Por tê-lo vivido, Nietzsche percebeu em que consiste o mistério da vida de um filósofo. O filósofo se apropria de virtudes ascéticas – humildade, pobreza, castidade – para fazê-las servir a fins totalmente particulares, inusitados, na verdade muito pouco ascéticos. Ele faz delas a expressão de sua singularidade” – Deleuze, Espinosa – Filosofia Prática, p. 9

Deleuze muito filosofou e, no final de sua vida, aproveitou para explicar o que é isso que fez durante toda a sua existência. Não havia como explicar “O que é a filosofia?” sem em alguns momentos falar sobre este ser tão peculiar que se auto-intitula o Filósofo. Afinal, o que é um filósofo? Um sabichão? Um semi-deus? Um anti-social? Deleuze começa dizendo que é um ser que aparenta-se com um sacerdote, um padre, um místico, um ermitão. Pois é, confunde-se por apresentar características muito similares: um ser isolado do mundo, que não liga para suas riquezas, fama ou qualquer coisa efêmera. Certo, todo filósofo tem um pouco disso, mas sua grandeza está em fazer destas virtudes um uso totalmente diferente do esperado:

“…mas isso não significando para ele fins morais, nem tampouco meios religiosos para outra vida, mas antes os ‘efeitos’ da própria filosofia. Humildade, pobreza, castidade tornam-se assim os efeitos de uma vida particularmente rica e superabundante, poderosa o suficiente para ter conquistado o pensamento e ter-se subordinado a qualquer outro instinto […] Humildade, pobreza, castidade, eis a maneira própria de o filósofo ser um Grande Vivente [grand vivant], e de fazer de seu próprio corpo um templo para uma causa por demais orgulhosa, demasiado rica, demasiado sensual” – Deleuze, Espinosa – Filosofia Prática, p. 9

Certo, já temos alguns elementos para definir o filósofo. Ele faz uso de características usuais para os ascetas, mas as transvalora para tirar delas coisas pouco usuais, ricas de pensamento e de vida. Através da filosofia, o que parece humildade, transforma-se em contentamento; aquilo que entendemos por pobreza, na vida do filósofo transforma-se em fonte de grande riqueza e o que normalmente vemos como castidade é para o filósofo de uma enorme sensualidade. Tal como a lenda da pedra filosofal, o filósofo transforma metais aparentemente desprezíveis em ouro.

Aqui Deleuze volta-se especificamente para Espinosa:

Como explicar que esta vida frugal e sem haveres, consumida pela doença, esse corpo delgado, frágil, esse rosto oval e moreno com olhos negros e brilhantes deem a impressão de serem percorridos pela própria Vida, de ter um poder idêntico à Vida?” – Deleuze, Espinosa – Filosofia Prática, p. 20

O filósofo holandês é perfeito para começarmos a entender o que é um filósofo. Dentro da filosofia, encontramos um grito de guerra, forte como um trovão, que procura fazer do pensamento um catalisador da vida, fazer a vida brilhar  e vibrar em seu maior esplendor. A filosofia encontra, anda junto e faz a vida crescer muito mais do que se não filosofássemos. Espinosa, por exemplo, acreditava na alegria e no conhecimento como as maiores fontes de riqueza, e fez, através da filosofia, os dois coincidirem, como duas retas que finalmente se encontram no infinito, mas no infinito que é a própria existência.

Como um filósofo faz isso? Ora, já vimos: Filosofia = o amigo da filosofia. Mas em que consiste o ato de filosofar? Sabemos, é criar conceitos! Então o filósofo só pode ser o amigo dos conceitos. O filósofo é máquina de produção de conceitos, é o conceito em potência, dele brotam conceitos. Por isso Deleuze nos lembra, é somente através da criação desta criação que podemos ver o quanto um filósofo foi produtivo, apenas assim sabemos como e o quanto ele imiscuiu-se na vida.

Filosofar é mergulhar na vida, talvez do modo mais estranho possível, talvez não aparentando isso aos olhos dos outros, mas é com certeza um salto ornamental em direção à vida, um mergulho profundo em sua superfície imanente. Por isso dizemos que os conceitos nascem de um plano de imanência, necessariamente imanente, colado a este mundo, e não transcendente, vindo de outro plano, outra realidade. Como já dissemos anteriormente, não há céu para os conceitos, apenas esta vida, este momento, esta duração.

Desta maneira, concluímos que o ato de filosofar, mesmo que se dê na história, não se confunde com ela. Afinal, um filósofo desdobra-se pela história, seu próprio nome atravessa as eras, o porvir! Citamos Heráclito (500 a.C.) com as mesma intimidade com que cumprimentamos nosso vizinho. Os filósofos, ao criarem conceitos, ao filosofarem com corpo e alma (outro nome para corpo) tornam-se transhistóricos, viajam no tempo. A atualização de conceitos é o que faz dos filósofos necessários para além de seu tempo sem torná-los de outro mundo. Os conceitos brilham como estrelas, como pontos cardinais, não transcendentes (afinal, estrelas nascem e morrem), mas também não evanescentes como a história.

Um filósofo é também um homem mascarado, que se esconde atrás de seus personagens conceituais. Um filósofo é tímido, humilde, já sabemos… para ele o trato com os outros é penoso, cheio de dificuldades. É necessário que um filósofo se disfarce para melhor se mover! Nietzsche sob a máscara de Zaratustra, Deleuze atrás dos Esquizos, Foucault escondido pelos Loucos e Delinquentes. Um filósofo ama criar heterônimos, provando que é um homem introvertido, mas ousado. O destino do filósofo é tornar-se seus personagens conceituas ao mesmo tempo em que eles mesmos devêm outros.

As possibilidades de vida ou os modos de existência não podem inventar-se, senão sobre um plano de imanência que desenvolve a potência dos personagens conceituais. O rosto e o corpo dos filósofos abrigam estes personagens que lhes dão frequentemente um ar estranho, sobretudo no olhar, como se algum outro visse através de seus olhos” – Deleuze, o que é a Filosofia?, p. 89

Sim, até aí tudo bem. Um filósofo é humilde, casto, pobre. Ele cria conceitos, traça planos imanentes e se esconde atrás de personagens conceituais. Mas para quê tudo isso? Para onde tudo isso vai? O filósofo não estaria perdendo seu tempo? Qual a sua intenção afinal? Certo, se insistem…

Quando alguém pergunta para que serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, porque a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado nem à Igreja, que tem outras preocupações. Não serve a qualquer poder estabelecido. A filosofia serve para afligir. A filosofia que não aflige ninguém e não contraria ninguém não é uma filosofia. Serve para atacar o disparate, faz do disparate qualquer coisa de vergonhoso. Tem apenas um único uso: denunciar a baixeza do pensamento sob todas as suas formas” – Deleuze, Nietzsche e a Filosofia, p. 159

Eis as forças que quase rasgam um filósofo ao meio! Afinal, haveria outro uso melhor para a filosofia do que denunciar toda a baixeza do pensamento? Todas as mistificações que nos roubam a vida enquanto a vivemos? Não, não podemos aceitar! Um filósofo é um denunciante! É necessário que todo o filósofo seja um lutador contra seu tempo! Um extemporâneo! Exatamente para mostrar o que há de inabitável e inaceitável nele! Um filósofo não diz “Tudo está errado!”, mas grita logo em seguida com voz ressoante: “Isso poderia ser de outra maneira, há outros modos!”.

Sendo assim, mesmo o mais pacato dos filósofos é um lutador! Mesmo aquele de saúde mais frágil, mesmo o mais franzino, é um Hércules. Com seu passo tímido, ele denuncia, ele aponta o dedo na cara, simplesmente para que a pequenez de seu tempo não seja tão pequena assim, para que a imbecilidade não se espalhe tanto assim. Se a filosofia não existisse, haveriam ainda mais motivos para nos envergonhar. No meio do mar de asneiras que são ditas aos quatro ventos, o filósofo permanece irredutível, como um farol à beira mar. A filosofia é nossa arma contra a tolice de nossos tempos, diz Deleuze, sempre foi e sempre será uma arma, uma ferramenta perigosa!

Não é à toa que ela é ignorada, não é à toa que o filósofo é colocado sempre de lado como se fosse um louco, como se sua palavras nada quisessem dizer. Apenas aos filósofos inofensivos é permitida a entrada, e mesmo assim com ressalvas. Lembremos de Diógenes, apelidado de Sócrates Enlouquecido. A imagem do filósofo é obscurecida em todos os tempos, pela Igreja, pelo Estado, pela Mídia, para que suas potentes verdades não cheguem aos ouvidos daqueles que mais necessitariam ouvir algo de lúcido.

No meio do caos um filósofo grita, mas seu grito é abafado pela multidão, pelos meios de comunicação, pelas mil postagens em redes sociais. O filósofo está sozinho contra seu tempo, mas ele não se rende. Aquilo que ele traz não são verdades universais, são questionamentos, são trilhas que se percorridas implicam em novos caminhos nunca antes trilhados, são conceitos que se trabalhados implicam em novas possibilidades de vida nunca antes experimentadas. O filósofo mergulha no caos e sempre que retorna traz algo de novo, ele é ao mesmo tempo o mais estrangeiro e o mais nativo. Estes são poucos!

Os filósofos-cometas conseguiram fazer do pluralismo um arte de pensar, uma arte crítica” – Deleuze, Nietzsche e a Filosofia, p. 160

Em suma, tudo que um filósofo quer é criar novos modos de vida! Ele pode parecer casto, humilde, pobre, mas é apenas na superfície, tudo em seu interior é fervilhante e vivo. Através de seu plano de imanência, seus personagens conceituais, seus conceitos criados o filósofo combate a tolice e procura novas maneiras de percorrer isso que se chama vida, existência! Quais são as possibilidades de vida em meio a um mundo desolado, desacreditado? Como a filosofia pode fazer o ser humano voltar a acreditar nesta vida? Estas são as perguntas que um filósofo se faz e responde das mais variadas maneiras possíveis.

Não há nunca outro critério senão o teor da existência, a intensificação da vida” – Deleuze, O que é a Filosofia?, p. 90

O filósofo faz um diagnóstico do atual e conclui, a situação não vai bem. Mas ainda assim, um filósofo acredita no presente! Sim, acredita neste mundo, até porque as outras possibilidades são bem piores. Por acreditar que este mundo ainda merece crença, convicção, implicação,  ele clama por novas subjetividades. Ele diz “não podemos continuar assim, há alternativas!”. Não desiste, porque o que o motiva é a própria vida, repleta de caminhos, atualizações, mutações. Tudo que um filósofo quer é um povo novo, uma terra nova, mas nesta vida! Sua filosofia quer criar o novo, o não visto, o notável, o interessante, o potente, para resistir à morte, ao intolerável.

Vejam bem, em minha opinião, os artistas, os sábios, os filósofos parecem muito atarefados em polir lentes. Tudo isso não passa de um grande preparativo em vista de um acontecimento que jamais se produz. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia todos nó perceberemos claramente a estupefata, a extraordinária beleza deste mundo” – Henry Miller, apud Deleuze, Espinosa – Filosofia Prática, p. 20

Texto da série: O que é a Filosofia?

– Simmon Kenny

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

6 comentários

  1. Excelente texto. Estou tentando ler o livro “O que é filosofia”, pois participo de um grupo de estudos de filosofias contemporâneas, onde estamos vendo Deleuze, e mais adiante Foucault ( já venho estudando desde meu pós) e estros pós estruturalistas. Estes seus textos tem me ajudado muito.

    Curtir

  2. Ótimo texto como sempre, mas que me causa grande melancolia… Por não ter com quem compartilhar a minha perspectiva a cerca dele.

    Curtir

  3. Excelente texto, Rafael Trindade!

    Ser filósofo é ser excêntrico, extravagante, quebrar paradigmas persistentes no nosso tempo; salvando-nos a nós mesmos e àqueles poucos que crêem que a tolice e idiotice são uma “verdade” mal contada. Ao que parece, aos olhos cegos, à consciência supérflua de “pensadores” pouco pensantes: somos abjectos, pobres demasiadamente miseráveis; homens/mulheres sem objectivos, sem perspectivas, sem bens maiores e úteis, mentalmente adoentados, proscritos, enfim, somos o “diabo” na terra… Por fim, até somos acusados de limitar a vida aos mortos, quando somos precisamente os que tentam (sobre)viver entre cadáveres que deambulam entre nós e sustentam cérebros apodrecidos em ideias; damos pensamentos, ideias, tentamos vislumbrar ideais, alguns conceitos e palavras que esperemos poderem de algum modo ressuscitar da morte intelectual aqueles que ainda querem viver, mas viver de outro modo, de uma forma mais verdadeira, mais pura, mais livre e consciente.

    Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s