Qual será
o fio que está a nos conectar?
afetos, forças,
jasmin, rosas …
somos tantas, você, eu, as nossas…
entre gestos, palavras,
modos,
em meio a isso – masculinidades tóxicas,
que os atravessam
apertam, agridem, corroem
mas é sob nós que as violências recaem,
das jovens às senhoras.
É uma mulher morta a cada seis horas?
Um estupro a cada seis minutos?
Para além das subnotificações,
e olha que essas estimativas excluem outras concepções.
Das tantas que findam por doenças emocionais
causadas por acúmulos de opressões,
xingamentos diários,
abusos de muitos modos e tratos,
objetificações.
Em comportamentos reproduzidos,
muitos modos de relacionamentos abusivos.
E desde então,
seguimos correndo perigo,
não se pode confiar,
Já parou pra pensar?
Que no patriarcado,
ao invés de ser massivamente combatido e criticado,
nossos corpos são moldados.
“Não confie, fique atenta,
presta atenção no gesto,
no modo que senta,
não deixem eles pensarem,
não fique bêbada,
se comporte,
não dê sorriso mole,
esse vestido tá curto,
estava na rua essa hora.
Absurdo!”
Não podemos nem caminhar tranquilas,
seja qual for a hora do dia,
voltando da balada,
da aula, da natação,
pegando uma simples condução,
é uma pandemia social.
Machocracia internacional.
E na televisão, os poderes conseguem mudar a percepção,
o foco, a atenção,
até no modo de anunciar,
a ênfase é sempre na vítima
como se fosse caso isolado,
não escancaram
o quanto tem a participação do estado,
das ideologias e afins
E assim, são muitos
artifícios,
para deixar implícito,
sequer usam a palavra assassino,
Sim,
eles combinaram de nos estrangular,
na empresa, na rua,
na sala de aula e
principalmente no lar,
Do sutil ao literal,
estamos sempre sozinhas,
mesmo que tenha 20 das minhas,
precisamos ter um macho
para estarmos acompanhadas de fato.
Enquanto isso, seguem firme com seus propósitos
de demarcar nossos modos,
do sentar ao falar.
Não se esqueça,
são várias camadas
complicações variadas,
pois ouço que o homem
no capitalismo,
quando explorado,
é no patriarcado que é abraçado.
Mesmo o homem preto
também discriminado e oprimido,
entra nessa de
se afirmar
nas explorações dentro do lar.
São tantas violências,
muitas nem são percebidas
tratadas na normalidade
das mais descabidas.
Maria da Penha virou lei,
depois de tanta denúncia e dor
Mesmo assim,
mesmo gritando
Não é Não
Esse sistema segue
na base de muita combinação,
do policial ao patrão
dos governos aos estados,
seguem na união de manter firme
o patriarcado.
Explorar nosso gênero
de muitos modos.
E nós,
o que podemos?
Nos informar, nos juntar
Fortalecer nossas redes,
seguir com muita sede
de desmantelar esses sistemas e sua reprodução,
fortalecer a luta com muita educação,
cobrar políticas públicas,
melhores condições,
criar novos modos
insurgir em ações
transformar raiva em disposições,
mas cuidado!
Para não adoecer seu estado, inclusive emocional
a vida não é só luta,
partilhe com as suas
seus afetos e prantos
Nos organizemos e não se esqueça
são muitos os gestos de controle vestidos de sutilezas,
por isso, não há saída
se queremos nos manter vivas
não vamos conseguir
até que estejamos de fato unidas.
Denúncias, gritos e muita luta
para que não fique para trás nenhuma,
atenção:
Tem o problema da intersecção,
raça e classe também caminham nessa união,
existem tantas mulheres,
camadas e ambições
inclusive as que pensam
beneficiar-se no patriarcado
e tais aberrações,
migalhas e resquícios
por mais que soe esquisito.
E não podemos jamais esquecer
que é principalmente sobre poder,
tantas tramas encenadas,
estupros, abusos e tantas violências,
bilhetes de amor em sentenças.
Não podemos ficar só nas medidas cautelares,
que funcionam como maquiagens sociais,
papéis que não fazem mais do que nos proteger na teoria
e nos deixam morrer de muitos modos todos os dias.
Não é só sobre leis,
envolve muito mais,
e não se iluda
ou todos lutam
ou isso não muda!
Não tem meio termo
ou você luta pra desmantelar
ou é conivente,
propenso a também se beneficiar.
Não fique em silêncio,
não se trata de ficar na sua,
o silêncio não é neutro
e não é exagero.
Se é social
a participação é coletiva
pois nesse instante, alguma criança é abusada, uma mulher espancada ou mesmo está perdendo sua vida.
Que nós possamos mais para nossos corpos,
para além das normas, funções e escopos.
Que gênero não signifique nada
muito menos mais trabalho
Diluamos inclusive o que há de utilitário
que possamos viver nossos modos
para além do imaginário
…
Referências
Em memória de Maria Beatriz Nascimento e mulheres também vítimas de Feminicídio – PRESENTE
Livro: Canção para ninar menino grande – Conceição Evaristo
Livro: Por um Feminismo Afro Latino Americano – Lélia Gonzalez
Álbum Musical: Retrato Falado (em especial a canção Mulher de Luta) – Dandara Manoela




