Este texto é o final de um percurso em que, através do contraste, obtivemos algumas definições negativas da parresia, sabemos o que ela não é, sabemos em que ela se diferencia dos outros modos  de dizer-a-verdade. Escrevemos sobre o profeta, o técnico e o sábio e agora é o momento oportuno para definirmos o parresiasta. É sobre ele que Foucault se concentra ao final de sua vida, sentindo-se extremamente provocado pelas figuras antigas do dizer-verdadeiro, mas por uma questão específica: se todas os modos de veridicção são igualmente aletúrgicos, isto é, se todos eles manifestam suas verdades em si mesmos e pela força que têm em se mostrar dessa maneira, por que é que, justamente, a parresia desapareceu?

Se a parresia não resistiu ao tempo, se ela entrou em desuso na modernidade, tornou-se um modo obsoleto, uma palavra arcaica que sequer usamos, não é por falta de potência, mas por não ter mais lugar. Isso convida o filósofo atento a um resgate, pois a  filosofia não é só uma potência criativa do pensamento, é também capacidade de atualizar e valorizar pensamentos deixados de lado.  Por que, justamente o modo de fala de Sócrates, divisor de águas da filosofia, foi esquecido?

Foucault é, de todos, um dos filósofos que melhor atualiza conceitos, que retoma pensamentos desgastados e os insufla de novos ares. É ele o filósofo das vozes caladas, das palavras omissas, dos sentidos desviados – lição cuidadosamente aprendida com Nietzsche. Foucault retoma os antigos não para uma história despretensiosa, mas para catar aquilo que ficou esquecido em um canto e ninguém percebeu. Cuidado de si? Estava lá o tempo todo, só que ninguém viu!

Quando pensamos no sábio, logo nos vem à mente a figura luminosa de um homem silencioso e forte, dando conta da vida. Quando pensamos no técnico, logo lembramos de nossos mestres e de suas magistrais aulas. Quando pensamos no profeta, temos alguns bons e incontáveis maus exemplos. Mas, e o parresiasta? Quem, hoje, tem em mente uma figura bem formada desse modo de dizer a verdade? Talvez estejamos perdendo algo de muito valor.

O dizer-a-verdade sobre si mesmo, e isso na cultura antiga (logo bem antes do cristianismo), foi uma atividade conjunta, uma atividade com os outros, e mais precisamente uma atividade com o outro, uma prática a dois”

– Foucault, A Coragem da Verdade

Lyonel Feininger

Essa prática necessariamente conjunta da manifestação da verdade – não como uma episteme, mas como força reconhecível, singularmente verdadeira, aleturgica – tem uma certa qualificação, acontece de tal ou tal maneira, responde a determinados critérios. É o que nos permite identificar formalmente os tipos de discurso e personagens implicados nessa relação. Etimologicamente, a parresia é a atividade que consiste em dizer tudo, uma espécie de fala franca. Logo, o parresiasta é quem porta o dizer-corajoso. É a primeira característica de sua fala: uma sinceridade pontiaguda, interferente.

Apesar de encontramos a palavra parresia às vezes associada aos tagarelas e línguas-soltas, o que nos interessa aqui é o seu sentido positivo, ligada àquele que diz a verdade sem ornamentos retóricos, sem reserva nem cláusula de estilo, sem dissimular, sem nada a esconder. E isso nos leva à segunda característica: para entregar-se totalmente ao que diz, o parresiasta é aquele que se implica totalmente no que pensa. Sua fala constitui efetivamente a sua opinião pessoal, seu pensamento toma corpo em sua verdade. O bom parresiasta não se confunde com o mau, pois ele não fala da boca para fora.

O sujeito, ao dizer essa verdade que marca como sendo sua opinião, seu pensamento, sua crença, tem de assumir certo risco, risco que diz respeito a própria relação que ele tem com a pessoa a quem se dirige. Para que haja parresia é preciso que, dizendo a verdade, se abra, se instaure e se enfrente o risco de ferir o outro, de deixá-lo com raiva e de suscitar de sua parte algumas condutas que podem ir até a mais extrema violência”

– Foucault, A Coragem da Verdade

Assim, a característica fundamental do parresiasta é o risco que ele precisa assumir como uma condição de seu modo de fala. É por isso que este é o modo da coragem, ou, mais precisamente, da coragem da verdade. É preciso que se assuma o risco de dizer tudo até o fim. Uma vez que se pretende falar a verdade por inteira, não se pode interromper, calar, esconder ou fugir. Dessa forma, a força do dizer verdadeiro se coloca, se apresenta como fator a ser levado em conta, como ideia a não ser ignorada, como questão a não ser deixada de lado. A fala franca, necessariamente implicada com o sujeito e arriscada – são os componentes principais desse conceito.

Não existe parresia solitária, distante do outro. Existe sabedoria de um homem só, profecia que todos ignoram, técnica que ninguém domina, mas não existe parresia sem a relação. E é exatamente esse o jogo parresiástico: o questionamento. O povo, o amigo, o príncipe, o ouvinte deve aceitar e entrar no jogo, como alguém que sabe que é preciso ser corajoso para ser verdadeiro. A parresia envolve uma espécie de pacto:

A parresia é, portanto, em duas palavras, a coragem da verdade naquele que fala e assume o risco de dizer, a despeito de tudo, toda a verdade que pensa, mas é também a coragem do interlocutor que aceita receber como verdadeira a verdade ferina que ouve”

– Foucault, A Coragem da Verdade

O parresiasta quer falar alguma coisa certeira, que está se passando e que ninguém percebe, ele quer ser entendido e quer que as coisas mudem depois de ter falado. Não é um esbravejar nem um confessar nem um convencer, é uma maneira de manifestar, de apresentar as coisas de um novo ponto de vista. O jogo parresiástico, então, só pode ser composto de maneira que o risco não ultrapasse as forças que os mantém em relação. É um combate, onde o parresiasta, se sair vitorioso, terá passado o recado sem dispersar o público.

Lembramos inevitavelmente de Nietzsche. Quanto de verdade somos capazes de suportar? Ou ainda: quantos tem a coragem para aquilo que sabem? O parresiasta não pode deixar de avaliar até onde as pessoas estão dispostas a ouvi-lo, a enfrentar seus demônios, a questionar suas próprias vidas. Toda parresia anuncia uma espécie de rompimento possível. É uma potência disruptiva da fala. Quando se efetua, é um acontecimento: instaura novas verdades, faz variar as relações de poder, implica no cuidado de si.

A potência da parresia não está na confissão, mas na coragem.  O parresiasta não diz algo de si enquanto indivíduo, ele não vem a público confessar nada seu, nem anunciar algo por vir, muito menos ensinar uma lição, ele vem para pôr a si e aos outros à prova. Ele vem denunciar algo que se passa ali mesmo, algo de que não se dá ou não se tem em conta. Ele chama atenção para o que está sendo, muitas vezes deliberadamente, esquecido. Ele porta a coragem da verdade como força de dizer o que ninguém quer ouvir.

Tudo isso sem cair num relativismo vazio ou na necessidade de um convencimento fraco como “ponto de vista”. O parresiasta pode questionar os outros pois tem em seu corpo – em sua vida! – a expressão de sua verdade. Ele recebe o aval para dizer o que ninguém diria porque leva às últimas consequências aquilo que pensa – como ninguém levaria! Pensem nos cínicos vivendo conforme à natureza, vivendo o pensamento, aceitando o rigor imposto pela ideia de uma vida reta e não dissimulada.

Aqui, começamos a formar uma ideia do porque a parresia desapareceu. Ela é uma pedra no caminho para qualquer pensamento instituído, para qualquer mandamento divino, para qualquer razão inflexível. Foucault vai além: a parresia desapareceu porque a democracia não a suporta. O demagogo substitui o parresiasta na tribuna; a politicagem substitui o verdadeiro cuidado de si e governo dos outros. Para permanecer no poder, é preciso ter cartas na manga, não se pode dizer tudo, tem que fugir do debate.

Não dizer, esconder, adiar, fugir, é impossível para o parresiasta, que obstrui o caminho das instituições políticas e por isso desaparece da vida pública. Eis a genialidade da tese de Foucault: esse desvio é o nascimento da filosofia. Por não se instituir, a parresia irá dar seus frutos no campo da formação do sujeito, no corpo do filósofo.

Assim, encontramos uma ruptura na raiz aparentemente sólida da filosofia. Se de um lado a vemos instituir-se na academia platônica, por outro a encontramos circulando às ruas nos gestos de Diógenes, o cínico. Dois caminhos díspares, dois discípulos de Sócrates. Eis que se anuncia o resgate maior: é preciso retomar nos diálogos socráticos uma interpretação ignorada. Muito se fala do Sócrates do Conhece-te a Ti mesmo e pouco se fala do Sócrates do Cuidado de Si.

“A morte de Sócrates funda bem, a meu ver, na realidade do pensamento grego, e logo, na história ocidental, a filosofia como uma forma de veridicção que não é nem a da profecia nem a da sabedoria e nem a da técnica; uma forma de veridicção própria precisamente do discurso filosófico, cuja coragem deve ser exercida até a morte, como uma prova de alma que não pode ter seu lugar na tribuna política” – Foucault, A Coragem da Verdade, p. 99

Foucault realiza uma releitura da Apologia, Críton e Fédon para rever a ideia que Nietzsche fez da morte de Sócrates, de que ele teria sofrido da vida por fazer mau juízo dela e portanto curado-se dela ao morrer. Essa interpretação, que parece estranha ao próprio Nietzsche, não convence Foucault. Retomando os textos, ele nos apresenta uma interpretação melhor:

“A cura de que Sócrates aqui fala faz parte de todas essas atividades pelas quais se cuida de alguém, trata-se desse alguém quando está doente, zela-se pelo seu regime para que não fique doente, prescrevem-se alimentos que ele deve ingerir ou exercícios que deve fazer, pelas quais também se indica a ele quais são as ações que deve realizar e quais deve evitar, pelas quais se o ajuda a descobrir quais são as opiniões verdadeiras que ele deve seguir e as opiniões falsas que ele deve evitar, é assim que se nutre esse alguém com discursos verdadeiros”

– Foucault, Coragem da verdade, p. 96

A morte de Sócrates, de Jacques Louis-David

Ao escolher morrer,  beber a cicuta ao invés de fugir, Sócrates foi curado de uma opinião falsa. Ao longo do julgamento, foi oferecido a ele a oportunidade de absolvição caso ele deixasse de professar sua filosofia e, após a condenação, foi oferecida também a oportunidade de fugir. Mas Sócrates não cedeu à tentação de deixar de ser ele mesmo, não renunciou à sua verdade, não estava disposto a mudar nem fugir. Assim, sua morte foi uma cura, foi a consumação do risco que ele assumiu vivendo de uma maneira determinada, escolhendo falar a calar.

Verdade, coragem, força, virtude: tudo implicado. Coragem de pensar e de viver, de questionar e de propor. Mas quem é Sócrates? O que o faz especial? De onde vem a força da parresia? A resposta é tão bela quanto rara: harmonia entre pensamento e vida. A verdade se faz ver no corpo do parresiasta pelo seu modo de vida. Sócrates é aquele que vive em nome de sua missão – cuidar de si mesmo e dos outros. Univocidade – o pensamento, a fala e a vida como uma só e harmoniosa voz.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

5 comentários

  1. Sinto muito pelo texto de nosso Foucault.. Socrátes não existiu!!! Ele é invenção de Platão pra representar a RAZÃO no ocidente . É Foucault mesmo que diz; não há diferença nenhuma entre os textos de Platão e Sócrates.Sócrates é pura invenção, não há sinal de seu nascimento.Não há como prová-lo que existiu, o mais provável é que não existiu. abraços

    Curtido por 1 pessoa

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