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Am@r

O verbo fundamental

Não cabe a nós enumerar “as sem-razões do amor“, mas sim encontrar um ética da doçura. Amamos por amar, deste jeito mesmo, em estado de graça. este é um dos poucos casos onde é mais importante viver do que entender. Somos amantes, amadores iluminados. Engraçado, nos chamam de inadequados, mas nós apenas amamos por amar. Nosso “amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse“. Por tédio, queimamos dicionários e regulamentos, para encontrar o que se conjuga em um só momento em nós e no outro. Chega de amores gris, em nossa busca regamos flores em terras inférteis, queremos viver para ver as primeiras mudas crescerem.

Afinal, o que poderíamos “senão, entre criaturas, amar? Amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? Sempre, e até de olhos vidrados, amar?“. Hinos serão cantados, não para sua parente distante, a morte, mas para aqueles que venceram o horror, o medo, o desamparo; porque, “por mais que o matem (e matam)“, cada instante de amor é sagrado, infinitamente sagrado. E por isso queremos ampliar instantes, estender momentos, fazê-los perdurar, retornar, repetir sua potência, ampliar sua diferença.

Me digam, o que mais poderíamos além de, avidamente, “conjugar o verbo fundamental, essencial, o verbo transcendente, acima das gramáticas e do medo e da moeda e da política“? O sentido, o semsentido, o confundido, (o infelizmente ressentido,) o mais leve dos pesos. A “razão de ser e de viver“, trampolim para o mistério, salto para o inusitado, recriação do desconhecido. “Amar o inóspito, o áspero” e, muitas vezes, o proibido. Sem meditar, indelicadamente, com desmesura, desatenção. “Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar?“.

Somos filósofos, somos lunáticos, somos poetas presos à vida. Os taciturnos que abracem seu mundo caduco e cantem o futuro distante. “O presente é tão grande, não nos afastemos“, vamos andar juntos, cada um com seu jeito de amar, suas particularidades, “vamos de mãos dadas“, cada um procurando companhia em meio a outras companhias, há tantas! Vamos juntos, mais uma vez ou ao menos uma vez: pares, trios, polis, pluris, héteros e homos, heterônimos! Sem entorpecentes ou cartas suicidas, sem bombas terroristas ou silêncios perpétuos, sem gritos de horror ou lamentos de dor. Fazer da mesmice uma novidade, esta é a nossa matéria: “o tempo presente, os homens presentes, a vida presente“. Olhar com espanto e desatino, consentir com sentir, “este o nosso destino: amor sem conta“.

(texto baseado nas poesias de Carlos Drummond de Andrade)