“Satisfaz tua paixão pela ciência”, diz a natureza, “mas cuida para que essa seja uma ciência humana, com direta relevância para a prática e vida social. […] Sê um filósofo, mas, em meio a toda tua filosofia, não deixes de ser um homem”

David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano

Vida

No último ano de sua vida, David Hume escreveu uma pequena autobiografia de 5 páginas chamada Minha Própria Vida. Nela, ele conta resumidamente os fatos mais relevantes de sua história como escritor:

É difícil para um homem falar longamente acerca de si próprio sem ser vaidoso, portanto devo ser breve…”

David Hume nasceu dia 26 de Abril de 1711 na Escócia, Reino Unido. O pai era advogado e dono de uma pequena propriedade, morreu cedo. A mãe era calvinista e teve a ajuda do irmão pastor para cuidar dos filhos. Desde cedo, Hume não professava fé, mas, ao mesmo tempo, detestava se envolver em controvérsias. Nunca teve problemas familiares sérios por não participar da vida religiosa.

A família tinha uma pequena renda insuficiente para a independência financeira dos filhos. O irmão mais velho ficou com a maior parte da renda, Hume e a irmã mais nova dividiram o restante. Passados os estudos básicos, ele cursa artes na Universidade de Edimburgo por três anos, sem se formar, o que era comum à época. As aulas eram bastante elementares: grego, lógica, metafísica, filosofia natural, matemática e ética.

Hume retorna à propriedade da família em Ninewells, seu tio queria formá-lo advogado como o pai, mas em vez de estudar os juristas, o jovem filósofo devora secretamente Cícero e Virgílio. Se apaixona pela literatura e adquire “uma aversão insuperável a tudo que não fosse as investigações da filosofia e do aprendizado em geral”.

Com apenas 18 anos, abre-se para ele “o novo cenário do pensamento”, que seria exibido posteriormente em seu Tratado da Natureza Humana. A excitação da descoberta e a intensidade com que trabalhou abalaram sua saúde a ponto de ter fortes crises depressivas. Buscando alguma melhora, começa a se exercitar e se muda pra Bristol na Inglaterra para trabalhar como escrivão numa firma de comércio de açúcar, deixando os estudos em segundo plano.

Em poucos meses ele percebe que a vida comercial não lhe convinha. Então decide retornar aos estudos. Muda-se para França, volta à escrita do Tratado, utilizando a biblioteca jesuíta de La Flèche, onde Descartes havia estudado. Em 1737, a maior parte do livro já estava escrito e ele retorna a Londres procurando um editor. As principais ideias de Hume já estão nesse livro de juventude, que é considerado o principal, ainda que não seja o mais maduro. Demorou, mas ele conseguiu um editor e uma pequena quantia para a publicação de:

Tratado da Natureza Humana: uma tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais

Hume estava empolgado e imaginava que seu livro se tornaria um marco imediato na filosofia. No entanto, não foi o que aconteceu, ao menos não imediatamente. Segundo ele, “jamais uma tentativa literária foi mais infeliz do que meu Tratado. Saiu natimorto da prensa sem alcançar distinção para alcançar sequer um murmúrio entre os fanáticos”. Hume achava que o livro não tinha sido compreendido e publicou um panfleto anônimo em 1740 resumindo o livro, mas isso também não funcionou.

Hume acaba se arrependendo do livro, assume a culpa por sua falha e tenta desautorizá-lo. No entanto, não desiste de escrever. Quando publica os Ensaios Morais e Políticos, descreve-se como um novo autor. Os ensaios fizeram um pouco mais de sucesso, eram abrangentes e tratavam de uma grande gama de assuntos. A publicação rendeu algum dinheiro a Hume e também o estimulou a tentar a cadeira de Ética na Universidade de Edimburgo. No entanto, o reitor da universidade publica uma carta com trechos do Tratado acompanhados de acusações como ateu, herético e cético, e assim consegue impedir que Hume assuma o cargo.

Ainda sem uma fonte de renda, Hume aceita uma proposta para ser o tutor do Marquês de Annandale, um jovem excêntrico em St. Alban, perto de Londres. O que provavelmente atraía Hume era o tempo livre para escrever e é nesta época que ele escreve a Investigação sobre o Entendimento Humano, que é basicamente a retomada da primeira parte do Tratado, e é de fato um texto muito melhor escrito, diferindo mais em ênfase do que em argumentação. No entanto, o emprego não durou e ele foi demitido com um quarto do salário devido.

Novamente sem dinheiro, Hume pretendia voltar para casa quando recebe a notícia do falecimento de sua mãe. Desamparado, ele recebe a ajuda de um parente distante, o General Saint Clair, que o convida a ser seu secretário numa missão no Canadá, onde iria ajudar os ingleses a expulsar os franceses. Hume aceitou e juntou-se ao general na expedição, mas o vento não foi favorável e a expedição desviou para Bretanha, na França, retornando para o Reino Unido sem nenhum objetivo cumprido.

Hume continua sem dinheiro, retorna brevemente à propriedade da família, mas ainda em 1747 retorna a Londres e reencontra Saint Clair que lhe convida para uma missão diplomática em uniforme para Viena e Turim. Viajando ao longo de todo o ano de 1748, ele não vê de perto a publicação da Investigação, que começava a alcançar algum sucesso. Montesquieu, por exemplo, ficou muito impressionado com os escritos, enviou-lhe seu Espírito das Leis e eles tornaram-se correspondentes até a morte do francês.

Ainda insatisfeito com o alcance das ideais reformuladas do Tratado, em 1751 Hume reescreve a segunda parte do Tratado e publica como Investigações acerca dos Princípios da Moral. Considerado por ele “de todos os meus escritos literários, históricos e filosóficos, incomparavelmente o melhor”. Publica também seus Discursos Políticos e começa a redação dos Diálogos Concernentes à Religião Natural e a pesquisa para sua História da Inglaterra

Nessa época, começa a receber “respostas de altas eminências”, mas mantém-se resoluto na sua proposta de “nunca replicar a ninguém”. O irmão mais velho se casa, Hume decide morar com a irmã mais nova, juntando sua renda de 50 libras com as 30 da irmã. O êxito financeiro começa a surgir dos livros vendidos e do salário em Viena e Turim. Hume tinha uma vida social ativa, muitos dos seus amigos eram do clero ilustrado.

Ele estava preparado para mudar para Glasgow para assumir a cadeira de lógica na universidade, antes ocupada por Adam Smith que agora assumia a cadeira sobre moral, mas, mais uma vez, os fanáticos religiosos intervieram impedindo Hume de se tornar professor. Mais uma vez sem emprego, foi consolado pela nomeação como bibliotecário da faculdade de Advogados de Edimburgo. O salário não era bom, mas a biblioteca dava acesso a muito material para a escrita da sua História da Inglaterra. Emprego que também não dura muito, o filósofo decide se demitir quando uma lista de três livros encomendados por ele é considerada indecente, entre eles estavam as Fábulas de La Fontaine.

Ainda assim, Hume finaliza os 6 volumes da História da Inglaterra e os publica em ordem inversa, do mais recente para o mais antigo. Como o primeiro deles era o mais atual, acaba causando algum desconforto com os Whigs, o partido liberal inglês. Os direitos lhe renderam um bom dinheiro e o trabalho chegou a ser considerado uma realização excepcional por seus contemporâneos. Voltaire diz: “nada pode ser acrescentado à fama dessa História. Talvez a melhor escrita em qualquer língua”. Mais tarde, esses livros foram considerados mais filosóficos do que propriamente históricos, mas continuam sendo muito admirados.

Após a Guerra dos Sete Anos, em 1763, Hume é nomeado embaixador junto à corte da França. Chegando em Paris, ele teve extraordinário êxito social, “foi bajulado por príncipes, adorado por finas damas e tratado como oráculo pelos philosophes”. Seus amigos mais próximos eram os Enciclopedistas Diderot e D’Alambert e o materialista barão de D’Holbach. Há uma história de um jantar na residência de D’Holbach em que Hume diz jamais ter conhecido um ateu, ao que o anfitrião responde que ali ele encontrava 15 ateus e 3 indecisos. 

Sua principal admiradora era a Condessa de Boufflers, possivelmente apaixonada por ele, assim como ele por ela. Mas ela era viúva e já amante do Príncipe de Conti. Não se encontraram mais depois que Hume partiu da França em 1766, mas estabeleceram correspondência por mais de 10 anos. Uma semana antes de morrer, ele lhe envia uma carta onde escreve: “Vi a morte aproximar-se gradualmente sem qualquer ansiedade ou lamento. Eu a saúdo com grande afeição e consideração, pela última vez”. Esse é um dos poucos casos românticos que conhecemos da vida de Hume.

Quando saiu de Paris, levou consigo Jean Jacques Rousseau. Na Suíça e na França, as opiniões de Rousseau sobre a religião lhe atraíram muitos inimigos. Hume foi aconselhado por uma amiga em comum a tomar Rousseau sob sua proteção, o que ele aceitou, ainda que os amigos philosophes dissessem que Rousseau não era confiável. De início, eles se deram bem, embora Hume encontrasse dificuldade para encontrar um lugar onde Rousseau consentisse em viver. Hume conseguiu uma pensão real com Rei George para Rousseau, mas saíram críticas na imprensa inglesa e ele as atribuiu a Hume, que supostamente estaria conspirando com os philosophes franceses.

Este não era nem o primeiro nem o único episódio paranoico da vida do filósofo suíço. Rousseau recusa a pensão e redige cartas amargas aos amigos, à imprensa e até a Hume, que tentou provar sua inocência a Rousseau, enviando a D’Alambert um relato de tudo o que aconteceu e também as cartas, deixando a cargo deste publicar se achar que devia. D’Alambert publica e isso piora a relação com Rousseau, que abandona a Inglaterra em 1767 sem dar maiores satisfações.

Hume se mostrou um diplomata competente e conseguiu renda suficiente para retornar a Edimburgo em 1769, comprar uma casa em uma rua que seria teria seu nome como homenagem, St. David’s Street. Retomou a vida social e continuou a escrita de seus Diálogos Concernentes à Religião Natural, este publicado postumamente por seu sobrinho em 1779. Não era seguro publicar um livro com críticas à religião, ainda que elas estivessem bem encobertas dentro do texto.

Em 1775, segundo suas palavras, estava “com um desarranjo nos intestinos que, de início, não me alarmou, mas desde então, como percebi, mostrou-se mortal e incurável”. Segundo relatos, não foi uma morte sofrida e ele a encarou de modo sereno em 25 de Agosto de 1776. A vida de Hume confirma em grande parte sua autodescrição: “um homem de disposições suaves, de comando de têmpera, de um humor aberto, social e alegre, capaz de dedicação, mas pouco suscetível à inimizade e de grande moderação em todas as minhas paixões”.

“É evidente que todas as ciências têm uma relação, maior ou menor, com a natureza humana; […] nós não somos simplesmente os seres que raciocinam, mas também os objetos acerca dos quais raciocinamos”

David Hume, Tratado da Natureza Humana

Guia de Leitura

Hume é um filósofo muito estudado na história da filosofia. Isso significa que não faltam livros de introdução e também de aprofundamento. Ele foi apropriado por diversas filosofias como o pragmatismo, a analítica, o positivismo lógico, o behaviorismo e até pela filosofia da diferença. 

Sendo assim, há várias portas de entrada. No entanto, consideramos que o Resumo do Tratado da Natureza Humana, escrito pelo próprio autor, é o começo mais interessante. É realmente um resumo, tem pouco mais de dez páginas e apresenta o que há de mais fundamental nas ideias do primeiro livro do Tratado, dedicado ao entendimento. Nesse texto, Hume apresenta brevemente o problema da causalidade, que é, talvez, o tema de sua filosofia que ficou mais famoso.

Em seguida, indicamos a leitura da Investigação sobre o Entendimento Humano. Novamente um texto do próprio autor, e o motivo é bastante simples: Hume escreve este texto com a intenção de chegar aos leitores, de forma clara e concisa. É um livro curto onde ele coloca dúvidas céticas sobre o conhecimento e soluciona estas dúvidas com princípios explicativos, como o hábito.

Feito esse primeiro mergulho no próprio autor, indicaríamos algumas leituras auxiliares e introdutórias. Há muitos livros para isso, e aqui destacamos o livro de A. J. Ayer chamado Hume, e também o de Anthony Quinton, com o mesmo nome. Ambos possuem tradução em português pelas editoras Loyola e Unesp, respectivamente.

Daí em diante, o percurso é mais particular, mas é sempre indicado ler o Tratado da Natureza Humana e a Investigação sobre os Princípios da Moral, pois Hume não se dedicou somente ao entendimento. Sua intenção, desde o início, era passar da epistemologia à moral, tentando levar a filosofia moral a um campo tão próspero quanto o da filosofia natural (o que hoje chamamos de ciência).

Além disso, costuma-se desprezar os escritos de Hume sobre religião, mas absolutamente sem razão. Isso aconteceu em partes porque os leitores consideravam esses livros mais confusos, no entanto, é preciso perceber que a confusão é proposital, visto que, à época, não se podia tecer críticas à religião abertamente. Assim, os Diálogos sobre a Religião Natural e a História da Religião Natural são grandes livros que mostram não só uma crítica muito bem feita das bases argumentativas do pensamento religioso , assim como recursos literários para lidar com a censura.

Como leitura de aprofundamento, não podemos deixar de indicar um grande estudioso de Hume aqui no Brasil, João Paulo Monteiro, que o estudou por toda a vida e escreveu artigos extremamente úteis nos livros Hume e a Epistemologia e Novos Estudos Humeanos. Por enquanto, é isso. Esperamos ter ajudado, boa leitura!