Em Ecce Homo, Nietzsche nos diz que a Genealogia da Moral, publicada em 1887, apresenta três decisivos trabalhos de um psicólogo, preliminares a uma transvaloração de todos os valores. Três dissertações sustentadas num só projeto, apresentado nos primeiros parágrafos do livro: qual será a origem dos nossos preconceitos morais? É através de uma inspeção genealógica, que se apropria da história buscando não as essências, mas os sentidos que preenchem o vazio das palavras que Nietzsche esboçará uma resposta. E quais são as palavras fundamentais quando tratamos de moral? Bem e mal, obviamente.

Como não é raro em outros livros do autor, a Genealogia de Moral começa com uma recusa: “nós homens do conhecimento, não nos conhecemos; de nós mesmos somos desconhecidos”. Com isso, Nietzsche está recusando todo um modelo de conhecimento, toda uma teoria da verdade com a qual a ciência e a filosofia operaram até então. Ele diz: “nas experiência presentes, receio, estamos sempre ausentes: nelas não temos nosso coração – para elas não temos ouvidos”. Nossas meditações estão contaminadas pela vontade de verdade, assunto então já bastante desenvolvido em Além do Bem e do Mal. Esta primeira recusa já aponta um primeiro caminho fundamental da Genealogia: deixemos a verdade de lado, interpretemos os afetos, preocupemo-nos com a vontade de potência e sua história. A Genealogia é usada por Nietzsche como estudo das condições de criação dos valores, conhecimento dos elementos através dos quais decorrem os valores.

A recusa do conhecimento dos homens parte de uma desconfiança com relação a todo sagrado. Qual a história por trás das singulares morais que falam de universais? A verdadeira genealogia desconfia de qualquer conceito supostamente unívoco, de toda pretensão metafísica de encontrar dados eternos. A própria imparcialidade deve ser investigada. Seja divina seja humana, pouco importa a utilidade ou finalidade suprema. Em seu comentário à genealogia nietzscheana, Foucault acerta em cheio quando afirma que o real sentido histórico é aquele que reintroduz todo eterno no vir-a-ser. Nossos metafísicos veem na origem um pacto com a perfeição, já Nietzsche diz: “certas origens são baixas, não há qualquer origem sublime, o que há é dominação, um jogo entre necessidade e acaso”.

Em outras palavras, Nietzsche procura revisar nossos preconceitos morais a partir do valor dos valores e não numa suposta origem natural ou a-histórica dos mesmos. O que interessa é perguntar à história: sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? Quem quer o bom e o mau? Sob que condições fabricamos os conceitos de “bom” e “mau”? Mas é a pergunta seguinte que de fato torna a Genealogia pertinente:

Que valor tem eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indício de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revelam-se neles a plenitude, a força, a vontade de vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro?

Como se sabe, a resposta não será muito positiva. Ressentimento, má consciência e valores ascéticos regeram a vida do homem e o levaram a um estado em que a sua vontade se voltou contra a vida. É através da análise do niilismo, isto é, do homem do ressentimento que Nietzsche aponta uma nova trilha para a superação do mesmo. Para ele, entender o que levou o homem à decadência nos induz a buscar um novo homem e uma nova psicologia, onde a vontade não mais esteja contra a vida. Se trocamos a vontade de verdade pela vontade de potência, então deve-se procurar entender: que potência é esta que cria precisamente estes valores?

Colocar o valor dos valores em questão, este é o método nietzscheano. Culpa, humildade, compaixão, amor ao próximo, ideais transmundanos – qual o valor desses valores? Tomar esses valores como dados, caídos do céu, como Leis e imperativos categóricos é um caminho sem volta onde a fraqueza está sempre à espreita. Nietzsche quer desmascarar a moral! “De que modo precisamente a moral seria o perigo dentre todos os perigos?”

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Companhia das Letras, Trad. Paulo César

Nossa análise seguirá os capítulos do livro Genealogia da Moral:

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