Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem” – Oscar Wilde

Se os autores deste blog possuem alguma posição política, esta com certeza é anarquista. Nada de liberalismo, democracia representativa ou um socialismo fracassado. Nada de apostar na hierarquia ou nos poderes constituídos. Todo aquele que questiona  as autoridades que o rodeiam sabe o que significa ser anarquista. Todo aquele que desconfia do poder sabe o que significa ser anarquista. Todo aquele que procura a horizontalidade em suas relações tende para o anarquismo.

Anarquia é ordem“, já disse Proudhon, não “caos” ou “bagunça”. Etimologicamente, a palavra é formada por an (sem) e archon (governante). Ou seja, anarquia significa “sem governo” ou também “sem governante”. Toda forma de anarquia, porque existem várias, entende que a melhor forma dos indivíduos se organizarem é sem um poder constituído. Isto porque esta forma de governo necessariamente se utilizará de seus poderes para oprimir o povo e buscar privilégios para si. Todo governo é uma ofensa à liberdade.

anarquismo3É claro que se a anarquia aposta na autonomia do sujeito e em seu potencial criativo ao invés de conformado, então é de se esperar que várias formas de anarquia tenham surgido com o passar do tempo. O coletivismo, defendido por Bakunin, defende que o social deve prevalecer sobre o individual, a sociedade seria autogovernada por indivíduos livres. O anarcossindicalismo aposta na força dos sindicatos que trabalhariam para diminuir e posteriormente extinguir os malefícios dos sistema capitalista, se utilizando de sua principal arma: greve geral. A associação de egoístas foi idealizada por Max Stirner e aposta na vontade individual das pessoas que se associam por benefício próprio e assim encontram a melhor forma de organização para si. É possível até mesmo pensar no anarquismo cristão de Tolstói. São muitas formas possíveis e por isso não convém focar nestas questões pois nosso espaço é curto. O principal a se dizer é que todas estas formas de organização buscam a abolição do poder e das autoridades.

Ser governado é ser vigiado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, arregimentado, encurralado, doutrinado, catequisado, examinado, avaliado, censurado, comandado, tudo por criaturas que não têm o direito, nem a sabedoria, tampouco a virtude” – Proudhon.

Anarquismo não significa poder ao povo. Primeiramente porque não saberíamos dizer o que significa o conceito “povo”, e também porque somos contra qualquer forma de poder concentrado, ele deve ser cada vez mais diluído na malha social e por fim completamente suprimido. Toda forma de autoridade é ruim, até mesmo a do povo.

O poder é a última arma que alguém possui, a última (e muitas vezes a única) possibilidade de que alguém pode se valer. Primeiro a sedução, depois a suposta troca justa, então a autoridade e por último o poder. Por isso ele é fraco, torna-se necessário apenas quando todas as outras formas de relacionar-se já se mostraram ineficazes. Mas a dominação deforma e atrofia a potência do indivíduo. Nada de bom pode sair da autoridade porque seu modo de atuar é apenas constrangindo, coagindo e violentando o outro. Isso significa que o anarquista é um homem que aposta em sua própria potência e é capaz de contar cada vez mais consigo mesmo.

Todo anarquista luta somente contra o poder constituído, porque este é responsável pela impotência dos indivíduos. Investir em si significa potencializar-se e não tornar-se poderoso. Existe uma diferença clara: 1º) Potência: os dois ganham, opera em conjunto, aumenta nossa capacidade de agir. 2º) Poder: um ganha e outro perde, opera-se no outro, utiliza-se da potência do outro (ver aqui). Um homem livre não se envolve em relações de poder, apenas de potência. Toda potência desinveste no poder porque todo poder é uma forma de impotência.

Você já viu algum tirano feliz? Nenhum anarquista quer violar ou forçar o outro, ele aposta na harmonia que se faz no processo, ele cria novas possibilidades de relação porque notou que as atuais não funcionam. Assim como uma dança, o movimento da sociedade deve ser feito em conjunto, observando os passos dos outros e confiando no ritmo dos movimentos. Mas estamos demasiadamente cansados e assustados para fazer algo (veja aqui). Existe uma produção de subjetividades que impede qualquer forma de organização que não seja a atual; e assim continuamos vivendo uma vida miserável.

A anarquia é necessariamente política, mas reflete também um modo de vida, uma postura. A capacidade de apostar no devir, em experimentar novas formas de organização menos artificiais e externas, menos autoritárias e infelizes. Talvez por isso o anarquismo seja visto muitas vezes como violento. Mas isso não é verdade, não é violência, é uma força interna que busca novos arranjos, um desconforto que procura por novas possibilidades. Não somos niilistas (nada neste blog pode ser considerado niilista). Nossa vontade de destruir provém de uma vontade ainda maior de criar:

Depositemos nossa confiança no eterno espírito que destrói e aniquila apenas porque é a insondável e infinitamente criativa origem da vida. A paixão por destruir é também uma paixão criativa!” – Bakunin.

Seguimos as palavras de Nietzsche que não queria seguir ninguém e nem que ninguém o seguisse. Ou, como foi pichado nas paredes da Sorbonne no ano de 1968: “Nem Deus, nem mestre”. Encontrar seu próprio caminho, sua própria lei, esta é a melhor alternativa.

Se a pergunta: como se pode ser anarquista, hoje? pode ser feita, a resposta parece imediata: instalando ética e a política sobre o perpétuo terreno da resistência.  Palavra-mestra, ambição cardinal do libertário. Resistir, a saber, nunca colaborar, nunca ceder, guardar em poder de si tudo que faz a força, a energia e a potência do indivíduo que diz não a tudo aquilo que visa a diminuição de seu império, senão o puro e simples desaparecimento de sua identidade. Recusar os mil laços feitos, ridículos, irrisórios, que acabam por produzir a sujeição dos mais vigorosos gigantes” – Onfray, A Política do Rebelde, p. 195

dont-tell-me-what-to-do

4 comentários

  1. Não querendo enlamear o caminho de tão jovens estudantes.
    Em uma só palavra: impossível !

    Só voltando a sermos ÍNDIOS , a um estagio pré EGO.
    Lamento

    R.A. 68 anos.

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  2. ¨A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.¨
    Eduardo Galeano, 74.

    Curtido por 1 pessoa

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