Se você dormiu bem, se você comeu bem“, provavelmente você está preparado. Foi nutrido? Foi amado? Foi encorajado? Faz frio lá fora… não digo que você vai conseguir, mas você bem que poderia tentar. Abra a janela só um pouco, uma fenda já é o bastante. Sabe… às vezes a gente fica com medo, mas vai com medo mesmo e acaba dando certo… a grama ainda está com aquela geada da noite passada, faz quantos graus lá fora? Muito frio, até mesmo os corações congelaram nesta noite que passou. Mas a temperatura baixa deixa o céu mais azul e convidativo, “com uma beleza que caçoa“, sabe?

Trecho 2.8 - exposição "Fendas da Cidade"
Trecho 2.8 – exposição “Fendas da Cidade”

Você está de pijama e pantufas, mal tomou o café da manhã e a vida já te chamou pelo alto falante: “Vai!“, ela disse. Acabou o tempo de se preparar, acabou, agora é hora de ir despreparado mesmo. Há uma voz que chama, não dá pra saber se ela vem de dentro ou de fora. As janelas se abrem, as paredes racham, tudo está desmoronando, mil brechas; nestes momentos, todas as saídas são de emergência. E o que dizem as vozes? “É a voz do seu amor que chama agora“. Uma puberdade do espírito, um metamorfose da inocência, um engrandecimento da alma, um salto cego, um estremecimento no peito, um grito para o desconhecido. Um desejo de ser mais que um…

Há sempre um medo, uma vontade de voltar, de dormir até mais tarde, de chorar escondido. Há… eu sei…. uma tentação de dizer não. Mas voltar não é um bom caminho, talvez nem seja mais uma opção. Voltar é um jeito torto de seguir adiante. A bolsa se rompeu, você nasceu. O que alguns chamam de castração pode ser chamado de vontade de viver. Sair do colo da mãe, sair do berço, sair do abraço apertado, sair de casa, sair pelos portões afora. Castração ou expansão? Há um pouco de morte superada em cada vida que se fortalece.

Trecho 2.8 - exposição "Fendas da Cidade"
Trecho 2.8 – exposição “Fendas da Cidade”

Existe, acima de tudo, uma vontade de amar… sim, de crescer para além de qualquer racionalidade. Uma vontade enorme de bons encontros, uma pele que quer encostar na outra. Duas superfícies que se tocam podem se tornar mais profundas que todos os abismos. Você quer andar a pé com uma mochila nas costas (e às vezes olhar para trás, para ver quem ainda está lá), abrir caminhos, encontrar fissuras, não com um marca passos, nem em espaços marcados.

A vida cresce mais com amor que com ódio. A vida vai mais longe com felicidade que com tristeza. E você vai porque ela chama, ela pede apenas um pouco mais de coragem, força, potência. É possível, encontramos tudo isso nos laços que fazemos, mas então é preciso sair de casa e ouvir o barulho lá fora. A vida tem muitas vozes, aos sussurros e gritos, ela vem… e ela passa (mas tudo que é eterno não tem tempo). É preciso fazer da vida um poema, nos misturar tão intimamente ao ponto de nos tornarmos apenas um. Esta é, enfim, a melhor maneira de ser vários.

As fotos pertencem ao Projeto Trecho 2.8 – criação e pesquisa em fotografia (http://www.trecho2ponto8.org)

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

8 comentários

  1. “Uma puberdade do espírito, um metamorfose da inocência, um engrandecimento da alma, um salto cego, um estremecimento no peito, um grito para o desconhecido. Um desejo de ser mais que um…” Meu desejo de todos os dias!

    Sobre o post… exímio!
    Obrigado!

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