Querido Rafael,
É um prazer responder sua carta pedindo por recomendações, talvez a minha experiência possa ajudá-lo nestes primeiros passos da sua vida como psicólogo. Pelo que pude perceber você gosta de Nietzsche, isso vai te ajudar. Você disse para mim também que se deparou com a esquizoanálise no começo do curso de graduação, certo? E depois, percebeu que sua base teórica vem da filosofia Deleuze e Guattari.
Pois bem, fico contente de ver que o curso de psicologia não te desencorajou a continuar estudando Esquizoanálise, posso imaginar que alguns professores te disseram que o estudo da filosofia da diferença não valeria o esforço. Afinal, diriam eles, a Esquizoanálise ficou para trás e agora é parte dos livros de história de filosofia e de luta antimanicomial. Alguns, mais afeitos à metáforas, podem ter dito que o Anti-Édipo foi como uma bomba que explodiu na França dos anos 70, mas cujos estilhaços não causaram muitos estragos no Brasil do séc. XXI.
Entretanto, parece que você se apaixonou por Deleuze e seu comparsas (me refiro aqui a Foucault, Bergson, Nietzsche, e o querido Espinosa). Sendo assim, eu tenho algumas recomendações que podem te ajudar neste longo – e belo – caminho que você começou a trilhar:
- Antes de mais nada: você não vai entender tudo, pode ter certeza disso. De todas as recomendações, esta é a mais fácil de ser constatada logo nas primeiras leituras. Anti-Édipo e Mil Platôs são livros encharcados de referências de todo tipo. Num mesmo capítulo você vai encontrar físicos, pintores, músicos, etnólogos, antropólogos e psicanalistas, todos citados sem o menor critério pedagógico. É a lógica dos excessos. Mas não se preocupe, por mais que as referências ajudem, a falta delas não atrapalha. Se D&G disseram que uma criança entenderia o Anti-Édipo, então talvez seja porque esvaziar a mente é mais importante do que enchê-la com inúmeros autores.
- Se num primeiro momento parece que D&G querem provar a sua erudição na história, geografia, cinema, psicologia, ciência, religião e outros, pouco a pouco você vai perceber que há um motivo para isso acontecer: a Esquizoanálise é um saber aberto. A tal ponto que não formou uma escola ou abordagem. Aliás, D&G abandonaram inúmeros conceitos pelo caminho, então não cabe a você se apegar muito a eles. Saber disso me facilitou continuar exercendo meu diletantismo. Estudar behaviorismo e psicanálise, astronomia e mitologia, Platão e Diógenes, sem me apegar a nada em específico. Agradeço ao fato de que a esquizoanálise é um péssimo lugar para fundar uma igrejinha de pensamento dogmático. Isso me permitiu estar em constante movimento e diálogo, às vezes de maneira muito tensa, com psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, e outros policiais do desejo. Mas também encontrei muitos aliados pelo caminho, na política, na clínica e principalmente na arte. No fim das contas, descobri que fazer poesia e coquetéis molotovs não é tão diferente da prática do esquizoanalista.
- Terceiro, a falta, infelizmente, existe. Essa constatação me tirou de uma posição histriônica que quase todo estudante de D&G passa: “Viva a produção, dane-se a falta”, gritam eles aos quatro ventos. Ontologicamente a frase faz sentido: a falta não é nada, ela é mesmo secundária em relação ao mar de afirmação unívoca que é a realidade. Tal qual a Substância de Espinosa, a existência é pura potência de existir. Mas o que fazer com a inegável sensação de falta? Em outras palavras, se ela não existe, porque é tão óbvia na prática? Simples, a falta existe porque somos limitados, e é muito difícil nos afirmar em plena potência. Mas não se assuste, jovem estudante, a existência da falta, além de evitar que o esquizoanalista seja um ingênuo, também se torna um constante lembrete: onde a sensação de falta prevalecer, é praí que nossa atenção deve se voltar.
- Seguindo o raciocínio, você aprenderá também a nunca duvidar da força dos agenciamentos que Édipo pode criar: o famoso triângulo papai-mamãe-filhinho. Aqui há uma enorme proximidade entre a orientação ética e o fazer prático. O complexo de édipo é uma zona de enorme atração para o desejo, que pouco a pouco se deixa engolir achando que lá encontrará sua completude. As máquinas desejantes fazem conexões livres, mas são seduzidas e capturadas pela dinâmica doméstica que impede a plena afirmação da diferença. Veja bem, o problema não é exatamente a psicanálise, é a interpretação que se rende à tentação de edipianizar furiosamente e limitar todas as possibilidades de vida (que no limite são infinitas). O problema é lutar pela servidão, confundindo ela com a liberdade.
- E por último, o Esquizoanalista não está imune à tristeza. Por isso, é inevitável, às vezes será um militante triste. Não por escolha, mas por necessidade. Você verá isso na prática. A esquizoanálise foi muitas vezes afirmada por mim como uma grande festa do desejo. Ilusão. Não é nem poderia ser. E o motivo é simples: a conjuntura econômica, social e política não permitem. Você sentirá com cada vez mais força o peso da realidade, que, sem filtros nem antolhos, se tornará intolerável. E não cabe a mim nem a você, jovem esquizoanalista, enfrentar sozinho este leviatã. Deste modo, quanto antes você aceitar a impossibilidade de viver uma festa contínua de potência e bons encontros melhor. Seu caminho é outro, muito mais subterrâneo e delicado. Cabe a você encontrar as frestas, as pequenas aberturas onde o sol possa entrar, uma ínfima rachadura onde uma semente possa crescer.
Estas são, querido Rafael, as minhas humildes recomendações para fazer do pensamento de D&G um aliado nas lutas que você enfrentará ao longo de sua vida. O esquizoanalista acredita que existem outros modos possíveis de viver, mesmo quando as condições fazem tudo para limitar sua imaginação: seu objetivo é ajudar a fazer mundos fugirem. “Há tantas auroras que não brilharam ainda”, dizia Nietzsche, e a esquizoanálise permanece uma aliada nas lutas de libertação, sejam quais forem, para fazer estes mundos virem à tona.
Em suma, se nenhum autor nos salvará dos perigos de viver, se nenhum livro pode nos redimir do desamparo que é a vida, que ao menos a esquizoanálise, com sua caixa de ferramentas, possa tornar-se uma fonte de afirmação da imanência, um oásis de desejo e luta, no meio do deserto que é o real. Isso basta.
Meu cumprimentos,
Do sempre seu, Rafael Trindade.
Referências
- Dark Deleuze – Andrew Culp
- Introdução a uma vida não fascista – Foucault
- Anti-Édipo – Deleuze e Guattari
- Mil Platôs – Deleuze e Guattari
- Os anos de Inverno – Félix Guattari



