A vida é uma farsa barulhenta. Nada tem que a justifique. Não é nada do que promete. Por isso mesmo é uma mentira adorável. Uma ficção pelo inverso do disfarce. Uma invenção. A ser falada. Ao vivo” – Herbert Daniel, Meu corpo daria um romance

Cena

Era um vestiário perto das quadras poliesportivas, usado mais pelos estudantes de Educação Física e em eventos esportivos que a universidade abrigava. Matheus e Paulo tomavam banho com frequência ali, sobretudo em tardes quentes como aquela, mas para Pedro era a primeira vez. Ele foi a convite de Paulo, seu amigo com quem passava o dia todo e todos os dias na universidade e saía aos finais de semana. Pedro era, como se diz, apaixonado por Paulo em segredo, daquela espécie de segredo sabido que perturbaria a ordem das coisas se deixasse de ser tratado como tal.

Paulo e Matheus entram seguidos de Pedro, encostam as mochilas, pegam seus sabonetes e coisas de banho e começam a se despir sem constrangimento. Simples sociabilidade de machos, para os dois. Pedro senta-se no banco perto da entrada dos chuveiros, dispostos num corredor depois de uma parede. Assim poderia participar da conversa, apesar de sempre falar pouco perto de Paulo, que só tira a cueca já debaixo do chuveiro. O chuveiro que Paulo usa é o único na linha de visão de Pedro, que toma um susto ao abaixar da cueca do seu amigo.

Paulo olha para Pedro, checando sua reação, mas Pedro não esboça nenhuma. Faz cara de blefe, ilegível; “poker face”. Enquanto Paulo estivesse de costas, era seguro olhar, mas sem encarar porque Paulo sentiria e isso poderia expor seu desejo. O primeiro juízo de Pedro, ao abaixar da cueca de Paulo, foi de que aquela bunda era mais verticalmente cumprida que o normal e tinha pelos entre as bandas que subiam até o comecinho das costas. Era diferente do modelo de perfeição que lhe era referência: um erro, uma variação, um desvio. O juízo subsequente foi de que era bonita, um juízo feito com a generosidade que Pedro sempre dirigia a tudo que concernia a Paulo.

Pedro não se exigiu essa generosidade com relação às costas largas de Paulo, nem suas coxas peludas. Tampouco quanto à frente, manjada quando Paulo se vira para molhar as costas. Malgrado todos os homens com que Pedro tivera relação sexual ou ao menos visto a região do pênis tivessem pelos, não se espantou com a ausência total deles em Paulo. Era como nos pornôs; em pelo sem pelo, pelado, mas não nu.

O ensaboar-se de Paulo era lascivo, quase sedutor. Em outras situações Pedro se faria entender interessado, corresponderia ao desejo dando vasão ao seu próprio desejo de uma transa suja ali e naquele momento. Mas Paulo não lhe era um estranho e Pedro experimentava uma situação para a qual não tinha roteiro: não sabia olhar como macho para o corpo de outro macho e tampouco sabia para onde olhar. Não havia nada ali interessante o suficiente para onde desviar o olhar de modo que seu fingido desinteresse pelo corpo de Paulo colasse. Desinstrumentalizado, Pedro ficara mais nu que Paulo.

Havia em curso uma ação do corpo de Paulo sobre o de Pedro, afetando a este de um certo desejo de contato. Ao mesmo tempo, a ideia de rejeição provocava medo de não ser suficientemente atraente para Paulo, que pelo próprio trabalho sobre seu corpo parecia aderir a padrões de beleza dos quais Pedro se via distante. Havia também um medo da revelação do seu segredo atrair uma violência insuportável, maior do que a violência que a própria situação já representava.

Conversa de machos em um banho entre machos. Pedro começa a assoviar numa tentativa sem jeito de aliviar a tensão, de escapar das intensidades que o chegavam. Assovia uma melodia qualquer numa tentativa desesperada de parecer natural e indiferente àquela situação. Logo em seguida é invadido por um sentimento de precariedade, de ridículo – “olha o que eu estou fazendo”, pensa – e, por conseguinte, é invadido também por uma enorme tristeza.

A tristeza, Pedro não consegue dissimular. Ainda sentado, apoia a cabeça na parede, pois já é muito esforço sustentá-la sozinho; pesa suas pálpebras e se põe a olhar “para o nada” na parede. Enfim algum afeto encontrou expressão e passou pra fora de seu infinito particular.

Linhas

As coisas acontecem como podem. Os corpos acontecem como podem, segundo os afetos, paixões a que estão expostos[1]. Neste conjunto concreto – e fictício – a que nossa personagem está exposta, há um segredo como componente, tomado aqui não só como algo que ninguém pode saber, mas precisamente como algo percebido secretamente.

Foi assim com o desejo de Pedro de transar com Paulo, na sua investida para suprimi-lo e não deixar perceber, ao mesmo tempo em que Paulo o percebe secretamente, sem clareza, sem trazer à tona, para o dito, o organizado. O segredo faz parte da micropolítica da cena.

Pedro não deixa notar-se com clareza, não arrisca em suas expressões uma investida de cunho sexual; o conteúdo é excessivamente grande para sua forma, a forma escamoteia e disfarça o conteúdo, que é percebido secretamente. Do ponto de vista conceitual, é isso o segredo. Mas mais do que isso, “só os devires são secretos; o segredo tem um devir” [2].

Devires por “natureza” desbancam a forma estabelecida, obrigam-na a se refazer, mesmo que sutilmente. É dizer que os devires desterritorializam a paisagem constituída, algo que Pedro teme intensamente. Daí ele finge estar totalmente familiar com a situação e tenta combinar com aquele agenciamento, “passar batido”, mantendo o banho entre machos um banho entre machos.

É Suely Rolnik [3] quem nos fala de três qualidades de medo que nos fazem barrar os devires: o medo de enlouquecer, o medo de fracassar e o medo de morrer. Três faces da angústia de Pedro; há na cena um pouco dos três. O segredo em questão é o desejo de Pedro, em germe, um desejo impedido pela impossibilidade de fazer novas conexões. No momento em que Pedro dissimula ou finge, ele impede que o desejo se espalhe e disso decorre sua tristeza. Mas há muito mais entre o interdito e a tristeza.

Se aquele desejo concreto não fez novas conexões, não significa que não teve conexões anteriores que o modularam. Fizeram parte dessa modulação as imagens que consumira na pornografia disponível na internet, que forneceram referências e modelos que guiam Pedro nos instantes em que olha furtivamente para o corpo do Paulo. Se ele se exigiu certa generosidade para perceber como bela a bunda e os pelos do seu amigo, a mesma generosidade não foi precisa para as demais partes, pois estavam conforme as imagens do pornô.

Por mais ligeiras que fossem suas “manjadas”, teve tempo para operar uma seleção automatizada do que estava ou não conforme os modelos que lhe serviam de referência. Uma seleção operada em termos do que é belo – segundo os modelos – e do que é também belo – segundo a atração que Pedro sente em segredo, segundo sua generosidade. Seu desejo, a seleção e seu segredo têm uma face micropolítica de uma realidade macropolítica, isto é, a indústria pornográfica, e também a indústria cultural.

A Indústria Cultural – para dizer de uma maneira talvez menos exegética do que poderiam fazer os comentaristas da Escola de Frankfurt, mas nem por isso menos afeita à noção – é uma indústria que produz e vende cultura, ou seja, modo de ser coletivo. A esse respeito, em sua análise sexopolítica da economia mundial, Beatriz Preciado[4] coloca a pornografia como o modelo a partir do qual qualquer produção cultural contemporânea é feita e pode ser entendida, pois de modo límpido, seu circuito fechado de excitação-capital-frustração-excitação-capital oferece a chave de leitura de qualquer tipo de produção cultural pós-fordista.

Para a autora, a pornografia como produção cultural industrializada só se diferencia das demais por seu estatuto de underground ou escuso, mas que, como as outras, reúne todas as condições técnicas de produção, troca e capitalização. Por pornográfico, ela entende “qualquer material audiovisual sexualmente ativo, capaz de modificar a sensibilidade, a produção hormonal, ativar o circuito excitação-frustração e produzir prazer psicossomático”.

Além disso, é próprio da pornografia, entre outras coisas, a oferta de “corpos tão desejáveis quanto inacessíveis, cujo valor masturbatório é diretamente proporcional à sua capacidade de se comportar como fantasia abstrata transcendental”. Daí a frustração ser componente inerente da pornografia, ou melhor, um afeto inerente ao seu consumo.

Partindo dessa crítica, Angela Donini [5] analisa os elementos semióticos e técnicos que concernem à subjetividade sexual, o que talvez seja mais afeito ao “caso” de Pedro e Paulo e todos nós e a uma micropolítica da pornografia. Antes de partir para outras pornografias, não normatizadas, ela constata que

A pornografia do stablishment é parte dos procedimentos neoliberais que tomam de assalto a vida, implantam seus dispositivos e fazem com que nossos corpos incorporem cada micropartícula produzida se tornando, portanto, produto motor do capital, como se cada corpo se transformasse de maneira imaginária naqueles corpos projetados, como se o sexo, os modos de encontro e acesso ao corpo e ao outro passassem pela composição mental a partir de um repertório imagético disponível. Angela Donini, Outras Pornografias

É assim que o olhar de Pedro é mediado e seu desejo de transar com Paulo é modulado pelas imagens que consumira; é assim também que Pedro teme fracassar em uma investida, pois seu próprio corpo não está tal qual a imagem ideal e majoritária de corpo a que a maioria das pessoas, inclusive Paulo, aderiam. É assim que Pedro se frustra, com relação a si e a não ser capaz de ser coerente com parte dos seus afetos – incapacidade que qualquer normatização enseja.

Se por um lado faz parte da micropolítica da cena a modulação prévia, pela pornografia, do desejo de Pedro, por outro, o próprio devir-segredo de seu desejo é também fruto de um agenciamento que o impede de passar. O que esse agenciamento reúne é uma opressão, pois mais do que heterossexuais, Paulo, Matheus e Pedro são machos, ou melhor, se comportam como machos.

Em outros termos, a performance ou o simulacro que exerciam se dava justamente pela negação, naturalizada ou conturbada, de qualquer coisa diferente daquele patrão. Se são machos ou se portam como tal, é através de uma negação direcionada tanto a si quanto aos outros: do feminino, da viadagem e de outras e inimagináveis potencialidades não efetuadas, virtualidades não atualizadas.

Poderíamos continuar falando de uma opressão que Pedro infringe sobre si mesmo e sobre seu desejo íntimo; que ao fingir-se natural à cena macha estaria impondo-se violentamente o uso de máscaras não coerentes com o que ele “realmente é, de verdade”. Mas isso seria supor que atrás das máscaras existe alguma coisa essencial, que aquém das performances haveria uma natureza fundamental. Seria definir um corpo pelo que ele é, mas não pelo que é capaz de fazer. Seria, ainda, adotar uma noção de Eu que não coaduna com os movimentos do desejo e da vida.

Trata-se de uma noção de Eu que encerra dentro dele a subjetividade, isto é, o modo de pensar, de agir, de perceber, de sentir, de trabalhar, de transar etc. Essa noção tem uma historicidade. Podemos esboçar uma linha histórica dessa noção, presente na epistemologia do Iluminismo, quando

a partir das Meditações de Descartes, a constituição da subjetividade se faz através da renúncia do indivíduo a uma parte de si mesmo (o espírito se separa dos sentidos) [e, com isso, lança-se a] condição para que ele se eleve ao plano dos valores universais que definem a verdade e a racionalidade – Ondina Pena Pereira, Ethos do indivíduo grego e o êxtase do sujeito contemporâneo.

Assim, o filósofo apresenta uma versão mais acabada de uma concepção cristã, porque é em Santo Agostinho, anterior a ele, que temos o exemplo mais palpável até então desse exercício de “situar em um espaço interior tudo aquilo que tem que ver com a alma, a subjetividade, o mental, a moral ou a virtude” [6].

Nas Confissões de Agostinho, pode-se encontrar em toda parte a distinção fora-dentro, interior-exterior, com especial apreço pelo interior e pela alma, identificada com Deus, e desapreço pelo que vem de Fora, com o ir para Fora. Por exemplo, “[…] minha alma não estava bem e, ferida, voltava-se para fora de si, ávida de se roçar miseravelmente às coisas sensíveis”.

Em uma passagem emblemática, o padre faz uma recomendação a que Pedro e a modernidade parecem ter aderido muito bem: “Noli foras ire, in te redi, in interiore homine habitat veritas – não vás para fora, entra em ti mesmo, no homem interior que habita a verdade.” [7].

Deste modo, em lugar de entendermos que a opressão como uma forma de negação de si mesmo, de interdição de um eu sacralizado, de repressão social sobre o sujeito, preferimos concordar com Deleuze quando ele diz que “se as opressões são tão terríveis é porque impedem os movimentos, e não porque ofendem o eterno” [8].

Na cena, o “eterno” é o próprio Pedro, se tomado como indivíduo, sujeito fechado, eu sacralizado – coisa bastante praticada na ciência, sobretudo a psicológica.

Onde a psicanálise diz: Pare, reencontre o seu eu, seria preciso dizer: vamos mais longe […], não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. – D&G, Mil Platôs v.3

O movimento impedido é o do desejo “de Pedro” e daquilo que, a partir de novas conexões, poderia produzir: uma transa, um estilo, um devir-bicha em lugar de um devir-segredo ou mesmo outros devires a partir do segredo. As possibilidades são infinitas.

Como dito, há uma pornografia instalada na intimidade de Pedro ou, em outras palavras, a pornografia produz subjetividade, mas não é menos produzido o sujeito que comporta, assim, a pornografia [9]. É dizer que a “linha pornográfica” que compõe a micropolítica da cena é acompanhada por uma linha de subjetivação; a pornografia supõe um sujeito onde instalar o repertório imagético que molda de antemão sua semiótica, seu juízo estético, suas referências na sua relação com Paulo.

É nesse mesmo sujeito “fechado” que Pedro crê quando resolve esconder dentro de si sua atração, seu desejo de contato, seus afetos e qualquer coisa que denuncie sua não pertença à cena macha. Mas onde quer que haja uma ordem estabelecida, haverá também devires que a ameacem. Não que os devires existam em função da ordem, reativos a ela, mas sim em função da vida que a ordem em algum momento passa a obstruir.

O segredo de Pedro só se deu em função da vida, pois seu medo de fracassar, enlouquecer ou morrer não são gratuitos. Foi um devir de que seu corpo foi capaz, mas que no entanto foi logo “espantado” por uma tristeza causada por ideias que lhe fizeram mal.

É a nível micropolítico que os devires se dão. Seu destino, isto é, aquilo que se faz deles constitui uma das principais ocupações da micropolítica. Na cena, falamos do devir próprio ao segredo de Pedro, secretamente percebido por Paulo. E também do seu destino: a captura do seu desejo pela pornografia. Este é um tema para outra história.

Notas

  1. Spinoza, na Ética. Tradução do Tomaz Tadeu.
  2. 1730 – Devir-Intenso, Devir-Animal, Devir-Imperceptível…, Deleuze e Guattari, Mil Platôs v. 4.
  3. Em Cartografia Sentimental: Transformações Contemporâneas do Desejo.
  4. Pornopoder, dentro do seu livro Testo Yonki.
  5. Outras Pornografias, publicado no Cadernos de Subjetividade de 2014.
  6. Do texto de Domènech, Tirado e Gomez, intitulado A dobra: psicologia e subjetivação.
  7. Retirado de uma aula de Ética ministrada pelo professor Marco Aurélio Fernandes.
  8. Os Intercessores, do Deleuze, texto do compilado Conversações.
  9. Guattari falou sobre isso em sua viagem ao Brasil, cujo registo está no livro Micropolítica: cartografias do desejo.

Escrito por Argus Setembrino

"Uma parte de mim é multidão", a outra é psicólogo, sanitarista, pesquisador...

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