O elevador carrega minha carcaça vários andares acima do nível do solo. Alívio, do alto não escutarei o barulho da cidade, os vidros são à prova de som e motivação. Peço divórcio da realidade. Separação esperada, ansiada, atingida; o cansaço encharca minhas roupas, a fadiga penetra meus ossos. Quanto mais subo, mais me esqueço, quero o torpor de um enlatado americano, um enlatado alimentar, um apartamento enlatado.

Afastamento necessário, declarado, mas imoral. Na sala explícita, afundo no sofá, uma camisa de força daria no mesmo, mas não teria ares de liberdade. A independência tem tons negativos em nossos dias. Da minha janela vejo os cubículos de escritório: multiversos preenchidos por prazos e gravatas. As viagens são sedentárias, as aventuras, insípidas. No jornal, um caso de corrupção, um assassinato, um animal em extinção dá a luz em um zoológico. Cada um prostrado em sua cela. Dormir assistindo novela das 9, essa era minha grande expectativa de emancipação?

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imagem retirada do documentário “Human”

Acordo num susto, um carro explode em um filme de ação barato. Olho pela janela, o mundo corporativo nunca dorme. Verifico a tranca da porta, certifico que meus medos não girem em falso. Carrego amuletos na carteira, senhas de cadeados e números de contas no banco na cabeça, meus excessos me assustam. Habito zonas de desamparo e horizontes de esperança; imperativos de segurança me dão alento. Do meu ridículo apartamento é possível ver meus inimigos, espreito pela veneziana. Desejo solitário, redes sociais anônimas, conexões de wi-fi, empresas de capital aberto estupradas pela moeda estrangeira e comerciais maníacos no intervalo do jogo empatado.

Me levanto, verifico se a porta está trancada. Está. Sinto minha ausência se materializando no silêncio do corredor apertado que leva da sala ao quarto. Me despeço com carinho, dois comprimidos serão o bastante para dormir? Três então…. Um copo de água filtrada. Do outro lado do espelho, um estranho me encara, preciso investir na minha aparência, amanhã de manhã talvez faça a barba. Talvez acorde cedo para ir à academia, afinal, paguei seis meses adiantados. Uma pasta de dentes sabor menta, talvez tire umas férias no fim do ano, quem sabe?

Me deito, o travesseiro suspira, sustém o peso de minha solidão, será que paguei aquela conta? O vizinho assiste um reality show barulhento para dar consistência à sua inverídica existência. Quem sai? Quem fica? As votações estão encerradas. Será que eu tranquei a porta?

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imagem retirada do documentário “Human”

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

6 comentários

  1. Sabe o que é loko? Acabei de assistir Táxi Driver!!!!!!
    Esses “homem (s) solitáriorio(s) por Deus” , essa vida na cidade moderna…..( não, não vamos cair no pessimismo…rs)

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