe um daltônico, é por demais claras quando não escuras. é um profundo enganar-se de estar certo do que vê. as cores vibram não na retina dos olhos, mas ao fundo dos quadros que estes mesmos pintam. por isso um daltônico jamais confunde a profundidade das cores, pois elas o tocam e o transformam demais. um daltônico confunde a profundidade das coisas, por elas se mesclarem demais, confundirem-se, embaraçarem-se e repetirem-se.

eis a linha do horizonte que divide o nada e o infinito. quão profundo ela é aos olhos de quem a vê? o olho fotografa aquilo que está mais distante do

aqui

Claude Monet

mas o horizonte, ao saber que está sendo fotografado por um olho, posa para a foto. neste instante em que olho e olhado se encontram surgem cores numa paleta que o olho humano não distingue muito bem. teimosos, tentamos definir a paleta do pintor. mas não é habilidade do pintor misturar as cores e ver as que estão por vir? se um daltônico possui uma paleta tal qual a do pintor e deve mesclar as cores, ele por certo não mesclará. para ele, elas estavam já antes mescladas. o que nos leva a crer que o daltonismo não é confundir as cores, mas desconfundí-las. se para saramago, o caos é uma ordem por decifrar, para os daltônicos a ordem é um caos decifrado.

e quando se vê a coisa – e não mais a cor – ela se coloca no fundo de forma diferente. pois sua luz reflete nos cones de forma singular, o que permite que o tal quadro a ser pintado no fundo do olho seja tanto opaco quanto brilhoso, desforme, constantemente criativo. os objetos são para o daltônico sempre formas surpresas a ele. é talvez portanto a dificuldade de entender sua relação com o próximo. as distâncias, das mais próximas às mais distantes são, para eles, completamente turvas. não sabe que por vezes estando próximo quer dizer tão distante. e que distante também é colado. é que as cores pulsam em ritmos diferentes e portanto seu corpo responde a elas da maneira que lhe cabe.

Yves Klein

por quanto tempo se é daltônico, está a perguntar o leitor, ou se há de deixar de o sê-lo um dia, continua em sua pergunta. não sabemos. a ciência há de tratar de encontrar uns óculos ou lentes que permitam ao daltônico a distinguir as cores. mas para quê, pergunta o escritor. seria possível que a correção genética dos cones, sobre o braço da ciência, corrigisse a percepção sensível e filosófica do olhar daltônico? não queremos saber. aceitar o daltonismo como predisposição genética é pouco, há de aceitar a condição estética que isso propõe. assumir a vibração e reverberação das cores num devir de paletas do pintor: eis o daltonismo.

Yves Klein

e como pode o daltônico ao ver um livro rosa dizê-lo vermelho, ao ver o mar azul dizê-lo verde, ao ver o pássaro voando dizê-lo a chorar?

como pode o daltônico a navegar o mar?

é que quando se vê a coisa e sua cor, em combinação estética, o daltônico se coloca ali como ser pleno de afetos e daí transborda. o que o coloca em estado de perturbação, afinal, as coisas jamais serão como aparentam ser.

estás a perceber, diria o português, a perceber estou, só não sei o quê.

Escrito por Vinicius Lopes

Uma mentira ambulante.

2 comentários

  1. Descobri q era daltônico ainda na infância, quando não conseguia definir certas cores dos lápis na hora de colorir meus desenhos. porem a deficiência criou em um problema ainda maior, quando assumi como profissão a atividade de pintor de automóveis. Não pela identificação das cores, q são por códigos, mas por ter a capacidade de observar diferenças de tonalidades com uma facilidade surpreendente. Esta percepção simplesmente é uma verdadeira tortura (q atualmente estou conseguindo administrar), onde nenhum retoque em pinturas automotivas passa desapercebido, inclusive os q eu realizo.

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