Ouçam-me! Pois eu sou tal e tal. Sobretudo não me confundam” – Nietzsche, Ecce Homo, prólogo §1

Muitas vezes nos perguntam quais livros nós já lemos sobre Nietzsche, se já lemos a sua obra completa, ou, mais especificamente, quais livros lemos para fazer determinada série. Pois bem, não somos acadêmicos com pós-doc citando tudo no original, mas com certeza já lemos muita coisa. E principalmente, já nos deparamos com muita coisa ruim! Sendo assim, decidimos fazer uma lista que funcione como guia de leituras para a obra do filósofo alemão.

Última semana para inscrição em nosso curso de Introdução a Nietzsche

Nossa intenção é simples, fornecer uma lista de introdução, outra de obras do próprio filósofo e, por fim, uma lista específica para determinados assuntos. Não falaremos do que não lemos, porque seria desonesto de nossa parte, e não listaremos o que simplesmente lemos e achamos ruim, porque mais vale virar o rosto e ignorar.

Vamos lá!

Livros Introdutórios:

Existem muitos livros de introdução a Nietzsche, muitos mesmo… a maioria é uma porcaria ou simplesmente não dá conta da força do pensamento do bigodudo. Mas outros são capazes de, em poucas palavras, expressar aquilo de mais importante que o filósofo tinha para dizer e ainda gerar a sede de se aprofundar em seu pensamento, estes são os mais nos admiram!

O livrinho “Nietzsche“, escrito por Oswaldo Giacoia (publifolha) é uma ótima primeira leitura! Curto, extremamente simples, falando um pouco de cada fase do autor e de seus principais conceitos. Giacoia é professor e um mestre da didática! Seus livros são extremamente claros. Talvez seja a melhor primeira leitura possível.

Outra boa introdução é do nosso amigo Amauri Ferreira, “Introdução à filosofia de Nietzsche” (Yellow Cat Books). Amauri tem uma escrita mais agressiva, com pitadas de interpretações deleuzeanas. Sua introdução é mais meticulosa, indo direto aos conceitos. É um livro rápido de ler, mas que fornece muito conteúdo, abrindo caminho para outras leituras.

Os escritor francês Michel Onfray é um nietzschiano de primeira. Um bom exemplo disso é que todos os seus livros, sem exceção, começam com uma citação do filósofo alemão. Em sua juventude, Onfray escreveu “A sabedoria Trágica – sobre o bom uso de Nietzsche” (Autêntica). Uma ótima introdução pois traz cinco desconstruções operadas pela filosofia de Nietzsche e logo em seguida cinco proposições, mostrando que o filósofo do martelo não age apenas destruindo ídolos!

Um livrinho considerado de iniciante, mas não não sabemos exatamente em que medida, é “Nietzsche” (edições70), de Gilles Deleuze. O filósofo francês possui interpretações muito particulares da obra de Nietzsche, por isso consideramos que mesmo como uma obra introdutória deve ser lida com muito cuidado. É possível se arriscar, e para aqueles que gostam de Deleuze é imprescindível.

Mas podemos dizer que o melhor livro de introdução que nós já lemos foi “Nietzsche: Civilização e Cultura” (Martins Fontes), escrito por Carlos A. R. de Moura. O livro foi feito a partir das aulas de graduação que Carlos Alberto ofereceu na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Realmente parece que, durante a leitura, tem alguém conversando com você. Este é o livro de introdução mais longo de nossa lista e oferece uma perspectiva histórica e conceitual passando por várias obras de Nietzsche, com diversas citações, e mostrando o peso de sua filosofia para o pensamento moderno.

Para os que preferem começar com uma boa biografia, nós sugerimos a de Rudiger Safranski, “Nietzsche – Biografia de uma Tragédia” (Geração Editorial). Safranski escreveu as biografias de Schopenhauer e Heidegger, então podemos dizer que ele sabe do que está falando. Apesar da leitura leve, sua escrita é cheia de dados históricos, trechos de cartas, mas o mais importante, o pensamento do filósofo é exposto conforme a biografia avança, então entendemos o quanto uma vida se reflete em pensamento e vice-versa.

Para consultas esporádicas nós utilizamos o “Dicionário Nietzsche“, organizados pelo Grupo de Estudos Nietzsche, na USP. Muito bom, muito claro e conciso, e vem também com seleção de aforismos sobre os temas, não deixando quase nada de fora.

Obras do Autor:

Muito bem, livros introdutórios são bons, mas nunca devemos nos intimidar pela obra de um filósofo! No fim das contas é só pular de cabeça, abrir um livro do autor e começa a ler, não entendeu? Tudo bem, pega outro! Não há nada de errado nisso, não são apenas estudantes de filosofia que têm permissão para ler um filósofo (por enquanto). Nós, reles mortais, também podemos. Certo, mas por onde começar?

Para nós, o melhor livro de Nietzsche para começar a entender a sua filosofia é “O Crepúsculo dos Ídolos“, já da terceira fase da obra do filósofo. Por quê? Crepúsculo é um livro muito bom porque Nietzsche já não tem papas na língua e nem quer perder tempo, então as coisas são ditas de modo claro e direto. As máximas e flechas logo no início são prova disso. Nós daremos um curso sobre este livro em fevereiro de 2018, as inscrições estão abertas aqui.

Outro livro que gostamos é o Gaia Ciência. O estilo aforismático de Nietzsche pode confundir um pouco, porque parece desconexo, mas uma leitura mais atenta mostra que o filósofo está muito compromissado na ordem dos seus aforismos, nada é desperdiçado. Gaia é um bom livro porque nele estão alguns dos aforismos mais famosos de Nietzsche como Deus está Morto, Eterno Retorno, Amor Fati, entre outros…

Genealogia da Moral” pode ser considerado talvez o livro mais importante para nós! Porque faz uma análise ferrenha de nossa cultura e mostra os vários pontos que contribuíram para nos tornar seres que chamamos de “morais e civilizados”. Nietzsche mantém os aforismos, mas eles estão muito mais bem conectados, e as três dissertações possuem um caráter completo em si mesmo: Ressentimento, Má-Consciência e Sacerdote Ascético. Cada um deles tão importante que virou (ou pelo menos está no processo de virar) uma série separada em nosso site. Junto com a leitura deste livro nós aconselhamos o “Nietzsche e a dissolução da Moral” de Vânia Dutra de Azeredo, obra que praticamente disseca o Genealogia da Moral página por página.

O livro que menos aconselhamos para começar é “Assim Falou Zaratustra“, que por sinal parece ser o preferido dos iniciantes, o que complica tudo! Zaratustra é o texto mais poético de Nietzsche, cheio de metáforas, difícil de compreender e de decifrar a filosofia por trás. Zaratustra é compreensível só depois de apreender a maioria dos conceitos do filósofo, por isso não deve ser o primeiro livro a ser lido. Para quem tem o livro na estante e já está ávido por ler Zaratustra nós aconselhamos a acompanhar a série do nosso site.

Outras Obras Relacionadas com o Autor:

Já leu os livros introdutórios? Já leu os livros do próprio autor? Que tal se aprofundar mais em algum tema específico agora? Nietzsche é um autor consagrado em vários temas e por isso resolvemos colocar outros livros na lista para interesses específicos.

Gosta de Deleuze? Quer entender o pensador francês? Ou quer se aventurar levando o pensamento de Nietzsche um passo além? Então você deve ler “Nietzsche e a Filosofia” (Rés-Editora). Não existem bons deleuzeanos que não entendam de Nietzsche e este livro é incrível! Baseado principalmente no Zaratustra e na Genealogia da Moral, Deleuze mostra o quanto o pensamento de Nietzsche desconstrói a filosofia de seu tempo (principalmente Hegel) e como abre as portas para um pensamento muito mais potente e transformador (ou deveríamos dizer “transvalorador”?). Este livro é só para os fortes, porque é recheado de filosofia deleuzeana e milhares de referências. Mas vale a pena!

Gostou do aforismo de Eterno Retorno? Então nossa indicação é “Do Eterno Retorno do Mesmo à Transvaloração de Todos os Valores” (Discurso Editorial) de Luiz Rubira. Este livro é originalmente uma tese de doutorado. Muito bem escrito, muito bem estruturado, com as pesquisas histórias e científicas que embasaram as primeiras versões do Eterno Retorno. O livro traz muitos fragmentos póstumos, além de falar bastante também de Zaratustra e de como o pensamento do Eterno Retorno é a base para a saída do Niilismo e a Transvaloração de Todos os Valores.

Gosta de Psicologia? Então nossa indicação é “Nietzsche como Psicólogo” (Unisinos), novamente de Oswaldo Giacoia. Este livro abre as portas para pensar Nietzsche como um filósofo para psicólogos! Sim, seus estudos em psicologia nunca mais serão os mesmos depois desta leitura. Curto, didático e claro. Oswaldo traz os principais temas da psicologia pela perspectiva da crítica de Nietzsche e mostra o quanto o tema ainda está recheado de preconceitos morais.

Gosta de Freud? Ora, então só podemos indicar a obra de Paul-Laurent Assoun, “Freud e Nietzsche”. Aqui o autor traz as semelhanças e diferenças entre as obras dos dois pensadores alemães. Ótimo para entender onde suas teorias se cruzam e onde se afastam.  O livro também traz temas e problemas que os dois filósofos resolveram cada um à sua maneira como a questão das pulsões e da civilização.

Gosta de Espinosa? Nós também! Um livro incrível sobre o tema é “O mais potente dos Afetos: Spinoza e Nietzsche” (Editora Martins Fontes) organizado por André Martins. Este livros traça os fundamentos que unem os dois pensadores e faz comparações incríveis dentro de diversos temas. Realmente vale a pena ler este livro porque a junção de Nietzsche e Espinosa é quase explosiva, faz tudo virar de cabeça para baixo. Há mais semelhanças do que podemos imaginar!

Bom, parece que já temos uma lista satisfatória, outras indicações seriam apenas uma maneira de demonstrar falsa erudição. Aqui já temos o bastante para centenas de reflexões, estudos, críticas e dúvidas. Vale dizer também que a maioria dos livros virou conteúdo de nossos textos espalhados pelo site, então uma coisa se reflete na outra. Não teríamos um boa lista se não tivéssemos lido tudo isso e não teríamos nos interessado em ler tudo isso sem a vontade de escrever sobre e aplicar o máximo possível em nosso cotidiano.

Boas Leituras!

Veja também: Guia de Leitura da Obra de Gilles Deleuze
Em breve: Espinosa – Um Guia de Leituras

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

7 comentários

  1. Estou lendo – para o meu PIBIC – Nietzsche – Das Forças Cósmicas Aos Valores Humanos – Da Scarlett Marton. Recomendo muito. Ela é incrível também.

    Curtido por 3 pessoas

  2. Boa tarde Rafael,
    Realmente parece-me uma lista muito interessante! Confesso que adicionarei às minhas “próximas leituras”

    Me atrevo a perguntar: Camus e seu homem revoltado não seria um “tipo” de além-homem de Nietzsche? Seria muita pretensão adicioná-lo à lista?

    E porque não Raskólnikov também e seu estilo niilista? (apesar de ser literatura, Dostoiévski me faz sentir frente ao mais sublime dos filósofos!)

    Abraços!!!

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    1. Permita-me a intromissão haha

      Também adoro o Dostoiévski e considero sua literatura uma forma de filosofia e para isso irei parafrasear Albert Camus (a propósito, muito bem retratado nos textos anteriores deste site) que diria: Se você quer filosofar, escreva romances.

      Abraços!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Senti falta de indicações de obras da Prof.ª Scarlett Marton, tida por muitos como uma das maiores estudiosas de Nietzsche no Brasil, além da ausência de qualquer comentário à postagem da Michelle Santos, acima. Algum motivo especial?

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