Transcrição da palestra na Funarte Ocupada.
Colabore com o nosso projeto no Catarse para ampliar nosso vocabulário político.

por Luiz Fuganti

[A partir de 8:02] Olá, gente. Boa noite. Boa noite a todos. Eu queria agradecer de novo o convite, Pedro e da galera aqui que tá empenhada nessa ocupação, e dizer que é com alegria que a gente também se sente interessado em se ocupar disso e ocupar esse tempo e esse espaço com algum tipo de realidade que a gente cultiva, uma realidade que a gente cultiva de modo inacabado… uma realidade inacabada por princípio. É uma espécie de zona virtual sem a qual a gente cai no tédio. E ocupar-se com essa zona virtual, ocupar-se com o tempo que dura em nós e fazer com que esse tempo ocupe e crie o próprio espaço eu acho que talvez seja um desafio que vale a pena a gente investir. Um desafio porque nós geralmente tendemos a falar, a pensar, a sentir, a partir dos nossos estados de corpo. E os nossos estados de corpo – aliás, a palavra “estado” é muito sinalizadora, muito fértil nesse sentido, porque não é apenas um estado político, um estado de poder, um estado institucional, mas o estado de desejo, ele às vezes é mais revelador do que os estados institucionais. E raramente nós ultrapassamos nossos estados de desejo. Quando a gente ultrapassa, a gente muda de estado, mas a gente perde a passagem. O que é passar de um estado a outro? É uma zona incômoda, não cultivada, estranha e que geralmente nos ameaça e ameaça aos nossos. É uma zona que não é cultivada, de fato, ou seja… eu vi que o tema aqui é devires-revolucionários, é isso? “Insurreição versus Estado: devires-revolucionários”…

A gente sabe que a ideia, a intencionalidade do desejo, ela já é uma armadilha. Quando a gente busca o ideal, quando a gente busca, por exemplo, investir em políticas públicas e se opor às apropriações ou às rapinas privadas, é preciso perguntar quem em nós está buscando isso. Porque essas apropriações, elas muitas vezes não ultrapassam a natureza da captura da vida. Ultrapassar a captura é fundamental. Não adianta você dizer assim: “é muito importante a gente voltar a ter as políticas públicas; é muito importante ter um Estado Democrático de Direito onde a sociedade participe de modo mais amplo e assegure ou conquiste ou reconquiste os direitos que atendem à vida”, quando a vida, nessas demandas, de alguma maneira já está capturada. Aí você diz: bom, será que com as políticas públicas, a vida pode se tornar mais permeável, mais interessante? Depende muito. Depende muito, tem uma série de circunstâncias e tal, mas o que é essencial é a gente começar a perceber mais e mais a cumplicidade que sustenta esse estado de coisas. Não há Estado sem estado de desejo. O Estado, ele não é um poder, antes de tudo. Ele é poder como efeito. Então não adianta a gente ficar acusando, simplesmente, o golpe. Aliás, o que que é golpe? Até a própria direita diz que a Dilma ou o PT deu um golpe – no bolso deles, com certeza. Existe uma série de sentidos pra palavra “golpe”. A questão da legitimidade: o que é legítimo e ilegítimo?

Eu sempre lembro do Foucault dizendo que é muito esquisito quando a esquerda começa a reivindicar o direito pra defender os seus combates, ou pra se legitimar. É muito esquisito isso. E nós, eu sinto que a gente está numa inércia buscando sempre retomar o mesmo Estado Democrático de Direito, que é sustentado não apenas por um Estado de Polícia, que é primeiro em relação ao Estado Democrático de Direito, mas uma ordem mais sutil, que a gente raramente discute, e que não é uma ordem de sujeitos nem de instâncias, nem de Estados, nem de extratos, não é esse tipo de ordem. É uma ordem que está atuando no campo das forças. Por exemplo: a gente raramente discute o capitalismo. Raramente a gente faz a diferença entre capitalismo e capital e nem mesmo entre capitalismo, capital e capitalista. A gente mistura tudo: diz capitalismo, capital, capitalista, é tudo a mesma coisa, e os vê como um inimigo, mas na verdade a gente está atribuindo a essas forças uma subjetividade, uma substância que elas não têm, que é já efeito de uma certa configuração. E a gente fica atacando essas substâncias que são efeitos, esses fantasmas, esses inimigos, quando a realidade, ela passa às nossas costas, ou à nossa frente, ou na lateral, mas nunca naquilo que a gente está focado. Ou seja, o que eu quero dizer é que a gente está sempre desfocado – “a gente está sempre desfocado” é uma maneira de provocar, mas é raro a gente estar focado num movimento enquanto o movimento move, no acontecimento enquanto o acontecimento acontece. É muito raro isso acontecer. Então quando a gente vai interpretar a realidade, a gente já interpreta ela de modo retardado, a gente interpreta ela com os nossos estados de corpo…

O que ocorre é que, na medida em que eu sinto algum tipo de injustiça e esse que sente em mim essa injustiça busca algum tipo de modificação, algum tipo de mudança, com esse estado de injustiça que o institui enquanto um sujeito, não há como eu não delirar em relação não só ao inimigo como em relação ao amigo; não só aos aliados como em relação àquilo que deve se combater. Então a gente fica imaginando, muitas vezes, os inimigos onde jamais eles estarão. E a gente fica imaginando um tipo de inimigo que jamais será uma força real inimiga. A gente está no campo da imagem. A gente está no campo do delírio. A gente está no campo da alucinação. A gente está no campo dos signos – na medida em que a gente não ultrapassa os nossos estados.

Devir-revolucionário é um apelo aqui. Existe aqui um (ININTELIGÍVEL) 17:12 em comum que insiste muito, alguns (ININTELIGÍVEL) 17:14 em comum que dizem muito que o futuro da revolução não tem nada a ver com o devir-revolucionário, nem o futuro nem o passado da revolução. Porque a revolução não é um… [corte] 17:25

Nós vivemos numa ordem de direito mas não numa ordem de justiça. A ordem de justiça, se você quiser, você pode até dizer: é a justiça do ressentimento. Mas isso não é justiça. É uma ordem de poder, necessariamente. E essa ordem de poder, ela pressupõe uma força instituinte da ordem – não que a ordem não seja nada, ela não é uma mera ilusão como uma imagem platônica. Ela é uma imagem efetuadora, ela é um signo, é um efeito que efetua, então não é uma coisa qualquer. A ordem jurídica efetua, tanto é que o capitalismo apesar do cinismo todo não manda embora o Estado Democrático de Direito, ele é muito caro. Por quê? Porque o Estado Democrático de Direito é um dos meios onde o capital mais se maximiza no seu objetivo e na sua finalidade, pela produção e na produção para o capital. O Estado Democrático de Direito é um meio privilegiado do capital, assim como a lei é um negócio. Quando eu me sirvo da lei e do Estado de Direito pra conquistar e manter os direitos da vida, eu devo me perguntar: que vida? E não acreditar numa vida genérica, que toda vida vai ser atendida por esse Estado Democrático de Direito, ou se o Estado Democrático de Direito não atende suficientemente… [corte] 19:00

Pra essa instância se manter, é preciso uma configuração de forças que a sustente. Não tem forma que se sustente sozinha sem um conjunto de forças. Então não adianta nada eu me focar na forma e dizer: a forma foi violada, estamos num Estado de Exceção, Regime de Exceção. Desde quando que o
Regime de Exceção não foi o instituinte da regra? Nos Estados-nações o Regime de Exceção já é instituinte. O Foucault, numa das análises que ele faz sobre a emergência dos Estados Modernos, ele diz assim: tem três aspectos interessantes nos Estados-nações: eles têm uma autonomia relativa e essa autonomia relativa, essa soberania que se relaciona com outros Estados soberanos, ou seja, uma certa multiplicidade formal, implica numa relação externa, seja diplomática, seja de guerra; numa relação interna material, as riquezas materiais de uma terra; e as riquezas de um povo, a população como riqueza. E quando esse aspecto da população enquanto riqueza salta, o Estado – aí você diz assim: “o Estado? Quem é o Estado?” – mas vamos supor que haja um Estado, que vai investir onde? Na força da população. A força da população como capital energético. No século XVI e XVII esses Estados, principalmente na Alemanha, vão ser designados como Estados de Polícia. O Estado de Polícia é aquilo que depois vai se tornar a sociedade disciplinar. Ela vai investir na subjetividade, ela vai investir nos comportamentos, ela vai investir na produção de corpo, na produção dos movimentos, num uso do tempo, num uso da semiótica, da linguagem, ela vai investir na instauração de um preposto em nós. Um preposto que você pode chamar de sujeito, de eu, de consciência, de pessoa física, pessoa moral, pessoa especulativa ou até indivíduo físico, se quiserem. E, eventualmente, pessoa jurídica também. Mas isso, de alguma maneira, esses prepostos, eles são necessários ao funcionamento de um tipo de força que acumula a riqueza a partir de uma apropriação abstrata. Não de uma apropriação de terra, não de uma apropriação de bens, não de uma apropriação imobiliária, não de uma apropriação industrial, comercial, bancária ou monetária, mas uma apropriação abstrata. E é essa a propriedade do capital. O capitalismo inventa esse tipo de propriedade. É uma propriedade muito diferente, não é a propriedade pública. Mas não existiria essa propriedade abstrata sem a apropriação pública. Então não me serve de nada eu dizer “o público é mais interessante que o privado”. Eu preciso entender a natureza do público. O público é a expropriação do comunal.

Foto de Capa

Então se eu não me servir de um outro uso… Tudo bem, a gente usa de modo estratégico: “vamos investir em políticas públicas, vamos investir na questão de um Estado que atende mais à vida do que ao capital”, é óbvio, “vamos invadir o Estado, vamos nos apropriar do Estado”. Mas a gente não pode se iludir com Estado, com o direito, com as leis. Isso são armas de guerra, armas de combate. Mas ali já tem uma captura intrínseca, não há Estado, como diz Deleuze, não há Estado que não seja aparelho de captura. E ele opera fundamentalmente em qualquer nível, seja um nível arcaico, evoluído, medieval ou moderno, dos Estados-nações, ele opera sempre por comparação abstrata e por apropriação. Ele instaura em nós um buraco devorador que quer se apropriar, usando o meio da comparação. A nossa racionalidade, a nossa forma de pensar, a nossa forma de imaginar, a nossa forma de memorizar são contabilidades abstratas equivalentes, que são instrumentos de apropriação. Então você diz assim: o público deve se apropriar? Mas o que que é a apropriação pública? Não existe apropriação pública que não seja monopolista. E o que que é apropriação monopolista? É a instauração de um buraco que implica a substituição pras relações. Onde havia relação, onde havia interesse em relação, onde havia interesse em conexões de desejo, em devires, em encontros, agora você o quê: você tem uma polarização, ou melhor, um monocentrismo. Uma concentração e uma ressonância dos centros. E uma estocagem. Se a estocagem é pública ou é privada, vai ser uma mudança de grau, mas a questão é sempre essa estocagem.

A gente assistiu agora essa coisa patética no Congresso, os caras dizerem assim: “pela minha família, pelo meu pai, minha mãe, meus filhos, meus netos, pelo meu bolso, pelo meu deus”. O que que é isso tudo senão o umbigo, a cápsula, o átomo, um indivíduo sem relações, um indivíduo sem devires, sem a potência da mudança do próprio desejo, sem o combate, sem a máquina de guerra que deveria ser cada um no seu modo existir. Porque o que é a vida ativa senão uma potência de mudar? Uma potência de se inventar, uma potência de criar valor. O que que seria a vida inventiva senão isso? Mas o que são esses seres? São seres impotentes, tristes e que se alegram se entupindo, investindo na monopolização, na apropriação, no preenchimento desse buraco, que ao invés de ser preenchido, ele cresce ainda mais.

Será que o desejo do maior dos capitalistas, ele não coincide com o desejo de um humilde periférico, muitas vezes? Eu sempre me pergunto isso. Porque o que seria a justiça? Distribuir essa riqueza? Que tipo de igualdade que a gente quer? Ou será que não é mais do que hora, não é sempre tempo – assim como dizia Epicuro em relação à filosofia: “nunca é demasiado tarde, nem demasiado cedo pra começar a filosofar” – a gente pode dizer a mesma coisa: nunca é demasiado tarde nem demasiado cedo pra gente começar a encontrar o foco da produção da nossa energia. O foco sem o qual a gente não investe na autonomia. O foco sem o qual a gente não passa de bestas lamurientas, ficamos sempre reivindicando. O passional e reivindicativo: sofre e reivindica por justiça, e ataca um inimigo exterior. Eu não estou dizendo que o inimigo esteja dentro de nós, não é nem dentro nem fora, é no nosso mau jeito, nas nossas relações ausentes, não ocupadas.

É muito interessante esse termo “ocupação”. Muito interessante porque a gente ocupa com o quê? A gente ocupa com os nossos ressentimentos, com as nossas misérias, com as nossas impotências? É com isso que a gente ocupa? Ou será que a gente não deveria se esvaziar disso e deixar que o caos nos ocupe? Em outro tempo talvez. Um tempo inútil, um tempo idiota, um tempo não contabilizável, mas não apenas um deixar acontecer, mas um sentir que algo sobe e se produz de modo alheio ao status quo – seja do indivíduo, do grupo, do coletivo, do Estado, das instituições. E começar a se relacionar diretamente com esses meios de acontecimento. Colocar isso em conexão. Apesar de nós, algo sobe em nós. Apesar de você, algo sobe em você. Esse algo que sobe em mim, que sobe em você, que sobe nos grupos, é isso que tem que se conectar. O que será isso? Fica um desafio pra gente tentar descobrir, inventar isso em nós. Nietzsche dizia “nós, homens do conhecimento, desconhecemos a nós mesmos”. Também pudera: nunca nos procuramos. Diz ele “temo que nas experiências cotidianas, as nossas vivências”, ele diz, “quem de nós pode levá-las a sério? Eu temo que estejamos ausentes delas”. As experiências cotidianas, nós estamos ausentes delas. “Mas a gente está vivo! Eu sinto tristeza, eu sinto alegria, eu sinto ódio, eu sinto amor, eu entendo que agora é noite, e amanhã é dia, enfim, eu distingo as coisas, eu estou presente, eu tenho consciência”. Mas é aí que está o problema, aí que mora o problema. Nós achamos que a consciência resolve, mas a consciência é que é o problema. Nós achamos que o indivíduo resolve, mas o indivíduo é o problema. Nós achamos que o sujeito resolve, que ele deve ser sujeito da história, mas um sujeito geralmente é assujeitado. Nós achamos que os coletivos resolvem, vamos nos unir, mas geralmente os coletivos não passam de rebanhos gregários ressentidos, que se penduram nos outros com suas misérias. É claro, eu não estou dizendo que isso é regra, que isso seja necessariamente assim, mas isso é uma tendência, isso é dominante.

Por que que nós chegamos no Brasil, nesse momento, depois de todas as experiências históricas que tivemos, com esses acontecimentos patéticos? Não chega nem a ser trágico nem a ser cômico, isso é patético. É patético o que ocorre. E nós tivemos chances, treze anos de investimento de políticas populares, se não populistas, populares, que deveriam investir no fortalecimento da vida e não nas tutelas. Ah, é suficiente ou não é suficiente? Não há como fazer essa contabilidade, não é isso. É que nós sempre dizemos “não, isso é pra depois”, ou “isso é um Estado muito evoluído pra nós”, “o mais urgente é por um prato de comida na mesa”, “o mais urgente é ter onde morar” – não sei, eu tenho as minhas dúvidas. Às vezes a fome é mais produtiva do que o prato de comida. Às vezes o relento é mais interessante, sabe, a gente entra em estados intensos… Eu não estou fazendo nenhuma apologia da miséria ou impor limites cruéis à vida, não é isso o que eu estou dizendo. É que a gente vive num estado de entorpecimento, porque nós fazemos um mau uso dos nossos afetos. A gente faz um uso piedoso das nossas dores e um uso complacente dos nossos prazeres. A gente sempre acha que tem direito ao prazer, a gente sempre acha que a dor tem algum tipo de injustiça, que deve ser eliminada. Então a gente quer fugir da dor e buscar o prazer. E a gente não percebe, muitas vezes, que fugindo da dor a gente perde a ocasião de experimentar algo muito interessante. Ou tendo prazer a gente se anestesia, se entorpece, e deixa escapar aquela tensão sem a qual não haveria uma inventividade, uma experimentação nova. E assim, de uso em uso, piedoso de dor e complacente de prazer, nós perdemos a ocasião, deixamos pra depois, porque o mais urgente agora é o prato de comida. Eu diria que o mais urgente agora é a intensidade e não o prato de comida. Às vezes a fome, ela é mais intensa do que a saciedade. Claro, isso tudo como modo de falar, talvez, mas que leve a algum tipo de problematização de nós mesmos. O que eu quero dizer é o seguinte: não adianta a gente estar sempre falando mal do poder. O Temer é um verme, é um hipócrita, você pode falar o que você quiser dele, o Cunha, como é que pode, o cara estar solto, Gilmar Mendes, essa turma toda, essa canalha toda que está no poder. E não tenha a menor dúvida que são descartáveis, são marionetes, porque eles são prepostos. O capitalismo inventa: se você tirar ele, ele cria outro.

Então a gente tem que chegar no campo das forças. Não adianta eu atacar o sujeito de interesse, e muito menos reivindicar o sujeito de direito como sendo mais legítimo do que o sujeito de interesse neoliberal. O sujeito de interesse neoliberal é um filho da puta? Pode ser. Sabe, mas é o que diz Marx atacando Proudhon: que ingenuidade dizer que a propriedade é um roubo. É um direito da riqueza abstrata expropriar, está na própria acumulação da riqueza abstrata. Não adianta eu acusar o capitalista disso. Eu posso dizer “ele é um filho da puta”? Mas e daí? Mudou alguma coisa? Ou “ah, mudou sim, porque eu fiquei mais anestesiado com meu ódio”? Então usar o ataque pra desviar a causa real e apreender os problemas reais é da natureza inventada do homem – não existe natureza humana, (mas) uma natureza produzida historicamente, é do homem ressentido, o homem ressentido faz isso: ele ama pra se entorpecer, ele odeia pra se entorpecer, ele se ocupa pra se entorpecer, ele dorme pra se entorpecer, ele fica acordado pra se entorpecer, ele usa tudo pra se entorpecer, pra se desviar da causa real das dores. E aí ele faz o quê? Ele acusa um outro das suas dores ou acusa a si mesmo. Como diz Nietzsche: ressentimento e má consciência. Ou Espinoza: ódio e remorso. E sempre isso. E nós da esquerda, os anarquistas, seja lá o que for, não estamos no mesmo barco muitas vezes? Não é dominante isso nos movimentos de esquerda?

Eu vejo: aqui existe um conflito. As organizações, PSOL, PT, PSTU, etc e tal, tentam se apoderar dos movimentos, não é isso? Ora, mas nós temos um problema comum aqui. Saíram e ficaram os fantasmas: será que foi bom isso? Bom, enfim, seja bom, seja ruim, mas será que não houve um desperdício aí? O desperdício da gente se compor de modo diferente? Por que que tem que ter essa oposição: organização ou não-organização? Por que que a gente não ultrapassa a organização partidária, o caos anarquista, e entra num plano de composição real de energias em mutação?

Na medida em que a gente se encontra, a gente se produz, e a gente é capaz de criar valor. Eu fico e perguntando: quando a polícia vai entrar aqui e vai desocupar isso aqui? Vai acontecer uma hora. No Mato Grosso aconteceu no Iphan, ontem eu acho que foi, ou antes de ontem, ontem… E tiram, entendeu? Desocupa. E se precisar ter mortes pra isso, vai ter. Eles vão dizer “é… indignado, a polícia entrou…”, aí você filma, põe na internet… Meu, tem uma hora que não tem, não tem… Então eu digo assim: mas onde que tem realmente, onde é que é o limite do capital? Claro, tem que ultrapassar o sujeito de direito, tem que ultrapassar os sujeitos de interesse, tem que entrar nos campos das forças, mas e nós, entramos no nosso campo de força? Qual é o nosso campo de força? O nosso campo de força é o campo dos devires. O que que é um devir? Um devir não é eu virar outra coisa, imitando, me identificando ou fazendo como. Um devir é aquilo que eu me torno segundo o modo como eu aconteço. A coisa que me sustenta, não é nem eu, é a coisa que me sustenta, o que ela se torna no modo como eu aconteço. Ora, é exatamente aqui que está a minha fonte, a minha força, a minha implacabilidade. Nada pode contra isso, mesmo com a minha morte. Você vai atacar um envelope mas você não ataca essa energia. Essa energia, ela é eterna, ela é potente, ela se fabrica, ela faz eternidade aqui e agora na existência. E a gente, de alguma maneira, a gente cultiva esse tipo de energia? Sabe, então é isso que eu me pergunto sempre: se a gente não faz a lição de casa, não adianta a gente dizer “viva a autonomia”, “viva a zona autônoma temporária”, eu vou ficar lendo e relendo aquele livrinho várias vezes pra me inspirar, sabe, ver se surge um… Muito bacana, a ideia é genial, zona autônoma, porque é isso mesmo: é zona autônoma temporária, sempre temporal, é sempre de passagem. Mas onde é que está a fonte de autonomia real? Como é que eu gero autonomia? Eu só gero autonomia criando valor, mas criando valor não é acumular capital. É fazer um outro uso do tempo, é botar duração no movimento, é botar duração no pensamento, é botar duração nos afetos, experimentar essa duração enquanto dura, deixar esse virtual subir à superfície. E aí sim a gente começa a estar à altura do acontecimento, ser digno do que nos acontece.

Sempre diziam assim: Kafka é um cara intimista, encolhidinho, com a sua literatura minúscula, menor, e que gera uma certa monstruosidade ao narrar – e na verdade não é nada daquilo. Você vê ali um desejo implacável em pé, em pé no sentido de estar digno, à altura do que acontece, e ao invés de ele ser o monstruoso, ele mostra a monstruosidade daquilo que quer se atribuir à vida, ele devolve isso. Ele não foge daquilo, ele faz aquilo fugir do próprio desejo. É muito diferente. Será que a gente não é capaz de fazer isso? Não basta a desobediência civil, já é um grande avanço a desobediência civil, mas desobediência civil está no campo do direito. Enquanto a gente ficar reivindicando o direito… É engraçado, agora até os marxistas mais ortodoxos acham que o caminho não é a luta violenta, a luta de classes. Até as Farcs estão fazendo acordo na Colômbia, depondo as suas armas. Claro. Por quê? Porque a luta de classes, desse modo como foi concebido e praticado, ela tinha vários problemas, e ela fraudava de alguma maneira a realidade. Então: mas a
via então é pacífica? Nem pacífica nem violenta, desse ponto de vista. Não é nessa dicotomia que a gente está. Porque a guerra é vital, mas não é a guerra de morte que diminui, rebaixa ou aniquila o adversário, não é esse tipo de guerra. É a guerra que aniquila as maneiras e os maus jeitos do homem existir. Aquele jeito que… por exemplo: o homem empresta as narrativas pra ter o que pensar. Ele empresta a narrativa da Folha de São Paulo, da Globo, ou do Conversa Afiada, ou do seja lá quem for. Como é que eu vou pensar e entender a realidade? Assim como empresta as narrativas e esses modos semióticos de usar a linguagem, ele empresta também os objetos sensíveis, as imagens, pra se movimentar. Ele empresta até os sentimentos pra se sentir normal. Então há sempre um empréstimo [corte] 40:41(…) que nos alimente, que nos tire do lugar comum.

Então eu acho que já deu meu tempo aqui pra gente fazer circular, mas o que eu queria fazer nesse momento, que eu sinto vontade de fazer, e que eu acabei de fazer, é essa provocação exatamente porque se a gente não sentir esse presente que se apresenta em nós, que é potência de mudança, e não como Estado presente, a gente não entra no devir-revolucionário, a gente vai ficar sonhando com o futuro da revolução. Era isso.

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Fonte da transcrição: vídeo “28JUN – Ágora Agora: Inssurreição X Estados ^^com Peter Pal
Pelbart e Luiz Fuganti” (https://www.youtube.com/watch?v=cHYci7GxyLU)
Formato do arquivo-fonte: vídeo do Youtube
Tempo transcrito do arquivo-fonte: 33’21” (de 8’02” a 41’23”)
Transcritora responsável: Fernanda Franco
Transcrição realizada em: 13/07/16

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

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