Skip to main content

Carrinho

Close Cart

“Querias ser livre. Para essa liberdade, só há um caminho: o desprezo das coisas que não dependem de nós”
– Epicteto

O Dicionário costuma definir os estoicos como seres insensíveis aos males, absolutamente impassíveis, aqueles que possuem austeridade de caráter em face de qualquer perigo, rigidez de princípios, resignação contra a dor, firmeza frente aos acontecimentos, capacidade de extirpar as paixões e aceitar o que destino lhe reserva.

Pois bem, esta imagem não está de todo errada. Mas trata-se de uma caricatura limitada que não reflete toda a riqueza da filosofia estoica. Além do mais, apenas com estas características, não é possível compreender a profundidade de sua filosofia e como os estoicos adquirem esta personalidade.

História

Mesmo sendo uma filosofia nascida em Atenas, os estoicos, em sua maioria, eram estrangeiros. Ou seja, não eram cidadãos gregos e portanto não possuiam a maioria dos direitos dos cidadãos atenienses.

Zenão de Cítio

Tudo começa com Zenão (334 a.C. – 264 a.C.), ele é considerado o fundador do estoicismo. Ele era um homem baixo, magro e de pele negra, que veio de Cítio, do outro lado do mar egeu, na ilha de Chipre, para Atenas. Conta-se que era mercador e que trazia mercadorias, mas seu barco afundou e ele chegou em Atenas sem nada.

Conta-se também que Zenão consultou o Oráculo e perguntou qual o melhor modo de se viver, e obteve como resposta: “tornando-se da cor dos mortos”. Desta maneira, Zenão passou a estudar seus predecessores e se apaixonou pelos ensinamentos de Sócrates.

Mas tornar-se da cor dos mortos não era o bastante, um dia, numa livraria perguntou onde poderia encontrar homens como estes que conhecia nos livros. O mercador apontou e disse: “ali está um”. E assim Zenão tornou-se discípulo de Crates, que, por sua vez, foi discípulo de Antístenes, da escola dos Cínicos (tal como Diógenes).

Os cínicos eram adeptos da filosofia escancarada, baseada na virtude, com uma atitude mordaz (com o perdão do trocadilho) para todas as convenções sociais. Esta audacidade escandalosa era uma maneira de conseguir alguma reação dos espectadores e fazê-los refletir sobre suas vidas.

Mas esta filosofia não combinava com a personalidade reservada de Zenão, ele era um homem calmo, pacato, não frequentava os festins, preferia ficar ao sol e comer figos verdes. Ainda assim, da filosofia cínica nasce uma das maiores máximas estoicas: “viver conforme a natureza”.

Zenão começa a ensinar com cerca de 42 anos no Pórtico Pintado em Atenas, um espaço aberto onde todos podiam acompanhar suas aulas. Sua escola de pensamento ficou conhecida pelo lugar onde ensinava, em grego, stoa, portanto: os estoicos.

Seus ensinamentos se tornaram conhecidos e passaram a rivalizar com os filósofos de seu tempo: platônicos, aristotélicos, megáricos, e principalmente com os epicuristas. Foi Zenão quem colocou os fundamentos do Estoicismo, mas sua filosofia, felizmente, não morreu com ele.

Cleanto de Assos

Cleanto nasceu em Assos, em Tróade, também do outro lado do mar Egeu, onde hoje se localiza a Turquia. Seu nome é na verdade um apelido e significa: “carregador de água do poço”, porque, para sobreviver, retirava durante à noite água dos poços. 

Apesar da probreza em que vivia, ou talvez por isso, começou a aprender filosofia com Crates, filósofo cínico, optando depois pelos ensinamentos de Zenão de Cítio. Cleanto era forte e paciente, ou talvez poderíamos dizer teimoso e resistente. Sua personalidade combinava com o estoicismo.

Talvez por isso tenha sido escolhido como sucessor de Zenão, provavelmente por seu respeito e fidelidade aos princípios dos ensinamentos estoicos. Sua resistência e sua constância. Mesmo sendo o sucessor de uma grande escola de filosofia, Cleanto continuou a ganhar seu sustento com o trabalho braçal. Mas como não rivalizava com a inteligência de Zenão, neste período o estoicismo ficou praticamente estacionado. Conservou-se, mas não inovou em nada. 

Cleanto nasceu em 331a.C. e dizem que morreu em 232a.C. com 99 anos de idade. A causa de sua morte teria sido uma infecção intestinal, que o impossibilitava de comer. Depois de jejuar por vários dias, os médicos disseram que já podia voltar a se alimentar normalmente, mas Cleanto se recusou, dizendo que já havia vivido o bastante, preferiu dar fim à própria vida. Seu sucessor foi Crisipo.

Crisipo de Solos

Crisipo é um dos estoicos mais conhecidos, com fama e importância comparável a de Zenão. Nasceu em 280 a.C. em Solos (também localizada na atual Turquia).  Como todos os anteriores, manteve um vida simples durante toda sua existência.

Foi Crisipo quem reestabeleceu a força e unidade da filosofia estoica, escrevendo inúmeros textos sobre a escola, dando novo vigor aos conhecimento anteriores e criando novos conceitos (como por exemplo, “premeditatio malorum“). 

A filosofia estoica floresceu neste período, entrando em muitos debates e discussões. Crisipo era muito seguro de si e de seus conhecimentos, ousado, desafiava outras escolas a exporem seus conhecimentos também. 

Poucos tinham coragem de discutir com Crisipo pois ele tinha absoluto conhecimento da dialética e da erística, dominando com facilidade os argumentos de seus adversários. Diziam inclusiva que se os deuses tinham algum conhecimento de dialética, certamente seria a de Crisipo.

O filósofo morreu em 210 a.C., com 70 anos. É o primeiro caso documentado de Hilaridade Fatal, pois dizem que morreu de tanto rir após ver um burro comendo seus figos. 

Durante o período médio o estoicismo perdeu parte de sua originalidade, sendo influenciado por diversas outras escolas, como o platonismo e o aristotelismo. O Estoicismo médio, séc I e II, possui representantes como Panécio e Posidônio.

Estoicismo Romano

As principais obras que nos chegaram foram do período Imperial. Nesta época, o estoicismo torna-se quase que exclusivamente voltado para a ética. Isso não é um defeito, mas nos impede de ver outras características importantes que dão suporta a esta filosofia helênica. Isso torna o Estoicismo Imperial muito famoso e com grandes representantes: (50 – 130), Marco Aurélio (121 – 180)

Sêneca

Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha,  em 1a.C. e estudou em Roma com um mestre pitagórico e outro estoico. Tornou-se advogado e homem de letras, e ficou muito rico. Como escritor, foi muito profícuo e escreveu diversos tratados sobre os mais variados assuntos, acolhendo inclusive influências de outras escolas como o Epicurismo.

Por problemas políticos, passou oito anos exilado na Córsega, mas foi chamado de volta à corte. Com 50 anos, foi-lhe confiada uma importante missão, ser o tutor de Nero, futuro imperador. Seu aluno era impertinente e teimoso, mas Sêneca fez o melhor que pode e quando Nero subiu ao trono, o filósofo permaneceu como um de seus principais conselheiros.

Mas Sêneca caiu em desgraça ao ser acusado de participar de uma conjuração contra o Imperador, o que é falso. Injustamente foi condenado a cortar as próprias veias, o que fez, em obediência às ordens de seu imperador, morrendo em 65d.C.

Epicteto

Epíteto não é um nome, é um apelido, significa “O Adquirido”, pois Epicteto era um escravo. Nasceu em 50d.C. e foi comprado em Roma por Epafrodite. Muito mal tratado no começo, ganhou o respeito de seu senhor devido sua firmeza de caráter. 

Isso o permitiu frequentar as aulas de Musônio Rufos, com quem foi iniciado no estoicismo. Quando foi liberto, Epicteto passou a viver de maneira muito simples, em uma cabana com pouquíssimos pertences e que permanecia sempre de porta aberta.

Em 93 d.C. o Imperador de Roma expulsa todos os filósofos da Itália. Epicteto então vai para a Grécia e funda sua escola em Nicópolis. Lá ensinou por muitos anos, mas não deixou nada escrito (como Sócrates e Diógenes). Os ensinamentos nos chegaram através das anotações de seus discípulos.

As ideias de Epicteto são claramente estoicas, mas se afastam da Lógica e da Física, preferindo manter-se na ética e na prática de vida. É dele a frase “Abstem-te e suporta”. Todo o esforço de Epicteto vai na direção do autocontrole, pregando a liberdade interior.

Marco Aurélio

Ao contrário de Epicteto, Marco Annius Verus estava predestinado a se tornar Imperador da maior potência política do ocidente, Roma. Nasceu em 121d.C e tornou-se protegido do imperador Adriano. 

Interessou-se por filosofia desde cedo e aos doze anos adotou o modo de vida estoico, vivendo de maneira modesta e sóbria por toda a sua vida. Ao ler Epicteto, Marco Aurélio percebe que deveria a filosofia seria um trabalho reflexivo de toda uma vida e que ele deveria se esforçar para formar seu caráter e dominar suas paixões.

Tornou-se imperador em 161 e adotou o nome de Marco Aurélio. Seu reinado foi marcado por inúmeras guerras, levando o imperador a passar quase o resto de sua vida na frente de batalha. 

Ao morrer, foi descoberto um Diário, com anotações que o Imperador fazia ao cair da noite, quando estava sozinho e podia refletir em paz. as “Meditações” eram reflexões pessoais, não destinadas a serem publicadas. Pode inclusive ser traduzido como “reflexões para mim mesmo”. Ou seja, é uma obra de filosofia destinada não ao grande público, mas a si mesmo. É hoje uma das mais importantes obras do estoicismo e de grande importância filosófica. 

Depois de Marco Aurélio a filosofia estoica não conheceu outros grandes representantes. Mas sua força continua pungente, influenciando praticamente todas as escolas posteriores. 

A escolástica leu muito e absorveu muito dos ensinamentos estoicos. Descartes conhecia de cor o Manual de Epicteto, Pascal os admirava, Espinosa aprendeu muito com eles, Kant também, e até mesmo o teimoso Nietzsche poderia admitir a influência de um ou dois pensamentos. Ou seja, a filosofia estoica continua presente.

“Tudo que é do corpo é um rio; o que é da alma, sonho e névoa; a vida, uma guerra, um desterro; a fama póstuma, olvido. O que, pois, pode servir-nos de guia? Somente a Filosofia” – Marco Aurélio

Séries sobre os estoicos

Marco Aurélio – Meditações