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Genealogia da Moral

Ensaio sobre o Ressentimento e a Má Consciência

Estes são todos homens do ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos, todo um mundo fremente de subterrânea vingança, inesgotável, insaciável em irrupções contra os felizes, e também em mascaramentos de vingança, em pretextos para vingança: quando alcançariam, realmente o seu último, mais sutil, mais sublime triunfo da vingança? Indubitavelmente, quando lograssem introduzir na consciência dos felizes sua própria miséria, toda a miséria, de modo que estes um dia começassem a se envergonhar da sua felicidade, e dissessem talvez uns aos outros: ‘é uma vergonha ser feliz! existe muita miséria!’… “

– Nietzsche, Genealogia da Moral, terceira dissertação, §14

Para Nietzsche, a atualidade se constitui como niilismo, e seu resultado inevitável é o ressentimento. Este afeto é tão difundido em nossa sociedade que mereceu uma análise mais atenta de nossa parte, usando como principal interlocutor o livro Genealogia da Moral, do filósofo alemão. Em primeiro lugar, o ressentido é intolerante, ele recusa a diferença e o devir, além de ter ódio do mínimo desvio da norma. Então ele agita as mãos gritando por justiça e lei, mas nós nos perguntamos: que justiça, que lei?

"Homem tricotando o fio da meada de seu próprio coração" Susano Correia

Todos os textos da série são ilustrados com os desenhos de Susano Correia

Ou seja, sofremos de uma impotência para admirar uma força que se afirma, morremos de medo da mínima possibilidade de transvaloração dos valores, queremos paz estupidificante, o sono dos justos. O ressentimento é hostilidade para com o mundo e a busca por um entorpecimento contra ele. Um estimulante (que evita perder-se na dor), um narcótico (que evita que a dor nos consuma). Ou seja, ressentimento é a anestesia contra todos os sofrimentos crônicos que tomam de assalto nossa vida, nossa consciência, ele é nosso narcótico, o remédio que faz efeito permite que a vida continue.

Psicologia e Ressentimento

Neste contexto, Nietzsche desenvolveu sua Psicologia como uma tipologia, uma genealogia das forças e análise de sua distribuição em um mesmo organismo. Temos o nobre e o escravo. O que acontece com o pensamento sob a pressão da doença? Temos que tomar cuidado, um filósofo da suspeita sempre se pergunta, “foi aqui a doença que inspirou estes pensamentos?”. Nietzsche acredita que é possível filosofar à sombra do niilismo, mas que nosso maior inimigo é o ressentimento e a má consciência.

O homem está cansado, e nós estamos cansados do homem. Nossa ideia é pegar os movimentos reativos e levá-los novamente para um terreno ativo. Encontrar onde a planta do ressentimento começa a fincar suas raízes para podá-la! Sim! Por ser vetado ao ressentido a verdadeira felicidade, ele precisa fingi-la aos olhos alheios, cabe a nós entender esta farsa e encontrar saídas mais potentes, buscar horizontes alargados.

Esta é a difícil tarefa do filósofo, andar pelo lodaçal da doença sem se deixar sujar pelo ressentimento. A Genealogia da Moral é a avaliação prévia ao: amor fati. Mais do que nunca essas reflexões filosóficas precisam ser feitas: O homem do ressentimento precisa ser superado!

Má Consciência

Vejo a má consciência como a profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão da mais radical das mudanças que viveu – a mudança que sobreveio quanto ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz”

– Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, §16

O ressentimento possui um desdobramento decadente e triste. Já dizia Nietzsche, todos os instintos que não se voltam para fora, voltam-se para dentro. A má consciência é o sintoma de uma alma doente, profundamente afundada no ressentimento e na impotência. Indício claro e inequívoco de que os impulsos e instintos essenciais da alma humana foram suprimidos em nome da boa convivência em sociedade. Mas onde nasce a má consciência? Na alma do animal de rebanho que passa a viver em cultura, na alma amante do perigo que precisou abdicar das guerras em nome da paz.

Impulsos voltados para dentro

Este rompimento causa uma desorganização das pulsões com severas consequências! A Má consciência, sinal que os impulsos que antes eram voltados para fora, agora foram interiorizados, voltando-se contra nós. O homem está doente, mas de quê de quem? Ora, a resposta não poderia ser outra: dele mesmo, de sua maneira de viver, de seus hábitos e crenças. Doença causada pelos valores que carregamos, impotentes e ressentidos.

Por tédio, o ser humano passa a exercer violência contra si mesmo, volta sua crueldade contra a sua própria alma, alargando-a no processo. Como se não pudesse priorar, temos a ação do sacerdote ascético, que torna a má consciência algo de permanente na subjetividade, interiorizando os impulsos e assimilando a culpa. A Má consciência é a maneira pela qual o homem se torna eternamente responsável por sua dor, afundando-se nos charcos do niilismo passivo.

Psicologia de um Vencido – Augusto dos Anjos

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!