Havia pouco tempo, e, como dizem, a ocasião faz o ladrão. O único jeito seria uma promoção de Sad Food. Ah, sim, tem aquela promoção das batatas, eu adoro batatas, ou pelo menos acho que gosto, ou será que eu gosto da quantidade de sal? Insira seu cartão… olho para a cara do atendente, meu Deus! Ele é talvez uns 10 anos mais novo que eu! E já foi engolido pelo grande irmão. Qual a diferença dele do outro lado do balcão e eu digitando a senha? Por que eu aqui e ele lá?

Saio quase arrependido, mas a fome é maior que meus escrúpulos, princípios ou ideologias. Ando devagar e anti-social, todos evitam se encarar. Procuro lugar, não quero dividir minha solidão com ninguém. Em cada mesa, uma alma indivisível, incorruptível, impenetrável. Sentados docilmente, cada um em sua divisória. É a dança das cadeiras, corro em direção a uma livre e sento enquanto ainda está quente.

Nem olho para o lado, o movimento é incansável, o papel é reciclável, o refrigerante é inevitável, o catchup, provável, o desconforto é insuportável. Por que foi que vim aqui mesmo? Muitas luzes, nenhuma é do sol, sem relógio, sem contato, a vida separada por balcões e vitrines. Sim, existem alegrias tristes! Existências rebaixadas ao mínimo, fechadas, impermeáveis, entupidas, vergadas.

Um homem de terno passa, seu sapato vale mais que meu celular, uma mulher passa, carregando uma sacola como se fosse o centro de sua existência. Me pergunto, qual o valor destes valores? Como eu vim parar aqui? Que parte de mim compactua com isso? Corpos de plástico atrás de divisórias, vidas em promoção, felicidade à crédito, satisfação à prazo. Não fica melhor que isso.

Mastigo distraído. O som do copo vazio me tira do estado hipnótico. Terminei: estômago cheio e a estranha sensação de vazio. Uma faxineira me pergunta se pode retirar minha bandeja. “Tirar minha bandeja?“, Como assim? Deus!, como chegamos até aqui? É isso a vida? Ver filmes americanos, comer carne processada, retirar bandejas, ser o funcionário do mês? Eu queria responder com alguma citação do “Manifesto Comunista”, mas consegui dizer simplesmente: “Sim, obrigado“.

Fico estático, sem respostas, sem capacidade de agir. Apenas ressinto. Onde estão as linhas de fugas tão prometidas? Afinal, o século não era pra ser deleuzeano? Percebo uma mulher me olhando feio, ela quer sentar, não tem cadeira; ela deve estar se perguntando se eu não tenho mais nada pra fazer além de ficar segurando lugar na praça de ali(m)en(t)ação. Me levanto decidido, a caverna de Platão, cheia de imagens e cheiros vai ficando para trás. Piso lá fora, não tem ar condicionado, não tem wi-fi, e o sol ainda brilha.

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

9 comentários

  1. Eu ainda deveria me sentir mal em não ter mais fé em nós? Ou será que se parássemos para pensar, desligados da tecnologia e da futilidade não veríamos o mundo terrível que está lá fora?
    Por outro lado sei que, já que nada nos resta, o mínimo que podemos fazer é tentar amenizar nossa dor, que essas futilidades (as quais eu também gosto, não me isento de forma alguma) nos trás uma sensação de bem-estar. Essa sensação de bem-estar momentâneo é que nos prova (assim o pensamos) que não estamos loucos. Os loucos são aqueles que chegaram a patamar tal da consciência de mundo, que lhes fora impossível retroceder e conviver em homogenia com os demais.
    Mas nós, como somos muitos, os condenamos à reclusão e ao veredito da loucura. Como se guerrear e matar uns aos outros não o fosse. Viva nossas futilidades que nos fazem tão “sadios” e tão senhores de nós mesmos.

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  2. Genial!! Sinto-me, muitas vezes, perdido no meio desses fast-foods e praças de alimentação altamente iluminadas, que me ferem a vista. Consumo também, como não? ou como, sim! Enfim, essas contemporaneidades que nos alimentação e nos alienam…Bravo!!

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