Cedo ou tarde, sozinhos ou acompanhados, todos nós temos a necessidade de declarar nossos interesses. Nestes momentos, nada mais natural do que dizer: “gosto disso”, “odeio aquilo”. Estas declarações nos organizam, e através delas podemos nos conhecer e reconhecer como parte de um grupo. Aos poucos, o que era um conjunto de interesses se transforma em uma declaração de identidade: “sou isso”, “não sou aquilo”. A partir daí, os nomes que nos atribuímos – ou que nos são atribuídos – ganham uma nova força. O problema é que ela é dúbia. Em tensão com os desejos, a identidade leva a um endurecimento: ajuda nas lutas, fortalece as causas, nos faz encontrar semelhantes, mas pode enrijecer aquilo que somos. Como uma moldura, organiza o quadro enquanto limita a tela. Daí a necessidade de pensar com cuidado aquilo que dizemos de nós mesmos.
“Gosto disso, então sou isso e não aquilo” é uma operação que serve à nossa própria organização. A partir desse corte, a vida fica mais prática. O verbo se torna adjetivo, e o adjetivo se transforma em substantivo, e isso propicia atalhos na comunicação. Mas as afirmações categóricas nunca deixam de ser abstrações baseadas na experiência mais constante que temos de nós mesmos. Sob a superfície dessa repetição, os interesses se movem mais rápido do que os nomes. Daí a necessidade de, vez ou outra, abrir brechas no discurso identitário para dar passagem a novas possibilidades. Isso, porém, não é fácil: os nomes são máscaras que aderem ao rosto, quanto mais as usamos mais dolorosa se torna a desidentificação.
A identidade sexual é um bom exemplo: serve para a luta lá fora, mas também pode nos capturar por dentro; o nome que serve de abrigo não demora a sugerir medidas estreitas para o nosso comportamento. A identidade pode se transformar em figurino: passamos a atuar a imagem, em vez de viver o desejo. Para representar bem, buscamos ser o caso exemplar, e cedemos a um imperativo de adequação. Acaba invertida a ordem que levava dos interesse à identidade, e os nomes passam a prescrever as práticas, fazendo com que a fluidez do desejo se perca em imagens estanques.
Em vez de acreditar no que nos dizem ser bom, é melhor investigar o que nos interessa para ver se é realmente bom. Desprender-nos da normatividade em busca de alguma autenticidade, eis o objetivo. Para tanto, basta perceber a complexa trama de que é feita nossa subjetividade. Nossos desejos não respeitam o princípio de não-contradição, e isso faz com que os nossos interesses sejam sempre maiores do que os nomes que supostamente os contém. Nesse sentido, a heterossexualidade talvez seja a forma da contenção pura: uma prática normativa e compulsória que submete o sujeito a um conjunto fixo de pontos entre os quais o interesse deve transitar. A monogamia não fica muito atrás.
A identidade é um mecanismo regido pela epistemologia binária, isto é, por uma visão de mundo que precisa organizá-lo em pares opostos para compreendê-lo, sendo uma das mais significativas a divisão feita entre homens e mulheres. Esse corte não se faz sem violência, sem excluir todo um espectro de possibilidades que não se encaixam em nenhum dos extremos. À pergunta “Homem ou Mulher?”, interpõe-se uma imensa diversidade de respostas. O mesmo acontece com hetero e homossexualidade, monogamia e não monogamia, etc. Em escala íntima, nossos interesses extravasam as identidades e é por isso que não podemos nos agarrar tranquilamente a elas. Ao contrário, precisamos fazer um uso cauteloso, buscando a maneira pela qual os nomes nos favorecem. Por mais precisão que um nome possa ter, ele nunca dará conta do real. De onde brota o desejo de estancar a multiplicidade? A paranoia classificatória não nos torna mais aptos a compreender, ao contrário, nos torna mais julgadores e – o que é pior – julgados.
Especialmente aos dissidentes, cabe atenção aos momentos em que declaramos nossas identidades. É preciso saber se as pessoas que ouvem estão dispostas a ir além dos nomes: em primeiro lugar, porque muitas delas estão presas a preconceitos, e o que sucede à declaração é a violência; em segundo, porque a identidade muitas vezes produz uma opacidade que turva a visão da relação. O nome não traz junto dele o esforço crítico que fizemos ao nos apropriar dele, que nos fez encontrar nuances naquilo que significa para nós. Assim, quando enunciado, ele pode afastar pessoas que poderiam ter sido antes colocadas em contato com os interesses, com os valores, em suma, com uma maneira de pensar. Para estabelecer a relação, às vezes é preciso dispensar a mediação.
Desconfiar das declarações de identidade é deixar a porta da mudança entreaberta. Somos intimados a adotar nomes, mas podemos recusá-los intimamente, porque nossos interesses são indeclaráveis. É impossível prever o quanto dura um interesse e, consequentemente, inviável adotar uma identidade definitiva. Somos algo que se renova, que se movimenta, que se experimenta. Como os interesses não se sustentam sem as alegrias que os alimentam, não adianta querer sustentá-los se elas não estiverem presentes. Lá onde a alegria acabar, os interesses se apagarão. Assim, o que queremos evitar é sacrificar o desejo em nome da identidade.
Para escapar das armadilhas da identidade, é valioso perceber que o interesse é apenas uma direção que nos favorece em termos de alegria. O que dizemos ou o que dizem que somos importa menos do que a maneira como nos sentimos. Recuperar o que há de indeclarável em nossos interesses é percebê-los como tendências, não como nomes. Libertar as alegrias de suas cadeias significativas, de seus quadros identitários, é recuperar a afetividade que se apresenta diretamente no encontro com o mundo. Nunca seremos capazes de fazer uma lista exaustiva de interesses, porque quanto mais alegria, mais a lista cresce. Não é, portanto, uma questão nominal enciclopédica, mas uma questão indicativa indeclarável.
Naquilo que atrai, procuramos os índices intensivos; lá onde está nosso fascínio, estará também alguma intensidade. Resta saber se seremos capazes de nos relacionar com ela. Isso só se descobre em contato, e a crítica da identidade é uma ocasião para a experimentação. Questionar nossos predicados é uma prática de suspensão das proibições, por meio da qual nos colocamos em relação, e voltamos a perguntar se os nomes realmente nos dizem respeito. O interesse é uma razão de composição, enquanto a identidade é uma navalha afiada em ambos os lados: ela dá contorno ao rosto ao custo de cortá-lo.
Quando nos apaixonamos por alguém, estamos mais do que interessados, estamos envolvidos. Descentrados, vamos até a margem daquilo que até então pensávamos que éramos e, ali, na fronteira da identidade, encontramos a possibilidade de vir a ser outros. Somos seduzidos pelos interesses de quem amamos, e assim se inventa um contraponto que acontece muito além dos nomes. É na descoberta de novos interesses que o amor floresce, e é também esse o campo que se amplia com o desabrochar da relação.
Referências
Judith Butler, Problemas de Gênero
Paul Preciado, Um apartamento em Urano: Crônicas da Travessia
Gayle Rubin, Políticas do Sexo
Foucault, História da Sexualidade 1




