Meus dedos coçam, eu quero escrever, qualquer merda, qualquer coisa. Apenas tijolos de letras colocados lado a lado, linha por linha, página por página. Minha razão está de joelhos, todo meu ser está formigando de ansiedade. Ouço o som do teclado que segue para além da minha consciência, um mapa de letras, um relevo de intensidades gramaticais. Quero escrever por raiva, medo, solidão, necessidade, expressão. Faz frio lá fora, se fizesse sol talvez fosse diferente. É sempre melhor escrever ao sol.

Me excedo, quero um grito mudo, um grito escrito: a vida não pode ser a soma das nossas tristezas! Uma semente brota furando a terra, cresce por teimosia. Mover-se é desafiar o atrito. Quero escrever para viver, quero encontrar um sentido na escrita que possa me levar para fora dela. Jamais daria a vida pela literatura, ser escritor é uma maneira de viver.

Tomo caminhos desertos só para não cruzar com certos pensamentos. Palavra por palavra eu me desmonto, me vomito, encontro trilhas, me descubro, sou como uma malha de lã se desfazendo no fio de raciocínio deste texto escrito às pressas. Pule uma linha e não estou mais aqui, estou voando na velocidade da luz, sem me encontrar. Estou onde passo zunindo. Deus, onde está você? Minha partículas reclamam seu título! Uma flecha atravessa o ar, um lápis bem apontado fura a folha, um livro bem escrito torna-se uma arma. São apenas fluxos, elétricos, sonoros, luminosos.

Mas há tantas vozes neste mundo de silício! A minha não seria apenas mais uma? São juízes e carrascos julgando e executando via wi-fi. Quem sou eu no meio disso tudo? A soma das letras embaralhadas neste monitor vale tanto quanto a de qualquer outro? Não quero perder-me no emaranhado de blogs e websites. Em quantas vozes não me perdi por ficar em silêncio? Sou um sintoma, sou um grito que não sabe em que ouvidos chegará.

Mergulhado na fumaça da cidade, tusso este texto. Um tédio que se irradia por quilômetros, uma torre de monotonia me hipnotiza. Seguimos uníssonos, sofremos todos por excesso de metafísica. O gado se arrasta pelas galerias de vitrines iluminadas, mugindo marcas. A felicidade é perigosa. Sinto-me sempre na iminência de enlouquecer, estou constantemente encarando o abismo. O silêncio das palavras que ainda não inventaram me coage a escrever e viver como um estrangeiro. Sou um mendigo, gasto uma energia desnecessária e exagerada para manter meus órgãos juntos, funcionando como uma filarmônica. Se caio, me levanto rápido para ninguém ver, e isso me irrita, por que não posso permanecer no chão? Todos não pertencem ao chão?

É claro que o mundo existe, mas ele é neutro quanto a esta constatação. Eu não! Quero escrever algo, qualquer merda, qualquer coisa que encaixe nas batidas descompassadas do meu andar atrasado. Sou fraco, mas não me rendi. Ainda não tomaram de mim minha sensibilidade, por isso escolho cuidadosamente quem cumprimento. Não quero redimir o mundo, não quero nem mesmo salvar a mim mesmo, só quero um canto, uma inspiração. E se o sol por acaso entrar em nossas celas, ora, deixem que ele entre então! E para que mais serviria a literatura senão para encontrar raios de sol em meio a uma espessa fuligem de rotina intoxicante?

chromatictypewriter-3@2x

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

9 comentários

  1. Na escrita há o encontro, não nas palavras, mas no entre espaçado de folha branca imaculada que as conecta, e isso é insustentavelmente leve para nós. É reterritorializar-se na necessidade de sentido que elas exprimem…

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  2. Irado! Percebi conceitos do blog diluídas nas palavras vomitadas de um amargor digno de, não sei… um pouco bukowski, um pouco do subsolo, john fante… escreva escreva escreva, lance livros! como bombas!

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  3. Mas por que você escreve?
    A: Eu não sou daqueles que pensam tendo na mão a pena molhada; tampouco daqueles que diante do tinteiro aberto se abandonam as suas paixões, sentados na cadeira e olhando fixamente para o papel. Eu me irrito ou me envergonho do ato de escrever; escrever é para mim uma necessidade imperiosa falar disso, mesmo por imagens, é algo que me desgosta.
    B: Mas por que você escreve então?
    A: Cá entre nós, meu caro, eu não descobri ainda outra maneira de me livrar de meus pensamentos.
    B: E por que você quer se livrar deles?
    A: Por que eu quero? E eu quero? Eu preciso. B: Basta! Basta!
    (NIETZSCHE, A GAIA CIÊNCIA: 119)

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