Skip to main content

São tantos os jeitos de fazer. Qualquer coisa, mas na ocasião deste texto me refiro à filosofia. Embora essa opinião incomode boa parte dos reverentes estudiosos do cânone, o fato é que a filosofia se manifesta de diversas formas: vai do colóquio de especialistas à conversa pelo whatsapp, passando pela mesa de bar. Dada a diversidade, muitas vezes me pego pensando sobre o modo como eu faço filosofia. Recusei a carreira acadêmica alguns anos atrás, e estou aqui para contar como foi esse processo, e também para pensar o que eu acho que tenho feito. Talvez essa retrospectiva seja um bom jeito de começar o ano, afinal o recomeço é a oportunidade para uma reavaliação.

Embora tenha sido importante na minha trajetória, eu nunca me senti pertencente ao ambiente da filosofia universitária. As aulas me colocavam em contradição: por um lado, me sentia ignorante e provocado a estudar; por outro, suava frio quando precisava levantar a mão para tirar uma dúvida. A postura filosófica dos professores – soturna, séria, sóbria – me intimidava. A maioria deles não parecia se incomodar com o silêncio dos alunos. Presenciei, mais vezes do que gostaria, o descaso dos doutores com uma pergunta ingênua. Era um ambiente hostil para mim que havia descoberto a filosofia muito cedo a partir da amizade, em longas conversas livres, enquanto caminhávamos sob a chuva ou à beira mar.

Não me arrependo de ter passado pela academia. Descobri a razão de seu rigor, conheci pessoas dedicadas, tomei contato com temas que eu não teria buscado por conta própria, aprendi a ler e escrever melhor – mas a institucionalidade pesou sobre mim. Foi num dia de grande constrangimento que tomei consciência do meu desejo de abandonar o curso. O departamento de filosofia produzia uma revista por meio de um programa de extensão tocado pelos alunos. O Razão Inadequada estava começando nessa época, e nós havíamos acabado de imprimir a primeira revista, que eu havia ilustrado e diagramado. Estávamos orgulhosos e empolgados. Pensei que essa era uma chance de conciliar duas experiências diversas que eu tinha com a filosofia, a autônoma e a acadêmica. Além disso, eu sentia que a extensão tinha mais a ver comigo do que a pesquisa. Talvez, eu pensava, minhas habilidades com a comunicação sejam bem vindas.

Fiz uma prova de filosofia, outra de idiomas, e fui chamado para a entrevista com os professores que coordenavam o projeto. Enquanto eu esperava minha vez, conversei com dois alunos concorrentes que competiam seus conhecimentos no corredor. Contestavam um ao outro usando nomes de autores que às vezes pareciam inventados. Me chamaram para a sala. Entrei animado com as revistas recém impressas debaixo do braço. Três professores estavam lá para me avaliar. Enquanto presenteava cada um deles com um exemplar, contei do meu percurso na graduação e da minha experiência escrevendo na internet. De cenho franzido, eles folhearam a revista em silêncio. Sobre ela, só uma pergunta foi feita, em tom ríspido: “Então você pensa que Nietzsche pode ser de esquerda?” Encabulado, respondi que alguns autores sustentavam essa tese. Ao fim da breve entrevista, eles me devolveram as revistas, desinteressados, e eu fui encaminhado para outra sala, onde conversaria com os alunos que atualmente faziam parte do programa. Lá, eles elogiaram as cores da revista, mas disseram que uma revista acadêmica era muito diferente daquilo.

Abandonei o curso nos últimos semestres, e também não me arrependo disso. Embora ali eu encontrasse a seriedade, já não encontrava a alegria. Hoje, tenho por certo que a filosofia me acontece melhor como festa, na troca entusiasmada que eu tenho com os outros, a despeito da formação, independente do cargo. Me basta a amizade. Não que os momentos silenciosos de estudo, leitura e escrita tenham desaparecido, longe disso, mas eles não são a melhor parte. O que me contenta é ter continuado com a filosofia, e encontrado nela um caminho de partilha. Não me tornei um especialista, não sei todos os detalhes da obra de nenhum autor, continuo sendo mais aluno do que professor, mas sei que fiz do pensamento um movimento generoso, que tem produzido em mim e nos outros o gosto pela filosofia.

Recusar a carreira acadêmica me causou um desamparo na profissão, mas foi também o que me levou a buscar outros caminhos. Se hoje sou escritor, é por ter deixado a universidade. Considero, obviamente, a pesquisa como fonte de grande valor, mas sinto que, muitas vezes, os seus rigores castram o texto. Só de cogitar o processo da escrita acadêmica, perco a vontade de escrever. É mais ou menos como um dialeto que eu não gosto de falar. Isso porque o que me interessa no ato de escrever é menos o de explicar do que o de fazer sentir: em prol do desejo, eu muitas vezes sacrifico a lógica.

Sustento algumas escolhas estéticas que podem parecer mero estilo, mas são mais do que isso, são um método. Primeiro, o texto curto. Não raro, a brevidade é tratada com desdém pelos filósofos. A ausência de sistema é vista como pecado: textos rasos. Penso de outra maneira. Gosto da superfície, pois quando bem apresentada convida ao mergulho. E não sinto tanta necessidade de me aprofundar nos temas pela escrita, pois prefiro elaborar acompanhado – pensar junto -, e confio que cada leitor ou leitora que toma contato com meus textos encontrará companhia para tanto. Além disso, apresentar as ideias de maneira breve me permite cuidar de cada palavra, o que me leva à segunda escolha.

A poética – aos desatentos, ela é apenas uma forma de escrever bonito, um frufru na linguagem; aos lógicos, ela só desvia da proposta, um imbróglio na argumentação; aos ortodoxos, ela não passa de uma confusão com a literatura, um descaso com a filosofia. Cada um deles tem suas razões. Eu, porém, defendo que a poesia não se resume a um gênero de escrita, é um modo de fazer a palavra falar e ser ouvida. O que almejo ao escrever bonito – ou confuso, como queiram – é produzir em quem lê ao menos uma parte daquilo que eu sinto ao pensar. A estética é mais do que uma preocupação com o belo, e a fronteira entre filosofia e literatura é mais porosa do que se faz crer. Não acredito que uma precise abrir mão da outra para se afirmar.

Por último, o ensaio. Eu escrevo para retratar um movimento íntimo. Muitas vezes não tenho certeza do que é que eu estou falando ao começar um texto. Escolho um tema, pesquiso, anoto uns tópicos, mas as ideias mais interessantes vão surgindo enquanto enfileiro as letras. Ou seja, boa parte da reflexão acontece durante o texto, e é isso que eu tento registrar: o pensar como exercício. No conjunto geral, meus escritos são efêmeros, não reportam a um sistema, mas me agrada o esforço de pensar uma verdade por vez. Não tenho tese única, o pensamento me ocorre como discurso, isto é, como um movimento acelerado, que corre pra todo lado. Meu ofício é o de transcrever os trajetos que parecem interessantes.

Estes traços gerais que hoje definem a minha escrita – a brevidade, a poética e o ensaio – começaram a se afirmar com radicalidade depois que saí da universidade. Aos poucos me dei conta de que o custo da liberdade foi a deserção. Não foi nada fácil o percurso, mas o que ontem era trauma, hoje sinto como sorte. Na vida, acontece de precisarmos antes descobrir aquilo que não queremos, para depois ter alguma ideia daquilo que queremos. Na academia experimentei um modo de fazer filosofia, hoje me sinto seguro para dizer: conheço outros, e os prefiro.


Referências 

Pensar Nagô, Muniz Sodré
O prazer do texto, Roland Barthes
As margens da filosofia, Jacques Derrida
Os Ensaios, Montaigne

 

Como citar

LAURO, Rafael. Relato de um desertor. Razão Inadequada, 2025. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/01/21/relato-de-um-desertor/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

Mais textos de Rafael Lauro
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments