– por Rafael Trindade e Rafael Lauro

Da janela do ônibus eu via as luzes se aproximando e se afastando rapidamente. Uma viagem de 6 horas nos dá bastante para pensar. Sentada alguns bancos à frente encontrava-se ela. Seu rosto intercalava brilho e sombra nas luzes passageiras da estrada. Despediu-se com um abraço apertado poucos instantes antes de sentar-se perto de mim. Quantos anos ela teria? Eu parecia um menino para o qual o tempo passara mais devagar. Não importava… naquela longa viagem, estávamos a sós do tempo.

Se eu inclinasse a cabeça conseguia ver parte de suas pernas, nuas, entrecobertas por uma saia, vibrantes ao som do fone de ouvido. O que ouviria? Jazz ou Samba? Noel Rosa ou Nina Simone? Não exclui Chopin, Liszt nem Brahms de minha lista. Eu olhava pela janela pensando nos anos que ela viveu antes de entrar naquele ônibus sem notar minha presença. Voltava a observá-la pensando quais as memórias que eu gostaria de compartilhar com ela. Dos anos passados, tínhamos uma vida em desencontro, todo um tempo em descompasso.

Naquele instante, senti falta do passado que não tive com ela. Talvez ela também sentisse falta de nunca ter me conhecido. Quis me tornar mais homem do que jamais havia sido até o momento. Quis viver vários anos em poucos minutos para poder sentar-me ao seu lado. Quis me tornar um ponto cardeal que levasse seu barco até meu cais.

Em minhas ideias, trocávamos carícias. Apoie-se em meu peito. Coloque minhas mãos entre suas mãos. Voe para longe, mas pouse cansada no ninho que montarei para nós dois. O ônibus seguia viagem, ela parecia dormir, as luzes eram cada vez menos ao longo do caminho. Estendiam-se em riscos paralelos à paisagem. Eu olhava para o desconhecido e o iluminava com meus desejos.

Do que ela teria medo? Talvez ela quisesse engravidar. Talvez fosse apenas eu que queria a honra de lhe dar um filho. Ela andava rápido demais para eu acompanhá-la, ela era viva demais, segura demais. Talvez se eu a amasse mais e com mais certeza, ela resolvesse entregar seu tempo em minhas mãos, permitisse a vida em paralelo, deitasse junto comigo no horizonte daquela viagem.

O ônibus estacionou no terminal, percebi que acabei dormindo. Estava sonhando? Onde ela estava? Só pode ter descido antes de mim. Andei meio perdido pela estação. Pessoas cruzavam-me por todos os lados. Atravessado, não a encontrei. Acho que naquela noite dormi por vários anos em andamento acelerado.

 

5 comentários

  1. Adorei o texto!! Lindo, profundo, e com poucas palavras, transmite muitas emoções! Muito bem escrito. Obrigada! Vou dar pra minha filha ler. : ) da janela vê-se a alma. (Pensei na musica… “Vê-se o Cristo Redentor… que lindo”)!

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  2. Acabei de descer do ônibus, ainda estou perdida andando pelo terminal, só sei que tinha alguém, alguém que eu não sei dizer, que me fez sonhar a viagem inteira.
    Acordei querendo que fosse real. Desatino!

    Obrigado pela viagem Rafael. Sublime!

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