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A beleza me toma num ímpeto de partilha. Reparo na orquídea dependurada pelo caminho, e preciso comentar de seus lábios exóticos com alguém; me surpreendo com o contracanto de uma canção, e quero repetir a melodia noutro ouvido; escolho o mesmo prato que os amigos no restaurante para saboreá-lo com comentários. O belo me faz olhar ao redor em busca de alguém que também o tenha visto, e a graça depende desse encontro de olhares. Comigo acontece assim, mas sei que não sou o único. O testemunho dos outros é uma maneira pela qual nós afirmamos a beleza. No entanto, não sei se as outras pessoas o consideram tão fundamental quanto eu. Por isso tenho andado por aí a perguntar: nos momentos mais bonitos, você estava sozinho ou acompanhado?

De meu lado, não hesito na resposta. O que eu vivo junto das pessoas é quase sempre mais bonito. Tenho até dificuldade de justificar esse quase, são poucas as exceções. Mesmo quando estou só, muito da beleza me vem na lembrança do que vivi com os outros. Embora minha preferência pela partilha esteja sempre na ponta da língua, as respostas que recebo variam. Muitas vezes retorna um “como assim?” Eu também não sei ao certo o que quero dizer com bonito. Significativo, importante, memorável talvez. Sei também que essa pergunta carrega a injustiça de comparar experiências diferentes. A despeito disso, acredito que ela começa um bom assunto. É um dos casos em que a resposta importa menos do que a pergunta. Dispor a qualidade da experiência em um espectro de sociabilidade é só uma desculpa para falar de amor. 

Quantas definições diferentes para um só nome. Amor. Há toda uma história de ideias em choque nessa palavra. Segue uma lista muito breve: vontade de fazer bem a alguém; alegria acompanhada da ideia de causa; complacência diante da utilidade de um outro; invenção literária; cuidado necessário à reprodução da espécie; afeição que singulariza e distingue uma pessoa de outra; algo que só se entende como verbo; amizade a que se somam particularidades; alegria-mútua. Em vez de buscar uma definição única para o amor, tenho carregado uma lista de ideias plausíveis. Para uma experiência tão diversa, tenho necessidade de muitos conceitos à mão. 

A partir da pergunta sobre a beleza partilhada, tenho conversado sobre o amor como o prazer de existir juntos. Me agrada a dimensão coletiva que o sentimento toma nessa ideia. Ela contempla tanto a alegria que compartilhamos na intimidade quanto a que experimentamos em um bloco de carnaval. O amor – não custa lembrar – é mais do que um afeto que nos toma a dois por vez: às vezes ele dá as caras quando rimos todos juntos. Há quem se incomode com o uso da palavra amor para experiências banais. Eu, porém, prefiro identificar o amor no banal do que esperar a exceção para então nomeá-lo.

Além disso, aflorada a sensibilidade, o que é exatamente banal? Às vezes sou surpreendido, no meio de um dia qualquer, pelo mistério de existir. É muito estranho estar aqui, vivo. A tristeza faz dessa estranheza um amargor, que geralmente me acontece na solidão. Tenho, é claro, alegrias genuínas quando estou sozinho, e tristezas inevitáveis quando estou acompanhado. Mas é difícil para mim achá-las melhores do que seus contrários. Seja como for, cada vez mais identifico o amor quando ele desponta na superfície como um pensamento do tipo “que bom que você está aqui”. Para mim, como mistério, o existir é muito mais bonito junto dos outros. 

Talvez meu gosto pela leitura e escrita tenha essa preferência como raiz. Quando me encanto por um livro, me torno cúmplice do autor em sua experiência. Alguns dos meus amigos moram dentro de livros. Já outros eu nem conheço, mas sei que dividem agora estas letras comigo. Quando me arrisco em um texto, o faço à espera de companhia. Desejo nas palavras um espaço para a convivência. Quero que meus textos sejam como uma cozinha que recebe amigos aos domingos. Enquanto leio, quero conversar com quem me escreve; enquanto escrevo, quero ouvir quem me lê – ainda que isso pareça impossível. Acima de tudo, eu não quero o fardo de olhar para as coisas sozinho.  

Olhar juntos inventa uma dimensão de que necessito. Compartilhada, a experiência se multiplica em outro ângulo, e se dispõe numa superfície. Percebo como um filme, uma exposição, uma peça mudam a depender da companhia: a experiência triangula. Muitas vezes me pego a gostar mais de ouvir alguém falar sobre a coisa do que da própria coisa. Por isso, quando estou bem acompanhado, sou pouco seletivo com os planos. Qualquer paixão me diverte, como dizem. Entre amigos, um fiasco já se transformou tantas vezes em boa história que eu deixei de me preocupar tanto com o quê, e passei a pensar muito mais no com quem. 

A troca de referências é uma linguagem amorosa. Não subestimo o ato de amor de alguém que me indica o disco que anda a lhe acompanhar no chuveiro, que fala de tal livro que lhe trouxe novas lentes, que me conta de outra pessoa querida que eu preciso conhecer. Afinal, eu faço o mesmo. Tudo que me acontece de importante eu quero (e preciso) contar para as pessoas que amo. Esse é, aliás, um dos jeitos pelo qual eu digo te amo. E, claro, é inevitável, muitos destes acontecimentos são tristes, mas de tristeza bonita o poeta gosta – e é na prosa com os outros que eu me torno poeta. 

No entanto, esse amor não se expressa apenas com palavras. Ora, é de existir juntos que se trata, e nós somos capazes de inventar um universo numa mera troca de olhares. A sensibilidade é coisa que se partilha: o arrepio que começa no braço de um abre caminho pelo braço do outro. É este atravessamento que hoje estou chamando de amor. Às vezes ele é feito de uma partilha, que descobre na voz, na pele, no olhar de outra pessoa aquilo mesmo de que se quer falar. Então começa o gracejo de um assunto que inventa o seu próprio chão. É uma situação de beleza em curto-circuito: falar do bonito que acontece entre nós.


Referências 

Francas Ha, Noah Baumbach
Testamento do partideiro, Candeia
Espiral para sonhos compartilhados, Carolina Caycedo

 

Como citar

LAURO, Rafael. Você também viu? Razão Inadequada, 2025. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2026/02/26/voce-também-viu/>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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